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A misteriosa arte dos leques e como usá-los na decoração

Acessório milenar é produzido por povos no mundo todo, que imprimem em suas confecções diferentes histórias e culturas

Por Marina Marques Atualizado em 1 jul 2022, 14h40 - Publicado em 3 jul 2022, 09h00

Acessório milenar, o leque é um elemento que carrega uma linguagem misteriosa – inclusive sobre seu surgimento. Muitas águas se passaram até que o leque ganhasse esse espaço de item de moda e até de decoração. Acredita-se que sua origem tenha se dado na China do século VII, apesar de retratado desde a antiguidade, em pinturas murais do Egito, Assíria e Pérsia.

A peça acabou sendo difundida no Japão, aliás, a palavra portuguesa leque é a forma abreviada de “abano léquio”, sendo léquio o adjetivo relativo às ilhas Léquias (Ilhas Ryukyu), situadas ao sul do Japão. Foi por lá que os europeus se interessam pela novidade, trazendo-a para a Europa no final do século XV.

Muito mais do que frescor

Não só para amenizar o calor o acessório foi inventado. Além de se tornarem itens de luxo e elegância na moda, os leques representam, na cultura asiática, o elemento ar, sendo símbolo de equilíbrio e purificação. E se hoje o acessório é sinônimo de delicadeza, no passado eram utilizados como instrumentos de ataque e de defesa por praticantes de artes marciais. Como arma, é produzido com hastes de metal afiadas na ponta e seda endurecida.

Já como acessório de moda no passado, os leques eram capazes de dizer muito sobre aqueles que os carregavam. Por meio deles, era possível definir a posição social, o título monárquico, a época e, principalmente, o local onde foi produzido. 

“O seu objetivo principal era de refrescar em dias de calor, porém ao longo dos anos o leque se tornou um elemento usado no dia a dia para mostrar poder e sofisticação, também como símbolo em rituais religiosos e, mais recentemente, na decoração”, revela Mariana de Oliveira, curadora e diretora da Etnias Mundi, e-commerce de artesanato que reúne leques do Brasil, México, Colômbia, Vietnã e Gana.

Um leque de culturas

De seu surgimento na China, passando pelo Japão e até chegar na popularização europeia, o leque foi adquirindo características que expressam a cultura de cada lugar onde foi inserido.

Na China, por exemplo, os leques apresentam confecção em materiais como marfim, seda e metal, além de técnicas de pintura, entalhe, montagem e colagem. Alguns de seus modelos históricos foram pintados com cenas palacianas chinesas, com figuras humanas. Já na França, muitos leques trazem gravuras de cenas pastoris do século XVIII e medalhões com cabeças femininas e guirlanda de flores. Na Alemanha, são inclusive encontradas peças feitas de seda, prata, bordado e renda com motivos florais.

Mais recentemente, com o fortalecimento da decoração afetiva, eles passaram a ganhar destaque, tanto pelas técnicas de produção 100% artesanais, quanto pelo fato de refletirem as histórias e culturas de seus locais de origem – o que refere-se a lugares espalhados pelo mundo todo.

Leque Bolgatanga - Gana - FOTO divulgação 2
Os coloridos leques de Bolgatanga, cidade histórica de Gana, na África Ocidental | Foto: Etnias Mundi/Divulgação

“O mais interessante, é que cada região desenvolveu não só técnicas diferentes de produção, mas também novos desenhos e feitos com materiais locais”, afirma Mariana. É o caso dos leques de Bolgatanga, cidade histórica de Gana, na África Ocidental, onde grupos de artesãos produzem peças utilizando o couro e o capim-elefante, planta de origem africana.

Leque Bolgatanga + Artesã - Gana - FOTO divulgação
Os leques de Bolgatanga são produzidos por artesãos em couro e capim-elefante, planta de origem africana | Foto: Etnias Mundi/Divulgação

Assim como em outros produtos artesanais do continente africano, os leques de Bolgatanga refletem o espírito de seu povo que, sem medo, imprimem grafismos multicoloridos. Segundo Mariana, ao longo dos séculos, os artesãos de Bolgatanga transferiram as habilidades tradicionais de tecelagem para as gerações seguintes, incluindo os jovens de hoje. Essa forma sofisticada de fazer leques é única e representativa dessa região da África. 

Leque Vietnamita - Vietnã - FOTO divulgação - Ambiente
Os leque vietnamitas simbolizam prosperidade | Foto: Etnias Mundi/Divulgação

Já no Vietnã, os materiais que se destacam são o bambu e o algodão. Segundo as pesquisas da Etnias Mundi, esses leques asiáticos são feitos numa região chamada Kim Son, que conta com cerca de 20 vilarejos e abriga aproximadamente de 800 artesãos, além de ser reconhecida pelo seu artesanato há mais de 200 anos. “Esses são feitos no tear manual e, segundo o Feng Shui, simbolizam prosperidade, a sorte e a proteção. Nesse caso, o leque é ideal para quem busca redirecionar boas energias para um determinado espaço”, explica.

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Os leques colombianos são feitos por mulheres herdeiras de uma técnica ancestral
Os leques colombianos são feitos por mulheres herdeiras de uma técnica ancestral | Foto: Etnias Mundi/Divulgação

Nos leques da Colômbia, a técnica é o trançado da fibra de Iraca. As peças são feitas por um grupo de mais de 100 mulheres, herdeiras de uma técnica ancestral que passa de geração a geração. São mães e chefes de família, muitas vezes vítimas do conflito armado, do município de Sandoná, departamento de Nariño, Colômbia. Com esforço e dedicação para entrelaçar as fibras, elas produzem um artesanato reconhecido mundialmente por sua originalidade, qualidade e design. Podem ser encontrados na cor natural, em cores únicas ou misturadas. 

Leques Mexicanos
Os leques mexicanos são confeccionados com um arco de madeira | Foto: Etnias Mundi/Divulgação

No México, um arco de madeira serve de suporte para o trançado da palha da palmeira Jipi Japa. Segundo Mariana, esses leques são tecidos individualmente à mão por um pequeno coletivo de mulheres maias, que cultivam a palmeira famosa por sua textura fina, delicada e ao mesmo tempo resistente, que permite a confecção de objetos flexíveis, como chapéus ou leques.

Leques feitos à mão no Amazonas, por artesãos da etnia Baré
Leques feitos à mão no Amazonas, por artesãos da etnia Baré | Foto: Etnias Mundi/Divulgação

Por fim, no Brasil, artesãos indígenas da etnia Baré usam a palha de Tucumã para trançar peças importantes para a manutenção de sua cultura. Localizados ao longo do Rio Negro, no estado do Amazonas, o artesanato é uma das principais fontes de renda dessa comunidade. 

Artesã Etnia Baré
Com a fibra de piaçaba, cipó-titica, cipó-uambé e arumã, sementes naturais e madeira, o núcleo que reúne indígenas das etnias Baré, Baniwa, Tariano, Tukano e Tuyuca produz seu artesanato com as técnicas tradicionais do trançado e do entalhe | Foto: Etnias Mundi/Divulgação

Compondo com leques na decoração

Na décor da casa, o leque pode ser uma opção para trazer unidade aos tons das paredes e móveis, acompanhando a coloração já existente, ou também pode transformar-se num ponto de atenção, aproveitando os modelos mais coloridos.

Decoração com leques
Composição com leques diversos | Foto: Etnias Mundi/Divulgação
Decoração com leques
Decoração com leques Bolgatanga emoldurados | Foto: Etnias Mundi/Divulgação

A tendência da gallery wall, por exemplo, é uma chance divertida de inserir o acessório. Além de charme, os leques adicionam mais movimento às paredes com quadros, além de textura e personalidade. A leveza de suas formas orgânicas são capazes de “quebrar” as linhas retas das molduras, deixando a composição mais interessante.

Decoração com leques produzidos em Bolgatanga
Decoração com leques produzidos em Bolgatanga | Foto: Etnias Mundi/Divulgação
Decoração com leques
Leques vistosos podem ser usados para trazer personalidade a paredes neutras | Foto: Etnias Mundi/Divulgação

Já um leque imponente, de tamanho generoso, pode ser o suficiente para decorar uma parede lisa, trazendo ares de galeria de arte a uma sala de jantar. Basta deixar a criatividade fluir!

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