A transição capilar me ajudou a me aceitar como mulher negra

Mudança interna, pessoal e complicada, abrir mão da progressiva é muito mais do que apenas mudar de cabelo

*Depoimento de Anna Laura Moura, estagiária de texto de CLAUDIA

A relação com o próprio cabelo é um marco para a vida de uma mulher. O nosso cabelo define quem nós somos, nossa personalidade e nossas preferências. Um corte ou um penteado pode dizer muito sobre você mesma. Porém, certas preferências que temos por algum estilo e – principalmente – nosso tipo de cabelo, podem trazer experiências boas ou muito dolorosas.

Se você é uma mulher de cabelo cacheado ou crespo, certamente já deve ter ouvido comentários do tipo “por quê você não alisa seu cabelo?” ou “nossa, é muito armado, por quê você não passa creme?” e até mesmo “você ficaria mais bonita com o cabelo mais baixo/liso”.

Mas quando você é uma mulher negra de cabelo cacheado ou crespo, os comentários são bem mais ofensivos, atrelados também à cor da pele. Pois bem, esse texto não será sobre ditar regras estéticas, e sim sobre o padrão de beleza eurocêntrico no qual nós somos vítimas.

É claro que esses comentários inconvenientes disfarçados de “sugestões”, acompanhados de apelidos ofensivos que sempre dizem respeito à combinação cor da pele mais cabelo cacheado cacheado/crespo acontecem, em sua maioria, na adolescência.

Eu vivi a minha adolescência entre os anos de 2006 e 2012. No auge dos meus 15 anos, eu já tinha ouvido muitas coisas, mas não dava atenção. Até que comecei a me incomodar e fazer alguns questionamentos internamente: por que implicavam tanto comigo? Afinal, o que eu havia feito de errado pra receber tantos apelidos ruins e ser motivo de piada o tempo todo?

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Meu cabelo sempre foi do tipo misto: ele é bem fino, tem muito frizz na raíz e possui cachos abertos, entre os tipos 3A e 3B. Naquela época, não havia tanto acesso a cremes próprios para cabelo cacheado, apenas para os lisos. A progressiva estava em alta.

Eu, tão nova e já cansada de tanto ouvir dos meus colegas de classe que eu “ganharia um pente de presente”, entre outras ofensas, decidi que iria alisar o meu cabelo. Eu não sabia como cuidar e queria ter “menos trabalho”, além disso, se perder meus cachos implicasse em parar de ouvir aquelas coisas e ser aceita pelos meus colegas, assim eu faria.

Em 2010, fiz minha primeira progressiva. Meu cabelo ficou pesado e enorme, e a minha autoestima melhorou bastante. Porém, os comentários que antes eram direcionados ao meu cabelo e à minha pele, se concentraram somente na minha pele.

Meu cabelo não era mais um problema, mas minha cor ainda era. Mesmo assim, se meu cabelo estava no padrão, eu estava bem. Com relação à melanina, não havia nada que eu pudesse fazer. Ao menos era assim que eu pensava quando tinha apenas 16 anos.

19 anos

19 anos (Instagram/Divulgação)

Foram cerca de seis anos com a progressiva. Terminei o Ensino Médio, fiz curso pré-vestibular e entrei na faculdade ainda totalmente lisa. Arrumei um namorado e dei início à minha carreira.

Durante a graduação no curso de Jornalismo, conheci mulheres incríveis, pois a faculdade me proporcionou grandes experiências e vivências. Eu estava amadurecendo!

Nessa trajetória, conheci mulheres pretas que usavam seu cabelo natural e já tinham passado pela transição capilar anteriormente, e me encantei com a história de cada uma. Eram blackpowers lindos, cachos incríveis.

Nesse meio tempo, comecei a questionar minha identidade, que também dizia respeito à minha negritude. Afinal, eu era uma mulher negra de cabelo liso não-natural. Isso era errado ou certo? Eu estaria negando minhas raízes? Isso me fazia menos preta?

Eram perguntas complexas, mas de uma coisa eu sabia: não estava mais me sentindo bem comigo mesma e meu cabelo liso. Decidi mudar. Sabia que não seria fácil porque foram muitos anos de química, e meu cabelo tinha caído bastante por causa dos produtos. Aos 20 anos, eu queria resgatar uma identidade que eu nunca deveria ter deixado para trás.

Foi então que optei por usar box braidsAs tranças, que além de quebrar um galho na transição capilar porque são muito práticas, também significaram a minha autoaceitação. Eu era negra. Sempre fui. E quando coloquei as tranças, assumi isso para mim e para o mundo todo.

Nessa época, como um insight, eu entendi tudo o que havia passado e porque eu tinha decidido fugir disso. Era a pressão social, o racismo e a padronização. E eu cedi a eles. Quando trancei meu cabelo, resgatei aos poucos quem eu verdadeiramente era.

Da primeira trança à penúltima, da esquerda para a direita

Da primeira trança à penúltima, da esquerda para a direita (Instagram/Divulgação)

Usava tranças de 3 em 3 meses e, nos intervalos, deixava meu cabelo respirar, disfarçando com turbantes de todos os tipos. Quanto mais passava o tempo, mais difícil ficava de controlar os cachos que cresciam cada vez mais. A técnica de puxar a raíz com chapinha – que era extremamente agressiva aos fios novos que estavam crescendo – já não estava mais funcionando.

Infelizmente, acabei ficando dependente das tranças, pois era apenas trançada que eu me sentia bonita. Não conseguia aceitar meu cabelo do jeito que estava ficando, e ao tentar sair de um padrão, acabei entrando em outro.

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Quando estava completando 1 ano e 7 meses sem progressiva, decidi cortar o cabelo. Aos poucos, fui aceitando minha nova versão e me apaixonando aos poucos por ela. Após retirar a penúltima trança (quarta foto da imagem acima), percebi que estava quase chegando lá.

Dias depois, cortei um chanel de bico e meu cabelo formou os cachos mais graciosos que eu já tinha visto, e eu era a dona deles. Após testar muitos cremes, meu cabelo gostou de uma linha específica, e tenho toda a paciência do mundo pra cuidar do que lutei tanto pra conseguir.

 (Instagram/Divulgação)

Ainda estou em transição capilar e faltam alguns meses para me livrar totalmente da química. Atualmente estou com as box braids, mas com um avanço: coloquei por questão de gosto, pois acho incrível o estilo e toda a ancestralidade que carrego em cada trança minha.

A parte boa, é que com ou sem a trança eu continuo me amando e valorizando cada traço meu. Os comentários com relação à minha pele escura perduram, assim como o racismo sempre existirá, assim como com minhas tranças. Mas sigo resistindo, dessa vez muito mais estável e confiante.

Infelizmente, a sociedade impõe muitas regras para nós mulheres: ser branca, ser magra, ser lisa… mas não somos obrigadas a seguir. Se você tem progressiva e gosta do seu cabelo liso do jeito que está, tudo bem. Se não se sente mais a vontade e quer passar pela transição, tudo bem também! O que importa é fazer o que tiver vontade, e principalmente: se recuse a ser o que os outros querem. Karol Conká ensina: “Seja o que quiser ser”.

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