Beauty noise: quando as tendências de beleza fazem você achar defeitos que nem via
Em um cenário de rotinas intermináveis e conselhos de beleza que chegam de todos os lados, ouvir a si mesma tornou-se um desafio
O formato dos lábios mudou. Uma hora, os ideais são volumosos. Outra, são naturais, do jeito que você os conhece desde que nasceu. É exaustivo acompanhar essa exigência, esse vaivém de tendências que, ao contrário da moda — quando bastava substituir o vestido preto balonê de uma temporada pelo verde de paetês lânguido no guarda-roupa —, torna as mulheres sujeitas a uma padronização involuntária, na maioria das vezes em contradição com o movimento anterior.
E, diferentemente das roupas, não é possível ter um acervo de formatos de bocas para acompanhar a troca constante de regras ditadas pelos algoritmos. No entanto, nem todas conseguem escapar dessa influência e viver de outra forma. Esse barulho cada vez mais alto, alimentado pela profusão de tendências, opiniões, prescrições e medicamentos, é chamado de beauty noise, em tradução livre, “ruído da beleza”.
“Ele não é um diagnóstico médico, mas um conceito atual para descrever uma sobrecarga de referências externas, que acaba ocupando o lugar das percepções individuais da mulher sobre a própria beleza”, comenta a dermatologista Maria Bussade.
De acordo com a especialista, o fenômeno desvia a atenção da mulher de si mesma e distorce a percepção sobre o que precisa ser corrigido — e pode até criar a sensação de que há algo a ser corrigido quando, na realidade, não há. “Os ruídos vão se tornando uma pressão cultural para produzir rostos semelhantes, usando os mesmos produtos, todo mundo com as mesmas rotinas. É muita gente falando como a mulher deveria parecer”, explica. Como consequência, elas começam a perder a própria identidade e têm dificuldade de entender o que realmente querem. “Percebo que a pergunta deixa de ser ‘o que me incomoda?’ para ‘o que disseram que deveria me incomodar?’”, alerta a médica.
Entre os principais gatilhos desse efeito dominó estão as redes sociais, que amplificam a avalanche de informações sobre estética, com algoritmos trabalhando a favor da disseminação do visual do momento. “O excesso de exposição de rosto, corpo, imagens com filtros, editadas, gera desgaste e ansiedade nas mulheres”, comenta.
Ela também chama atenção para o impacto da viralização de procedimentos e técnicas. “De repente, tem um novo defeito que todo mundo quer corrigir. Esses algoritmos são usados no mercado da beleza. As mulheres precisam estar atentas.” A insatisfação com a aparência também potencializa o ruído, impactando especialmente as gerações mais jovens — meninas muito novas que aprendem, desde cedo, que a beleza está em primeiro lugar.
A dermatologista Gabriela Bastos relata ser comum receber pacientes pedindo para aplicar tecnologias que viram no TikTok para melhorar colágeno e rugas, por exemplo. “Nessa hora, meu papel passa a ser, também, o de convencê-las de que aquilo que viram nas redes sociais talvez não traga o resultado esperado e de que há procedimentos mais indicados para o que desejam.”
Muito barulho por nada
No caso do transtorno dismórfico corporal (TDC) — condição de saúde mental marcada pela preocupação excessiva com um defeito físico inexistente ou pequeno —, Bussade alerta que ele não é sinônimo de beauty noise. “Enquanto os ruídos são interferências relacionadas com a cultura, com o excesso de estímulos, comparação e mudança constante de referência estética, a paciente mantém a capacidade crítica quando recebe orientação.
No TDC, há sintomas persistentes, comportamentos repetitivos, sofrimento e prejuízo funcional. É uma questão psiquiátrica”, explica. Ela acrescenta que, segundo a literatura, mais de 20% de quem se submete a cirurgias plásticas apresenta TDC. “Como uma coisa acaba se sobrepondo à outra, é importante que o profissional identifique e diferencie o caso de cada cliente.”
Nos consultórios, existem comportamentos que revelam os “ruídos da beleza”. “Há quem chegue com imagens salvas de outras pessoas; outras começam com pequenas alterações. Também há mudanças que não chamam a atenção até serem percebidas em uma amiga ou conhecida e que aí, então, passam a incomodar”, destaca. Nesses casos, a dermatolgosita investiga o grau de influência externa perguntando se a paciente quer mesmo melhorar aquele aspecto específico ou se está tentando se aproximar da imagem de outra pessoa.
No Brasil, a cirurgia plástica também se tornou parte do ruído. “Às vezes, elas nem sabem o que gostariam de melhorar e têm dificuldade de expressar o que estão sentindo. As mulheres vão mudando características físicas de acordo com a tendência, com o que foi falado nas redes sociais, com o que todo mundo está fazendo”, observa.
Um termômetro disso são as plásticas de celebridades. O cirurgião Jeser Castro relata que “toda cirurgia da Anitta, da Bruna Marquezine, por exemplo, reverbera bastante”. Recentemente, ambas fizeram procedimentos estéticos no nariz, o que aumentou a demanda nos consultórios.
“O que observo é pacientes procurando o mesmo que a artista famosa fez, mas, na verdade, elas querem transmitir uma imagem semelhante. Se for de sofisticação, querem mexer no nariz; se desejam uma imagem de mais sensualidade, de poder, a busca é por lábios maiores”, explica. “O que ocorre muitas vezes é a cliente já ter as características que está buscando. Quando é assim, eu não indico o procedimento que ela veio buscar e sugiro outras abordagens”, completa.
O risco está em transformar esses ciclos em questão médica. “A paciente vai entrando numa sequência de procedimentos sem objetivos claros, ajusta uma característica, depois parte para outra e nunca está satisfeita”, diz Bussade sobre os perigos de descaracterizar a face, acarretando complicações e frustrações.
Castro cita, como exemplo, alguns modismos que, não raro, geram arrependimento: “Na bichectomia, popularizada pelas redes sociais, a retirada de gordura da região das bochechas, em rostos que já são magros, pode fazer pouca diferença e gerar insatisfação; já na volumização facial com preenchimentos não absorvíveis, o risco é de deformações irreversíveis”. E há também a falsa sensação de que combos de vários procedimentos simultâneos, corporais ou faciais, valem mais a pena, até financeiramente. “Para esses casos, há inclusive uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) alertando médicos e pacientes para os riscos à saúde de cirurgias combinadas no mesmo dia”, aponta.
Através do espelho
Os ruídos não se restringem à comunicação de massas, mas também se instalam na intimidade. Até o autocuidado, aquele momento reservado só para si, pode ser fonte de ansiedade. “Cuidar da pele é muito bom, mas não pode gerar estresse nem autovigilância constante”, adverte Bussade. É comum que, diante do espelho, o beauty noise se manifeste na observação de poros, olheiras, mandíbula, lábios, pontos de flacidez ou gordura. “A ansiedade em relação ao envelhecimento também é ruidosa. Tem a ver com a sensação de estar atrasada em relação à própria aparência, sempre devendo alguma coisa”, observa.
Para silenciar esse barulho, Bussade aponta que a relação entre médico e paciente é fundamental. A parceria permite identificar as queixas de maneira global, sem que sejam tratadas de forma isolada ou reducionista. Também é importante que a mulher procure exercitar seu senso de autocrítica e procurar a opinião de mais de um profissional.
“Além disso, vale buscar acompanhamento psicológico e até psiquiátrico, caso haja suspeita de algum distúrbio”, aconselha. O papel do especialista antes de qualquer intervenção estética é questionar e investigar, se preciso, a queixa real da pessoa, além de avaliar se eventuais procedimentos são compatíveis com a anatomia e, sobretudo, se vão manter a identidade dela. “A individualização deve ir na contramão da padronização, buscando caminhos para não querermos parecer todas iguais”, conclui.
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