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Sonhos: o que eles significam e qual é a importância para as nossas vidas?

Caso não sonhássemos, poderíamos sofrer graves danos em nossa memória. Vem entender!

Por Kalel Adolfo 3 Maio 2022, 09h07

Os sonhos estão sempre cercados por mistérios e interpretações mirabolantes: há quem diga, por exemplo, que sonhar com a queda dos dentes é sinônimo de morte próxima. Outros afirmam que a cobra é um sinal de que alguém está te traindo. Mas todas essas explicações, além de serem altamente improváveis, são puramente esotéricas.

Para Danielle Admoni, psiquiatra na Escola Paulista de Medicina UNIFESP, sonhar com pássaros não terá o mesmo significado para todos, já que cada um traz uma bagagem de vida diferente. Se seguirmos esse raciocínio, até as leituras místicas devem levar a nossa individualidade em consideração, já que generalizar interpretações acaba sendo um grande equívoco.

Mas calma: isso nem de longe significa que eles não carregam significados e simbologias importantes para a nossa vida. Ao contrário do que muitos pensam, sonhar é imprescindível para a manutenção de nossa saúde mental. Ficou curiosa? Então vem entender tudo sobre o universo fascinante dos sonhos:

Por que sonhamos?

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De acordo com Danielle, os sonhos estão relacionados à fixação de memória. “Antes nós acreditávamos que dormir era sinônimo de descansar o cérebro. Mas hoje sabemos que acontecem vários processos inflamatórios, imunológicos e cerebrais importantíssimos neste período. Por isso é tão importante dormir bem”, explica a psiquiatra.

A psiquiatra clarifica que o conteúdo dos sonhos — independente da temática — está relacionado a coisas que aconteceram durante o dia. E claro, também é possível sonhar com eventos que rolaram durante a semana ou há anos. Porém, existe uma verdade absoluta: os sonhos quase sempre vêm para expor uma situação que não demos a devida atenção.

“Às vezes, vivemos uma situação durante o dia que não significou nada. Mas, ao sonhar, nós entendemos o quanto aquilo nos impactou. Essa é uma chance de reviver experiências através de perspectivas diferentes”, declara.

Essa mudança de perspectiva, acoplada ao fato de estarmos plenamente atentos ao conteúdo do sonho durante à noite, faz com que a gente vivencie antigos acontecimentos com novas sensações. Em processos terapêuticos de autoconhecimento, como a psicanálise, isso é extremamente importante.

Os sonhos explicados pela psicanálise

Danielle reitera que a ligação entre o subconsciente e os sonhos é uma proposta da psicanálise, que tem Freud como seu principal representante. “O sonho e os nossos atos falhos são as manifestações da inconsciência. Sabe quando você está com alguém, mas gosta de outro, e acaba trocando os nomes sem querer? Este é um ato falho”, diz.

“Nós tentamos barrar o inconsciente o tempo inteiro. Mas, quando dormimos, a nossa defesa vai por água abaixo e os desejos reprimidos vêm à tona. Normalmente são coisas que não queremos admitir. Por isso eu reafirmo a importância de levar os sonhos para a terapia, já que eles são manifestações do que não conseguimos ou queremos ver”, aconselha a psiquiatra.

“Por isso, colocar um significado único para os sonhos é besteira. Temos que pensar naquele indivíduo, sua bagagem de vida e o contexto específico em que ele se encontra. Um pássaro não quer dizer a mesma coisa para todos”, declara.

A visão não é a única ferramenta dos sonhos

Sonhar equivale a assistir filmes em nossa mente, como o que acontece na animação Divertida Mente. Porém, a visão não é o único sentido ativado durante o sono. A especialista diz que, apesar de acontecer com menor frequência, podemos sentir cheiros ou ouvir vozes durante à noite. “Eu já acordei ouvindo um grito, mas nada havia acontecido de fato.”

O que aconteceria se não sonhássemos?

Imagine não conseguir lembrar de coisas que aconteceram há alguns dias ou semanas: caso não sonhássemos, isso provavelmente aconteceria. “Os sonhos são essenciais para a fixação da memória recente. É através deles que revivemos e fortalecemos as memórias”, explica.

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Entretanto, a nossa memória retrógrada — que envolve experiências bem antigas — não seria afetada por não sonhar.

Todo esse cenário é extremamente semelhante aos quadros de demência, onde os pacientes perdem as lembranças recentes, mas conseguem preservar as memórias da infância e adolescência. Viu como sonhar é essencial?

Em que momento os sonhos acontecem?

A especialista esclarece que o sono possui várias fases: 1, 2, 3 e REM (que é o último estágio do ciclo do sono). E é justamente na fase REM — Rapid Eye Movement, período em que nossos olhos se movem rapidamente — que atingimos a parte mais profunda do repouso, e consequentemente, acessamos os sonhos.

“A nossa musculatura relaxa bastante nessa fase. Se isso não acontecesse, iríamos ‘atuar os sonhos’. Exemplo: se sonhássemos que estávamos chutando alguém, iríamos fazer os movimentos do chute na cama”. Portanto, para evitar lesões corporais durante à noite, o tônus muscular entra nesse estado de relaxamento contínuo.

O que acontece quando acordamos na fase REM?

Você já teve aquela sensação de acordar meio ‘bêbada’, como se ainda estivesse dormindo? Isso acontece porque o seu cérebro despertou durante o sono REM. “A impressão é de estar fora da realidade, mas aos poucos, isso vai se desfazendo”, diz a psiquiatra.

Também é neste contexto que acontecem as tão temidas paralisias do sono: “Temos o movimento rápido dos olhos, o cérebro está funcionando, mas o corpo ainda está ‘bloqueado’. Isso ocorre por apenas alguns segundos, mas a sensação é de estar presa na cama por horas. É uma experiência bem assustadora.”

Sonhos lúcidos

Já os sonhos lúcidos ocorrem por duas circunstâncias: uso de medicamentos para dormir ou em fases de grande estresse. “Quando uma situação é muito intensa, a memória passa por um processo de hiperativação. Por isso, revivemos as experiências com uma intensidade exagerada durante o sono, sem aquela distância saudável. A ideia do sonho é fazer você entrar em contato com algum conteúdo sem aquilo se tornar insuportável ao ponto de passarmos por um despertar urgente”, pontua.

Vale lembrar que somos meros espectadores de nossos sonhos. Portanto, não é possível controlar nada do que acontece durante eles, já que são produtos do inconsciente. “Por isso passamos por aquela situação clássica em que tentamos correr ou gritar, e nada acontece”, exemplifica.

Mas não se assuste: o cérebro sempre nos despertará quando um sonho beirar ao insuportável: “Ter pesadelos é uma condição de luta ou fuga. Por isso, o organismo emite sinais como taquicardia e sudorese, e a nossa mente é levada a despertar de forma rápida. É quando acordamos nos debatendo ou gritando”.

Por que acordamos com a sensação de estar caindo?

Admoni revela que a sensação de queda ao acordar ocorre justamente por esse relaxamento completo do tônus muscular: “É como se estivéssemos quase mortos. Então, ao despertar rapidamente, temos a impressão de estar caindo, já que ainda não recuperamos o controle de nosso corpo. Já para a psicanálise, essa é uma forma da nossa mente dizer que não estamos conseguindo dar conta das coisas”, afirma.

Sonhamos todos os dias?

Pode parecer que não, mas todos nós sonhamos diariamente. E o mais surpreendente: a psiquiatra garante que temos até seis sonhos por noite. “É quase impossível lembrar de todos que tivemos durante o repouso, mas eles estão sempre acontecendo. E ao contrário da crença popular, esses pequenos ‘filmes’ em nossa cabeça duram pouquíssimos minutos. Ninguém tem o mesmo sonho por horas”, aponta.

Por que não lembramos dos sonhos?

Sempre que vamos contar um sonho, as coisas parecem desconexas. Muitas vezes lembramos de pequenos “flashes”. Danielle esclarece que isso acontece pela quantidade de informações que chegam ao nosso cérebro no mesmo segundo em que abrimos os olhos: “Há o barulho do despertador, a luz do dia, as notificações do celular. A atenção que estava completamente focada no sonho, começa a voltar para o mundo real. E aí esquecemos tudo em questão de segundos ou minutos”, conclui.

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