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“Você tem de aprender a lidar com o fracasso sem desistir de suas ideias”

Conversamos com Benicio Del Toro sobre talento, privilégios e fama

Por Mariane Morisawa 29 jun 2018, 17h25

Mesmo depois de 20 anos sob os holofotes, Benicio Del Toro permanece sendo um mistério para o público e a mídia. Dono de olhar sonolento – mas charmoso –, o porto-riquenho de 51 anos não é de compartilhar detalhes da vida pessoal. A aura de suspense ficou ainda mais forte no dia do encontro com CLAUDIA, em Los Angeles, quando falou sobre seu novo filme, Sicario: Dia do Soldado, dirigido por Stefano Sollima. Ele não fez contato visual com a repórter, nada de olhos nos olhos. Para responder às perguntas, hesitou, recomeçou frases, pensou por longos períodos. Mas acabou deixando escapar opiniões.

Conhecido por não entregar o jogo, falou até de temas nacionais. Criticou o presidente americano, Donald Trump, e suas políticas de imigração. Revelou que precisou ajudar um amigo que foi preso por estar sem documentos, apesar de morar no país desde criança e não ter ficha criminal. “Ele ficou dois meses na cadeia com pessoas condenadas. Os Estados Unidos não podem ser cruéis, mas alguns elementos dessa gestão atual são.” O assunto surgiu porque o filme novo, continuação de Sicario: Terra de Ninguém, de 2015, mostra conflitos entre o governo americano e um poderoso traficante mexicano que assassinou a família de Alejandro, matador interpretado por Benicio. “A história foi escrita há algum tempo, mas está mais próxima da realidade com a decisão de Trump de enviar a Guarda Nacional para impedir a entrada ilegal de pessoas pela fronteira entre os dois países.”

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O ator admite que já sofreu preconceito no meio artístico por ser latino. Abrindo um raro sorriso, emenda que a luta por bons papéis ainda não acabou, mesmo tendo firmado seu nome na indústria do cinema. “Todo mundo precisa batalhar por personagens, mas, se você faz parte de uma minoria, essa trajetória se torna mais intensa. Isso inclui mulheres, negros, latinos e asiáticos”, diz. Compartilhou, em seguida, seu aprendizado com o passar dos anos. “O labirinto é um pouco mais escuro, mas dá para sair dele. Você tem de aprender a lidar com o fracasso sem desistir de suas ideias.”

No caminho fragmentado para chegar ao reconhecimento que tem hoje, Benicio se despiu de uma característica comum aos atores e extremamente prejudicial – o ego grande demais. Tanto é que não se importa em fazer coadjuvantes apesar do porte de galã, com seu quase 1,90 metro de altura. Foi o papel secundário em Traffic, de 2000, que lhe rendeu um Oscar pela atuação. Recentemente, assumiu aparições rápidas em duas franquias, Vingadores: Guerra Infinita e Star Wars: Os Últimos Jedi. Para Benicio, não é o tempo em tela que interessa, mas a profundidade da construção do personagem. Por esse motivo, é descrito por diretores e colegas como intenso. Certa vez, no set de Medo e Delírio, em 1998, assustou a equipe ao queimar o braço de verdade com um cigarro enquanto gravava uma cena. Segundo o diretor, Terry Gilliam, com Benicio nunca se sabe o que esperar.

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Em parte, essa veia artística tem a ver com a escola de atuação que frequentou, de Stella Adler, professora famosa que mentoreou Marlon Brando. Por outro lado, sempre teve personalidade forte. Filho de advogados ricos, sofreu o primeiro grande trauma aos 9 anos, quando a mãe morreu. Hiperativo, descarregava a energia e as emoções jogando basquete. Também gostava de ir para a fazenda de criação de porcos da família, onde a colaboração nos trabalhos braçais era bem-vinda. Desafiava as broncas do pai – e a cinta – ao caminhar sobre o telhado da casa. Aos 13, o garoto foi enviado para um colégio interno na Pensilvânia. Ali, com os amigos, se rendeu a travessuras tão graves que se recusa a contar. Desistiu da faculdade de administração após algumas aulas em um curso de teatro, quando descobriu sua verdadeira vocação.

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O jeitão de bad boy da adolescência ainda o perseguiu por alguns anos. Teria frequentado todas as festas de Hollywood regadas a muita bebida. O ator jura que não é fã de álcool atualmente. Segue uma vida regrada, evitando as noitadas. “Estou mais ocupado do que nunca. Queria que o dia tivesse 48 horas”, conta, sem revelar o motivo da agenda cheia. É provável que esteja dedicando bastante tempo não só às gravações mas também à filha Delilah, 6 anos, do relacionamento com a modelo Kimberly Stewart.

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No trabalho, esse lado obscuro de seu comportamento revelou-se bastante útil. Já encarnou figuras polêmicas, como o traficante colombiano Pablo Escobar em filme de 2015. Para os próximos projetos, interpretará um prisioneiro que foge da cadeia em Escape at Dannemora (Fuga em Dannemora, em tradução livre) e um mafioso cubano em The Corporation (A Corporação). A seara dos homens maus não o incomoda. “O que me atrai são propostas interessantes. Na maioria das vezes, quando assumi papéis de vilão, a produção era boa, com ótimos cineastas, atores e equipe”, explica.

São suas atitudes fora do set que o mantêm atento. Afinal, tornou-se uma referência para muitas pessoas e é observado pelos fãs e tabloides. “Depois de Traffic, entendi que as coisas tinham mudado; eu estava em destaque. E gosto disso. Não sou perfeito, cometo erros, mas me tornei representante de um grupo”, declarou. A pressão da indústria, da crítica e dos fãs às vezes o atinge e, nessas horas, a melhor solução é trabalhar. “Nesse momento, sou livre como um pássaro, faço o que quiser”, afirma.

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Em cena de Sicario: Dia do Soldado, em que interpreta Alejandro, um matador contratado pelo governo americano Divulgação/Divulgação

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