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Vivo no cemitério e ouço conselho dos mortos

Sou uma lenda viva na minha cidade, onde me conhecem como Maria do Cemitério. Lidar com a morte é natural para mim

Por Redação M de Mulher 10 mar 2009, 21h00 • Atualizado em 21 jan 2020, 09h10
André Sartorelli
André Sartorelli (/)
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  • As pessoas precisam acreditar que os mortos 
    só precisam de descanso. Na minha opinião, 
    temos de ter medo é dos vivos!
    Foto: Hassan Ayoub

    Muita gente tem pavor só de ouvir falar em cemitério. Pois esse é o lugar onde passei a maior parte da vida. Administro e moro no Cemitério da Saudade, em Machado, e cuido de mais dois cemitérios em cidades próximas. Sou também coveira, jardineira e, uma vez por semana, revisto mulheres que fazem visitas aos presos da delegacia da região.

    O trabalho com os mortos é herança do meu pai, que veio trabalhar como coveiro em Machado nos anos 1940. O administrador do cemitério morreu. Então, meu pai assumiu a função e criou aqui a nossa família.

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    Vivo entre mortos, vi espíritos e ouço vozes

    Eu ficava boa parte do dia brincando em cima de um túmulo cercado. Funcionava como berço. Usei o espaço para fazer o mesmo com os meus filhos. Eu colocava as crianças no ”chiqueirinho”, com mantas e travesseiros, e eles brincavam e dormiam. Enquanto isso, eu corria para cuidar dos jazigos ou enterrar alguém.

    Na cidade, eu era uma das poucas crianças a não ter medo do cemitério. Certa vez, me deparei com uma cigana que cantarolava entre os túmulos. Ela se aproximou e disse que minha vida não seria fácil: eu me casaria duas vezes, teria um monte de filhos e seria feliz. Daí, ela desapareceu.

    As palavras dela se confirmaram: tive 15 filhos adotivos e três biológicos, sendo que dez deles já morreram. Meus dois maridos faleceram e foram enterrados no cemitério onde moro.

    Em outra ocasião, encontrei uma mulher de cabelo comprido e roupa vermelha no meu quarto. Percebi que se tratava de Hortência, uma amiga minha que tinha morrido havia pouco tempo. Ela se aproximou, sorriu, chacoalhou a saia e desapareceu. Vasculhei o cemitério com policiais, mas não achamos a mulher!

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    Às vezes, ouço barulhos estranhos ao redor de casa, principalmente à noite. Parece que existe alguém vigiando meus passos… Rezo e consigo dormir. Sou católica não praticante e acredito em vida após a morte. Devido à minha sensibilidade, me tornei benzedeira. Também leio a mão das pessoas e interpreto sonhos.

    Não quero saber de tristeza no meu velório

    Digo, em tom de brincadeira, que, se algum conhecido chorar no meu velório, eu volto para puxar os pés dele! Fiz 70 anos e tenho saúde para dar e vender!

    Duvido que alguém da minha família leve adiante esse trabalho e o estilo de vida que eu aprendi com o meu pai. Mas acho que as pessoas precisam acreditar que os mortos só precisam de descanso. Na minha opinião, temos de ter medo é dos vivos!

    Minha rotina é bem agitada

    Acordo às 5h, faço minhas orações, tomo banho e abro os portões do cemitério às 6h. Vou aos outros dois cemitérios de que cuido uma vez por semana. Almoço às 11h e trabalho até as 18h30, quando janto. Às vezes, sepulto pessoas à noite, porque várias famílias não podem passar a madrugada inteira no velório. Não durmo antes da meia-noite, pois gosto de ficar na janela vendo o movimento dos carros na rua em frente ao cemitério.

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    Veja a galeria de fotos da Maria do cemitério

     

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