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Por que você não deve fazer piada sobre engordar na quarentena

Além de serem gordofóbicas, essas publicações banalizam transtornos alimentares e prejudicam a nossa saúde mental

Por Colaborou: Gabriela Maraccini - 17 abr 2020, 20h00

Durante o período de quarentena, você provavelmente já se deparou com memes e piadas, nas redes sociais ou grupos de WhatsApp, sobre “como vamos engordar muito durante o isolamento”, comparando um corpo magro com um corpo gordo, como nos exemplos abaixo. Isso porque muitas pessoas dizem estar comendo mais durante o tempo que estão em casa.

Piadas gordofóbicas na quarentena Redes sociais/Reprodução

Mas a questão é: uma publicação que compara corpos e o coloca o corpo gordo como um problema da quarentena deve ser considerada uma piada?

“Esse tipo de conteúdo coloca o corpo gordo em um lugar de ridicularização”, opina a jornalista e blogueira Juliana Romano a CLAUDIA. Ela foi uma das nossas finalistas do Prêmio CLAUDIA 2019 na categoria Influenciadora Social. Com conteúdo de moda e beleza, ela conscientiza suas seguidoras sobre ter uma relação saudável com o corpo e promove autoestima e autoconfiança entre as mulheres.

“Fazer piada ridicularizando um tipo específico de corpo não é saudável, principalmente para quem tem esse tipo de corpo. E se a pessoa reproduz a piada gordofóbica, ela não tem consciência da estrutura opressora que leva alguém ter medo de engordar. Uma pessoa que compartilha uma piada gordofóbica está fazendo as engrenagens dessa opressão funcionar. É muito triste, é muito grave. Não pode ser considerado uma piada dado que é um sistema que oprime muitas mulheres e leva a casos extremos”, completa Ju Romano, como é conhecida. 

A blogueira conta que tem recebido muitos relatos de suas seguidoras pelo Instagram, @ju_romano. Elas recebem, em grupos de família e do trabalho, piadas como as citadas anteriormente. Ou seja, em diferentes ambientes em que uma pessoa gorda convive, ela está sendo bombardeada por esse tipo de conteúdo, o que pode aumentar a angústia em um momento de incertezas e ansiedade, como o que estamos vivendo atualmente.

E esse é um problema que não atinge apenas pessoas gordas, mas, também, pessoas magras que sofrem com esse medo de engordar, devido a toda uma pressão estética existente em nossa sociedade. “Todo mundo sofre essa pressão de sempre ser mais magro. A pessoa gorda e a pessoa magra sempre tem que ser mais magra”, afirma Ju.

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“Eu sou muito bem resolvida com o meu corpo, mas ver esse tipo de piada me causa um desconforto porque eu penso nas outras meninas que estão ali em um processo de entendimento do corpo e da sua relação com a comida”, desabafa. “E não penso só nas meninas gordas, mas também nas meninas magras que estão desesperadas porque vão engordar um ou dois quilos na quarentena. Eu fico pensando ‘gente, que desespero é esse? Que lipofobia é essa?’ É um medo de gordura como se ela fosse a pior coisa que pudesse acontecer. Isso é um pensamento social muito ruim, é triste e muito opressor”, finaliza.

Além da gordofobia, estamos falando de saúde mental

Em outra reportagem de CLAUDIA, já debatemos como a atual situação que vivemos, de isolamento social como prevenção do novo coronavírus, é algo que nunca tínhamos vivido anteriormente, principalmente no Brasil. É um momento que nos traz muitas incertezas, inseguranças e angústias em relação ao nosso futuro.

De acordo com a psicóloga clínica Juliana Leite, especializada em comportamento alimentar, é normal em um momento como esse mudarmos a nossa rotina alimentar, como uma forma, mesmo que momentânea, de eliminar a angústia. “Então, ganhar peso na quarentena não deveria ser um problema. Estamos vivendo uma realidade social, econômica e cultural muito mais tensa do que uma simples preocupação com o peso”, opina.

Além disso, ela explica que piadas do tipo podem gerar algum tipo de transtorno alimentar, ou seja, a pessoa pode parar de comer por medo de engordar. “Estamos sozinhos ou restritos socialmente e nos isolamos de algo que é um dos maiores prazeres da vida, comer. A pessoa começa a fazer restrição alimentar porque odeia o corpo dela. Isso ganha um aumento de peso simbólico ainda maior na quarentena com essas piadas”, explica.

Leite também alerta para algo ainda mais preocupante: quando profissionais da saúde, como nutricionistas e psicólogos, e personal trainers compartilham esse tipo de conteúdo. “Isso mais desvincula o paciente do que vincula. Se eu tenho uma questão com o meu peso, com o meu corpo e isso causa um sofrimento em mim, e o profissional que eu consulto e confio acaba sendo gordofóbico, eu me enclausuro ainda mais no meu sofrimento e não procuro mais ele. Isso é um grande retrato e consequência da própria gordofobia.”

Por isso, é importante sempre se atentar ao que estamos compartilhando nas nossas redes sociais atualmente. Fazer brincadeiras com o corpo de uma pessoa, seja ele como for, não é piada. Fazer memes sobre compulsão alimentar, que é uma doença e deve ser tratada, não é engraçado. É preciso ter empatia neste momento para não levarmos ainda mais angústias a pessoas que já estão ansiosas pela situação que vivemos atualmente, além de não contribuir com um sistema que ainda oprime muitas pessoas, principalmente as mulheres.

Em tempos de isolamento, não se cobre tanto a ser produtiva:

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