O isolamento social trouxe meus monstros de volta

Como o confinamento abala quem é portador de algum tipo de transtorno emocional

Medo de morrer, paranoia do invisível, isolamento social, confinamento dentro de casa e o pavor de ser a transmissora desta doença terrível, a Covid-19, para os meus filhos ou aos meus pais já idosos.

Pensamentos trágicos e desconexos durante a quarentena prometem me deixar maluca. Do pânico de transmitir o vírus para meu pai, que é paciente oncológico, até o medo de morrer e não ver os meus filhos crescerem.

Por alguns dias senti dor de cabeça, dor no corpo, falta de ar, calafrios. Fiz o exame, deu negativo. Os sintomas persistiram. O meu psicológico já estava enfrentando um medo irracional. Esses dias difíceis fizeram com que acordasse um monstro adormecido dentro de mim: o transtorno de ansiedade e o TOC voltaram com força, 20 anos após o diagnóstico.

O estresse elevado, o aumento do cortisol e a imunidade em baixa afetaram minha mente. Perdi três quilos em 12 dias. Por mais que tivesse alimentos dentro da minha casa, o meu cérebro pedia para eu racionar, assim não faltaria comida aos meus filhos. Sim, sempre são pensamentos horríveis, dramáticos. Essas doenças mentais roubam o seu tempo, arrancam a sua autoestima, anulam, consomem o seu psicológico, a sua personalidade.

O ritual de limpeza minuciosa em casa se estende todos os dias deste confinamento. É cansativo demais para o corpo e o cérebro. Minhas mãos estão descascadas de tanto lavá-las e passar álcool em gel, além de usar outros produtos fortíssimos para matar germes e bactérias. Rituais sem fim. Um dia me peguei passando o mesmo álcool na casca de uma manga. Pensei: surtei de vez. Foi aí que procurei meu médico. A dose do ansiolítico precisou ser aumentada anos depois do tratamento que mantinha a situação sob controle.

Por muitos anos senti medo, me afastei, me anulei. É triste e solitário se esconder atrás do que só existe na sua cabeça. A mente doente é tão poderosa que faz você ouvir vozes que não existem, reagir ao desconhecido e sofrer um isolamento sem fim.

Disfarcei o meu transtorno para manter o emprego, a fim de que as pessoas gostassem de mim, e também para não afastar meu namorado na época, hoje marido e pai dos meus dois filhos.

Aos 46 anos, vivo uma vida normal, com terapia e medicação, porém, nem sempre foi assim.

Nunca imaginei que pudesse ser portadora de um transtorno mental. Pensava: como assim? Uma pessoa bem-sucedida, inteligente, atraente, com tudo o que precisa, ser doente da cabeça? Não posso aceitar. O primeiro impacto é a negação. A gente chega a pensar que doenças mentais são coisas de pessoas  malucas, e eu não queria ser rotulada como “louca”. Não, não é bem assim. Os transtornos não possuem cura, mas existem tratamentos que fazem você ter uma vida sob controle, comparável aos  pacientes que tratam a hipertensão, diabetes ou cardiopatias.

Mas admito que sofrer de ansiedade é brigar diariamente com os monstros que invadem e consomem a sua cabeça. Uma aflição sem fim. Acredite: esses monstros fazem você acreditar que eles estão no comando.

Lembro da minha primeira manifestação de ansiedade, ainda criança, aos 7 anos de idade. Época em que perdi o meu avô paterno atropelado, uma morte trágica.

Segundo meu terapeuta, esse foi o primeiro episódio de trauma que desencadeou os sintomas ainda na infância. Sofri bullying numa fase da vida em que essa atitude destrutiva não tinha nem nomenclatura. Estudava em um colégio de freiras, e a cada ataque de ansiedade com tiques nervosos, elas me levavam para a capela. Eu era obrigada a me ajoelhar e pedir perdão a Deus por meu comportamento, ainda que não tivesse cometido nenhum pecado. Uma criança de 7 anos é pecadora de quê?

Esquizofrênica, paranoica, maluca, pirada, doida… Esses foram alguns dos apelidos que me deram ao longo daqueles anos. Pouquíssimas pessoas se mostraram empáticas para tentar entender o que havia de errado comigo.

Só procurei ajuda médica, e de forma emergencial, mesmo depois de anos do primeiro diagnóstico, quando engravidei da minha filha mais velha. Hoje Nina tem 14 anos, é uma menina linda. Tive depressão pós-parto. Cheguei a ficar 10 dias sem conseguir tomar banho sozinha. Quando abria o chuveiro, queria ficar mais de 3 horas debaixo da água. Na minha cabeça, eu nunca estava suficientemente ‘desinfetada’ para cuidar do meu bebê. Cheguei a ferir os meus mamilos de tanto esfregá-los, com medo que pudesse passar algum tipo de vírus ou bactéria para minha filha por meio da amamentação.

O monstro que estava adormecido, acordou. Então me resta respirar fundo, me acalmar, desacelerar e aproveitar esses dias de resgate pessoal para buscar o equilíbrio e virar mais uma vez a página. Tudo passa, esse pesadelo também vai passar. Uma lição esse confinamento me deu: precisamos urgentemente falar a respeito de saúde mental e buscar o equilíbrio para vencer os monstros que insistem em se apoderar da nossa mente.

* Patrícia Calderon, jornalista, mãe de Nina, de 14 anos, e Benjanim, 5. Portadora de transtorno de ansiedade e TOC. Criadora do podcast sobre saúde mental ‘Não Pira, Respira’.

 

 

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