“Eu e meu privilégio vencemos o coronavírus”

A jornalista Lídice Leão, que testou positivo para a Covid-19, relata sua percepção dos contrastes do isolamento social

“No dia em que o número de mortos pela Covid-19 no país bateu recorde e passou de mil, testei positivo para o coronavírus. Eu e minha mãe, de 75 anos. O exame de sangue sorológico detectou a presença do vírus no nosso corpo, mas já com a formação de anticorpos, o que nos provocou a sensação imediata de alívio total. Meu filho de 25 anos, que está em isolamento conosco, não foi infectado, de acordo com o primeiro exame, que vamos repetir, já que ele também apresentou sintomas.

Há setenta dias estamos em isolamento total no meu apartamento. Após uma conversa em família, eu e meus irmãos decidimos que seria mais seguro para a nossa mãe cumprir a quarentena dela comigo e meu filho, visto que logo no início de março reorganizamos nossas agendas profissionais para o formato home office. Minha mãe veio dez dias depois e, até então, não cumpria o isolamento de forma rigorosa. Mas como tudo estava no início, julgamos que não haveria problemas em trazê-la para a nossa casa, até porque precisávamos protegê-la principalmente por causa da sua idade avançada.

Passamos dias tranquilos, ensolarados e divertidos aqui em casa. A despeito de toda a angústia, tensão e medo provocados pela pandemia, e – por que não? – de muita raiva e revolta, causadas pelas ações e declarações irresponsáveis do presidente da República. A cada notícia relacionada ao aumento de mortos, a cada reportagem sobre o crescimento do número de casos em regiões pobres e periféricas, a cada imagem de hospitais e leitos lotados, sem estrutura para receber novos pacientes, ficava mais evidente o contraste, a distância, o abismo entre nós – os privilegiados, no conforto do isolamento social – e eles, os trabalhadores braçais, informais, sem água, sem álcool em gel, comida, dinheiro, sem auxílio financeiro ou social. Incentivados pelo presidente e pelos patrões a seguirem trabalhando, dando a vida à pátria, no sentido mais literal e cruel possível.

Nós, profissionais liberais brancas e brancos, moradores de condomínios em bairros residenciais, também precisamos seguir trabalhando. Mas conseguimos ficar em casa, protegidas, protegidos. Não obstante o caos pandêmico e, no caso do Brasil, político e institucional que estamos vivenciando, sabemos que devemos cuidar da nossa saúde mental – e cuidamos. Nos cercamos de livros, filmes, músicas, vinhos, pratos especiais. Distribuímos carinho e atenção aos nossos filhos, filhas, mães e pais. Fazemos chamadas de vídeo, enviamos presentes delivery.

No meio desse roteiro tenso, mas cheio de afeto e conforto, eu e minha mãe fomos derrubadas pelos sintomas assustadores sobre os quais já havíamos lido incansavelmente: dor no corpo, garganta, cabeça, cansaço, falta de ar, ausência de olfato e febre – baixa, no nosso caso. Com muito medo de ir ao hospital, decidimos aguardar o desenrolar do quadro em casa. Permanecemos deitadas durante a maior parte do tempo, a observar o desenvolvimento dos sintomas. A tranquilidade veio quando percebemos que os sinais de infecção estavam diminuindo. E dia após dia fomos nos recuperando. Não tínhamos certeza se havíamos sido vítimas da Covid-19 até sabermos que uma das pessoas com quem minha mãe tivera contato antes de vir para a minha casa testara positivo. O pânico veio então de forma retroativa e decidimos fazer o exame de sangue. A sensação de saber que você entrou para as estatísticas da pandemia é ambivalente: alívio, por ter reagido e, mais do que isso, sobrevivido; simultaneamente ao choque de constatar que alguns passos adiante poderia estar a morte.

Agora, recuperada juntamente à minha mãe de 75 anos, não tenho dúvida de que a nossa boa alimentação, higiene, sol, livros, caminhadas, nos ajudaram a reagir ao vírus. Assim como representam a divisão entre as camadas privilegiadas que passarão incólumes no seu romântico isolamento e as abandonadas socialmente, que engrossarão os números finais de mortos pela Covid-19.”

Lídice Leão é jornalista, pesquisadora do Laboratório de Estudos em Psicanálise e Psicologia Social (LAPSO/USP) e mestranda em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo.

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