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Cabeleireiro do Capão Redondo chega ao Morumbi e faz sucesso no Instagram

"Usava o pote de macarrão instantâneo para bater o descolorante", disse Bruno Sodré, que agora tem agenda lotada em um dos bairros nobres da capital

Por Gabriela Maraccini - Atualizado em 17 fev 2020, 14h17 - Publicado em 21 ago 2019, 17h02

“Para inspirar. Não ter vergonha de onde saiu nem medo de onde quer chegar. Viva o Capão Redondo”. Foi com esta frase junto à foto que ilustra esta matéria que Bruno Sodré viralizou nas redes sociais. O profissional de 32 anos começou em um pequeno salão na garagem de sua casa no Capão Redondo, bairro paulistano estigmatizado pelos altos índices de violência. Com trabalho duro, fez o negócio prosperar tanto a ponto de abrir uma unidade no Morumbi, uma das regiões mais ricas da capital.

A publicação alcançou mais de 188 mil curtidas e 172 mil compartilhamentos, sem contar os números angariados por outras páginas que também postaram o conteúdo. No Instagram, Bruno acumula 154 mil seguidores. O que bem pouca gente sabe é a trajetória que ele teve que percorrer até chegar ao melhor momento de sua carreira.

A veia empresarial foi herdada de seus pais, mas teve de ser resgatada após um trauma. Quando criança, no fim dos anos 90, Bruno os via administrando um pequeno restaurante em Santo Amaro, bairro onde cresceu. A má gestão, no entanto, fez com que a família fosse se endividando tanto até perder a casa própria. A solução foi se mudar para o Capão Redondo, onde passou a morar de favor na casa de um tio.

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Por causa da derrocada, abrir algo próprio não era cogitado por Bruno. “Eu tive um trauma porque tínhamos tudo e de repente não tínhamos nada. De repente nós começamos a receber doação de cesta básica porque não tínhamos o que comer”, revelou ele em entrevista à CLAUDIA.

“Me passa a escova, por favor”

Enquanto conversava com a reportagem, Bruno passava instruções a seus funcionários com maestria. O interesse pelo mundo da beleza foi despertado pela esposa de seu tio, que tinha um salão em casa. Ele costumava ajudá-la e foi se apaixonando. Foi aprimorando seu conhecimento com a experiência em dois salões conhecidos, o Jacques Janine e o De La Lastra, onde trabalhou com Rodrigo Cintra.

O interesse em abrir algo próprio surgiu em 2013, depois de receber uma proposta para se mudar para Portugal com uma amiga e abrir lá um salão de beleza. No entanto, os planos não se concretizaram. Com isso, desenvolveu crise de pânico e depressão. Precisando pagar as contas, passou a atender vizinhas do bairro em um local inusitado, a cozinha de sua casa. “Usava pote de macarrão instantâneo para bater o descolorante”, relembra.

Divulgando seu trabalho nas redes sociais, em pouco tempo sua casa estava lotada. Atendendo cada vez mais clientes, Bruno conseguiu reformar a garagem para transformá-la em seu primeiro salão. “Eu não queria que as minhas clientes sentissem que elas estavam em um salão de periferia”. Em 2014, ele abria o “Studio Bruno Sodré”, com duas cadeiras e um lavatório.

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Bruno Sodré
Arquivo Pessoal/Reprodução

Aos poucos, sua agenda foi ficando cheia e Bruno começou a criar uma teia de funcionários. No entanto, o espaço era pequeno e, por não conseguir comportar grande quantidade de clientes, o salão passou a receber avaliações negativas. Comprou, então, um espaço maior, ainda na rua de sua casa, onde trabalhou por mais um ano, entre 2016 e 2017, atendendo pessoas de toda a cidade. No entanto, alguns clientes ainda estavam insatisfeitos.

“Eu sentia muita pressão da internet, as pessoas reclamavam demais da distância e sofri até alguns casos de preconceito por estar localizado na periferia”, revela. “Eu lembro de uma menina que fez uma resenha sobre meu trabalho, falando que ela foi num salão sujo, que cheirava xixi, de um menino que nunca saiu de casa”, lembra.

Pedras no caminho

Na busca por um novo espaço, Bruno encontrou um casarão no Morumbi. Por estar localizado em um bairro nobre da capital paulista, o aluguel era  caro. “Só o caução raspava a minha poupança inteira”, relembra Bruno. Para arcar com os custos, o jovem cabeleireiro teve que fazer vários empréstimos do banco. “Foi a pior época da minha vida. Todo dia vinha alguém me cobrando aqui no salão e eu percebi o impacto físico desse estresse, meu cabelo caiu muito”, conta.

Bruno Sodré
Arquivo Pessoal/Reprodução

A situação só agravou seu quadro de depressão e crise de pânico. Mas ele resolveu não desistir de sua carreira. “Eu não posso me dar o luxo de não estar me sentindo bem, eu preciso trabalhar e realizar o sonho das pessoas”, declara. Para superar o problema, o melhor remédio, para ele, era trabalhar mais. “As responsabilidades que eu tinha não me deram tempo para pensar nisso.” E o novo salão foi inaugurado em 2017.

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O sucesso

Na foto em que Bruno aparece segurando um espumante em frente ao seu salão no Morumbi, é provável que as pessoas achem que ele está inaugurando o novo espaço. A comemoração, no entanto, se deve a outro motivo: o pagamento da última dívida do salão.

Hoje, o mesmo Bruno que batia o descolorante em um pote de macarrão instantâneo tem um salão com mais de 20 cadeiras, com direito a bistrô e barista para servir gratuitamente café às suas clientes. Seu objetivo ao compartilhar sua história é inspirar jovens empreendedores e mostrar que ter uma origem simples não é motivo para se envergonhar.

“[Digo isso] Principalmente pelo fato de que a minha trajetória não foi simples. Não foi só alugar um espaço, eu precisava ter certeza do que eu queria fazer, eu precisava pensar em um jeito de inspirar as pessoas de forma positiva, então eu fiz aquele post para mostrar que, mesmo que com aquele portão velho, sem fachada, dá para conquistar o que se quer acreditando em um sonho”, declarou Bruno. “Eu estou vivendo o que eu alcancei”, finaliza.

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