A polêmica decisão de não vacinar crianças divide opiniões

Doenças que estavam quase erradicadas voltam a atacar, embaladas por um movimento contrário à imunização

Infecções que pareciam perdidas no tempo voltam a assombrar. Surtos de sarampo atingem 42 países europeus. De janeiro de 2016 a outubro de 2017, foram registrados 19 mil casos e 35 mortes. Altamente contagioso, ele causa pneumonia, diarreia, surdez, cegueira e retardo do crescimento, além de matar. Nos Estados Unidos, uma epidemia teve início em um parque da Disney, na Califórnia, em dezembro de 2014, e se espalhou para outros estados, infectando mais de 100 pessoas. A falta de vacinação é a principal responsável pelo regresso dessas doenças, de acordo com a pediatra Isabella Ballalai, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). “Europa e Estados Unidos vivem as sequelas do antivacinismo, que é atuante nesses locais.”

Apesar de instituições respeitadas, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o americano Centro de Controle de Doenças (CDC), garantirem que as vacinas estimulam a produção de anticorpos contra moléstias que podem ser graves, prevenindo entre 2 e 3 milhões de mortes por ano no mundo, o movimento conhecido como anti-vaxx acusa-as de introduzir no corpo toxinas capazes de provocar doenças autoimunes e danos cerebrais. “Essa argumentação não se baseia em estudos bem conduzidos; portanto, não tem fundamentação científica”, afirma a médica Rosana Richtmann, do Comitê de Imunização da Sociedade Brasileira de Infectologia.

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Um dos principais ativistas antivacinação, o cirurgião britânico Andrew Wakefield, publicou uma pesquisa na revista médica Lancet, em 1998, culpando a vacina tríplice viral (contra sarampo, rubéola e caxumba) pelo autismo. Assustados, os pais pararam de imunizar os filhos. Depois ficou comprovado que os resultados foram fraudados. Das 12 crianças investigadas, cinco tinham problemas prévios de desenvolvimento, o que foi omitido no artigo.

Em 2010, Lancet se retratou, excluindo o texto do seu arquivo, e Wakefield teve sua licença médica cassada na Grã-Bretanha. Mudou-se para os Estados Unidos, onde continua sua cruzada. Dezenas de estudos publicados em jornais de prestígio não comprovaram a relação entre vacinas e autismo, inclusive um do Jornal da Associação Médica Americana, de 2015, que acompanhou quase 100 mil crianças do nascimento até os 5 anos.

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O Brasil é reconhecido internacionalmente por apresentar uma das melhores coberturas vacinais. Criado em 1973, o Programa Nacional de Imunização disponibiliza 27 vacinas gratuitas em mais de 36 mil locais. Mas um relatório divulgado em junho pelo Ministério da Saúde apontou queda na procura, inclusive pela gotinha, antipoliomielite (contra a paralisia infantil), que está sendo progressivamente substituída pela versão injetável. Até 2013, a cobertura era de 100%; em 2016, caiu para 84%. A meta recomendada pela Organização Mundial da Saúde é 95%. A tríplice viral atingia 100% de cobertura há três anos. Passou para 95% em 2016.

A escassez de recursos nos municípios, o que limita o número de salas e os horários de atendimento, é uma das explicações para a queda. “Se o posto só abre de segunda a sexta-feira, em horário comercial, os pais não vão perder um dia de trabalho para vacinar os filhos”, diz Rosana. O desabastecimento é outra. Houve registro recente de escassez de tríplice viral, rotavírus (contra infecção intestinal que leva à desidratação) e BCG, que evita a tuberculose. Também é relevante a atitude dos pais. Uma enquete internacional com 67 mil pessoas apurou que 70% dos brasileiros confiam nas vacinas; 20% tendem a acreditar nelas, mas esquecem de ir à unidade de saúde na data marcada. No máximo 6% desconfiam da ação do produto (ante 41% dos franceses).

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Embora seja incipiente no Brasil, o movimento antivacina reúne 13 mil seguidores em pelo menos quatro grupos do Facebook. “Antes não vacinava quem não tinha acesso à informação ou se pautava por motivos religiosos. Hoje, as vacinas são recusadas por pessoas de nível cultural elevado, empenhadas em seguir uma tendência mais naturalista”, informa a infectologista.

Mesmo tendo sido imunizados na infância, a professora Márcia (nome trocado a pedido da entrevistada), 38 anos, e o marido, de Recife, optaram por não vacinar os filhos, de 9 e 7 anos. “Faz parte de nossa filosofia de vida, assim como seguir uma boa alimentação e não tomar remédios”, afirma. “As doenças infantis estimulam as crianças a desenvolver anticorpos de forma natural, não como fazem as vacinas, introduzindo no corpo toxinas capazes de gerar complicações futuras.” A professora conta que seus meninos estão crescendo saudáveis e nunca tiveram problemas, a não ser resfriado e uma catapora leve. “A escola já pediu a carteira de vacinação. Não entregamos. Temos consciência do que estamos fazendo e nos responsabilizamos por isso. É uma decisão familiar.”

Muitas pessoas, por desinformação, acabam achando que há vacinas demais e selecionam quais oferecer às crianças, preferindo as antigas. As desenvolvidas mais recentemente são vistas com reservas. A que combate a gripe já foi acusada de provocar a doença e até de se destinar a exterminar idosos para diminuir o rombo na Previdência. “Um grande fluxo de informações fantasiosas invadiu a internet”, lamenta Isabella. Um estudo do CDC divulgado em abril passado mostra que o imunizante reduz em 65% o risco de uma criança morrer de gripe. Ainda assim, a procura pela vacina este ano ficou abaixo do esperado.

Apesar de proteger contra uma infecção intestinal que leva milhares de crianças à morte, a vacina de rotavírus é duramente combatida nas redes sociais. Segundo os detratores, os imunizados teriam cólicas intensas e diarreias. A vacina contra o HPV, que reduz a incidência de câncer de colo de útero, vulva, vagina e ânus, faz parte desse rol. Com o agravante de esbarrar no discurso conservador de que estimularia o início precoce da vida sexual – já que precisa ser tomada antes da adolescência e de ter parceiros.

Apenas metade dos jovens que tomam uma dose volta para receber a segunda, necessária para garantir a eficácia. A bacharel em direito Danila Assunção Muritiba, 40 anos, de São José do Rio Preto (SP), seguiu à risca o calendário oficial com as filhas, Isabelle, 14 anos, e Letícia, 10 anos. Incentivada pela pediatra, levou a mais velha para receber a primeira. Mas desistiu da segunda e de oferecer à caçula. “Fiquei assustada com os relatos de efeitos colaterais, como paralisia, esclerose múltipla, convulsões… Cheguei à conclusão de que essas reações seriam mais graves do que o risco de desenvolver câncer.” Por isso, preferiu esperar até que a segurança e os efeitos positivos estejam totalmente comprovados.

Contribuiu para disseminar o pânico a notícia de que 11 jovens imunizadas contra HPV em uma escola em Bertioga (SP), em 2014, apresentaram dor de cabeça e dificuldade para andar. Três teriam perdido o movimento das pernas. Os sintomas desapareceram dias depois. Exames neurológicos não constataram anormalidades. “As meninas tiveram uma reação coletiva de ansiedade, como já aconteceu antes com a vacina de gripe”, esclarece Isabella. “Na Austrália, esse imunizante é aplicado desde 2007. Seu benefício e segurança são documentados há pelo menos dez anos.”

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Assim como todo medicamento, as vacinas têm contraindicações e podem causar reações adversas. As mais comuns são dor, vermelhidão e inchaço no local. Em alguns casos, ocorrem ainda febre e mal-estar, em geral transitórios. “Esses efeitos não se comparam aos danos causados por doenças contagiosas”, enfatiza a médica. “Porém, qualquer evento que ocorra nos seis meses após a aplicação acaba atribuído à vacina, mesmo que a causa seja outra. Diante da suspeita, é importante informar o médico ou o serviço público onde o produto foi administrado. Mas uma notificação não significa relação de causa e efeito.” Os casos precisam ser investigados.

Para Rosana, as vacinas são vítimas do próprio sucesso. “Elas tiveram impacto direto na queda da mortalidade infantil. Foram tão eficazes para erradicar doenças que parecem obsoletas. Não se veem mais pessoas com sequelas da poliomielite, afastada do país desde 1990”, lembra ela. Mas o vírus causador ainda circula na Nigéria, no Afeganistão e no Paquistão. “A queda na cobertura vacinal pode criar bolsões de pessoas suscetíveis até que a importação de um único caso gere uma epidemia”, adverte Isabella. Foi o que aconteceu no último surto de sarampo, que começou em Pernambuco e se alastrou para 38 municípios do Ceará, infectando 1 277 pessoas entre 2013 e 2015. “O vírus saiu da Europa e encontrou uma população desprotegida”, explica a pediatra. “Com os fluxos migratórios e voos internacionais, as doenças circulam no planeta mais rapidamente. Daí a importância de manter a carteira de vacinação em dia.”

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A advogada Thaís Marques, 49 anos, do Rio de Janeiro, está em dia com a vacinação do filho, de 10 anos. “Nunca duvidei da segurança e da eficácia das vacinas. Quando oferecidas à população, já foram mais do que testadas”, garante. Thaís recorda de um conhecido que teve uma bolha no olho por catapora, originando um ponto cego na visão. O outro episódio ocorreu próximo dela. “Peguei caxumba aos 14 anos e transmiti para um vizinho. O vírus foi para os testículos e ele ficou estéril. Se eu estivesse imunizada, ele não se contaminaria.”
“A decisão de vacinar ou não afeta a comunidade”, destaca Isabella. Quanto mais gente imunizada, menores os riscos de adoecimento.” O ganho é de todos, especialmente dos vulneráveis às doenças infectocontagiosas, além de menores de 1 ano, crianças com imunodeficiência, câncer, diabetes, cardiopatias, asma e doenças crônicas do rim e fígado. “Elas precisam ser vacinadas, mas no momento certo (quando suas células de defesa tiverem boa contagem), utilizando os imunizantes mais adequados”, explica a pediatra Lily Weckx, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Os 46 Centros de Referência de Imunobiológicos Especiais, do Ministério da Saúde, oferecem atendimento especializado para esse público.

Não vacinar é conduta ilegal, avisa a advogada Carolina Duran, de Bragança Paulista (SP). O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) determina que é obrigatório fornecer as vacinas recomendadas pelas autoridades competentes. A recusa dos responsáveis, se interpretada como negligência, é passível de multa. Se a criança adoecer e tiver sequelas, os pais podem ser enquadrados por lesão corporal; e, em caso de morte, até por homicídio doloso. Como a decisão também repercute no coletivo, as escolas devem exigir a carteira de vacinação no ato da matrícula. Educadores e médicos têm o dever de denunciar os pais ao conselho tutelar. “Afinal, o Estado precisa garantir o bem-estar da criança mesmo quando os pais decidem negar esse direito a ela”, afirma Carolina.

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