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Vacina contra o HPV reduziu em dois terços o número de adolescentes infectadas pelo vírus, diz estudo

Enquanto pesquisadores norte-americanos apoiam a vacinação, no Brasil ela tem gerado polêmica

Por Ana Carolina Castro Atualizado em 28 out 2016, 20h43 - Publicado em 22 fev 2016, 14h50

Introduzida há uma década nos Estados Unidos, a vacina contra o Papilomavírus Humano (HPV) já reduziu em quase dois terços o número de adolescentes infectadas pelo vírus. O grupo formado por mulheres na faixa de 20 anos também apresentou bons resultados, mesmo sendo um grupo com baixas taxas de vacinação, com redução de mais de um terço no número de casos.

“Nós estamos vendo o impacto da vacina, uma vez que o número de casos só cai em todos os grupos etários. E isso é incrivelmente emocionante”, afirmou  Amy B. Middleman, chefe de medicina adolescente na Universidade de Oklahoma, em entrevista ao The New York Times. “Uma minoria de mulheres neste país foram imunizadas, mas nós estamos vendo um impacto de saúde pública que é bastante amplo.”

Os resultados servem como poderosos impulsionador para a vacinação contra o HPV nos Estados Unidos. Apesar da comprovada eficácia da imunização, as taxas de adesão ao programa permanecem baixas: apenas 40% das adolescentes americanas foram vacinadas. Isto porque ainda é forte a associação implícita da população entre a vacina e a atividade sexual na adolescência. Apenas os estados da Virginia, Rhode Island e Columbia tornaram a vacinação obrigatória.

O HPV

O Papilomavírus Humano (HPV) é a doença sexualmente transmissível mais comum no mundo, com 6 milhões de infectados anualmente. O HPV é capaz de infectar a pele ou as mucosas e possui mais de 100 tipos – dos quais  pelo menos 13 têm potencial para causar câncer.

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o HPV está presente em mais de 90% dos casos de câncer. Destes, o mais frequente é o do colo uterino, correspondente a 10% dos casos da doença em mulheres no mundo. Nos homens, o HPV é o principal motivo de câncer no pênis.

De acordo com uma estimativa da Organização Mundial da Saúde, 291 milhões de mulheres no mundo são portadoras da doença. No Brasil, a cada ano, 685 mil pessoas são infectadas por algum tipo do vírus.

Aproximadamente 14 milhões de jovens americanas são infectadas com o vírus do HPV todos os anos. A Associação Americana de Estudo do Câncer estima que 4120 mulheres morrerão de câncer de colo de útero apenas este ano.

Um estudo recente publicado pela Pediatrics analisou as taxas de imunização e infecção pelo HPV até 2012. O estudo acompanhou mulheres e meninas de diferentes faixas etárias durante os de 2003 a 2006, antes da vacinação ser estimulada pelo governo.

Estes dados foram comparados posteriormente com os números colhidos entre 2009 e 2012. A taxa de infecção pelo vírus do HPV havia reduzido 64% em meninas com idades entre 14 e 19 anos. Nas mulheres com idades entre 20 e 24 anos, a redução foi de aproximadamente 34%.

“A vacina é mais eficaz do que pensávamos”, disse Debbie Saslow, especialista em saúde pública na vacinação contra o HPV e da American Cancer Society .  Segundo ela, quando os adolescentes vacinados se tornarem sexualmente ativos, eles não serão  agentes propagadores do vírus, ajudando a proteger também as pessoas que não tenham sido vacinadas.

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Tornar a vacina obrigatória e cobrir seu custo por um sistema nacional de saúde são algumas medidas  que ajudaram Ruanda a alcançar uma taxa de vacinação de 93% das meninas.

Já na Austrália, onde a vacina é oferecida gratuitamente às estudantes, um estudo apontou redução de 92% em verrugas genitais em mulheres com menos de 21 anos.

HPV no Brasil

Enquanto estudos internacionais corroboram a eficácia da vacina, no Brasil a vacinação contra o HPV está cercada de polêmicas. Em dezembro, o Ministério Público Federal (MPF) de Uberlândia ajuizou ação civil pedindo que a Justiça Federal proíba a rede pública de Saúde de aplicar a vacina em todo o Brasil. A ação também pede a nulidade de todos os atos normativos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que autorizaram a importação, produção, distribuição e comercialização da vacina no país.

Na primeira campanha foram adquiridas 270 mil doses, suficientes para atender a 90 mil pessoas, em três etapas do tratamento, a um custo de R$ 12,2 milhões.

O procurador da República Cléber Eustáquio Neves, autor da ação, baseou seu pedido no argumento de que não foram realizados estudos que comprovem a real eficácia ou apontem os efeitos colaterais da vacina.

O Ministério da Saúde, por sua vez, informou que qualquer medicamento/vacina comercializado no país passa por um rigoroso processo de análise de qualidade.

Em 2013, o Ministério da Saúde anunciou a inclusão da vacina contra o HPV ao calendário do Sistema Único de Saúde (SUS), como medida complementar às demais ações preventivas do câncer de colo de útero, entre elas, a realização do exame Papanicolau e o uso de preservativo nas relações sexuais.

A previsão era de que, a partir de janeiro de 2014, a vacina fosse administrada em pré-adolescentes de 10 e 11 anos, em três doses, sendo a segunda um mês após a primeira e a terceira, após seis meses. Posteriormente, o Ministério da Saúde ampliou a faixa etária, incluindo meninas dos 11 aos 13 anos. Neste caso, a terceira dose será aplicada cinco anos após a primeira.

Mais recentemente, a Anvisa aprovou resolução retirando o limite de idade para a vacina, que poderá ser aplicada em todas as mulheres que tenham mais de nove anos.

O câncer do colo do útero é o terceiro tipo de câncer que mais mata mulheres no país, atrás apenas do de mama e de brônquios e pulmões.

Com a vacinação, o Ministério da Saúde pretende reduzir essa mortalidade e o número de casos da doença. A adoção pelo país da vacinação poderá fazer com que essa seja a primeira geração de mulheres livre do câncer de colo do útero.

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