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Sem absorvente, sem água e com vergonha: a realidade da pobreza menstrual no Brasil

O estigma em torno da menstruação faz com que meninas sofram todos os meses sem produtos para conter o fluxo, aguentem dores sem tratamento e faltem nas escolas

Por Lorraine Moreira 15 jul 2026, 15h27
Pernas femininas com esmalte vermelho nos pés, com sangue escorrendo entre as coxas, sobre fundo vermelho. Desenhos de absorvente, copo menstrual e tampão flutuam ao redor
16,9% das estudantes da rede pública faltam às aulas por não ter absorventes (Camilla Loureiro/CLAUDIA)
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Numa casa simples, onde a água é contada, Luna toma banho de caneca para limpar o sangue entre as pernas. Não há dinheiro para absorventes, mas é preciso encontrar uma solução antes que ela falte mais aulas ou, de novo, enfrente as piadas dos colegas sobre as manchas vermelhas na roupa.

A mãe entrega um coletor menstrual, e a jovem parte para a escola. Desta vez, ela se move com segurança na cadeira porque sente que a menstruação não vai vazar. Ao entrar no banheiro do colégio para esvaziar e higienizar o coletor, porém, descobre que não há água.

A história não é real, faz parte do curta-metragem mexicano Dias de Abundância, mas é um retrato plausível da experiência de milhões de jovens no mundo, inclusive no Brasil. A menstruação chega, mês após mês, para meninas que não têm meios de lidar com ela.

Adolescentes cobrem suas calcinhas com papel higiênico, folhas, panos, pedaços de colchão, miolo de pão ou qualquer coisa que pareça conter o fluxo. Além de poder causar infecções, esses substitutos costumam vazar.

Segundo uma pesquisa do Fundo de População da ONU (UNFPA) Brasil, publicada em 2021, 11,3 milhões de pessoas de baixa renda no país vivem em situação de pobreza menstrual. Presas ao estigma, não vão à escola para evitar a exposição.

Da falta ao improviso: como a pobreza menstrual afeta brasileiras

Calcinha branca de algodão com manchas de sangue menstrual no centro, sobre uma toalha branca
Meninas e mulheres sem acesso a produtos menstruais improvisam para que sangue não manche a roupa (www.kaboompics.com/Pexels)

A cada mês, 16,9% das estudantes da rede pública faltam às aulas por não ter absorventes, segundo dados do IBGE divulgados em 2026. Em muitos lares, esses itens são percebidos como caros demais ou até secundários diante de outras urgências para sobreviver.

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Alternativas reutilizáveis, como coletores menstruais, tampouco se apresentam como solução. Cerca de 46,2% das residências brasileiras enfrentam algum grau de precariedade no saneamento básico, o que compromete a limpeza adequada desses produtos.

O constrangimento que acompanha a menstruação, visível em gestos como esconder um absorvente ao caminhar até o banheiro ou no medo de uma mancha de sangue, é ainda mais forte quando faltam meios básicos de cuidado.

Essa vergonha não surge do nada. Ao longo da história, diferentes tradições e pensadores ajudaram a consolidar a ideia de que o sangue menstrual é mais impróprio do que aquele proveniente de outras partes do corpo. Para citar um exemplo, por volta do ano 70 d.C., o historiador Plínio, o Velho escreveu que uma mulher menstruada seria capaz de provocar o murchar das colheitas e levar abelhas a abandonar suas colmeias.

Muita coisa mudou de lá para cá, mas a menstruação continua tendo associações negativas. Um experimento realizado em 2002 por pesquisadores do Colorado College e da Universidade do Arizona expôs esse problema.

No estudo, uma atriz deixava cair um absorvente ou um prendedor de cabelo na frente dos participantes. Quando o objeto era o produto menstrual, pessoas de todos os gêneros avaliavam a mulher de forma mais desfavorável, demonstravam menor simpatia e atribuíam a ela menos competência. Anos depois, em 2020, a marca Tampax anunciou um absorvente interno que poderia ser aberto de modo “totalmente discreto”, sem produzir barulho. 

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“O corpo feminino não domina o espaço público, é visto como cheio de enigmas e entendido pela medicina moderna como diferente do padrão estudado, que é o masculino. Toda essa visão faz com que as mulheres compreendam seus corpos como algo incompleto, é como se fosse um mini-homem”, diz a psicóloga Úrsula Maschette, mestre pela University College London (UCL) e referência sobre educação menstrual no Brasil, em entrevista durante a Alana Ideia Fest 2026*, com o tema “Ser menina não deveria doer”, voltado à ampliação do debate público sobre saúde menstrual.

Coragem de menina: o movimento de jovens que luta pela dignidade menstrual

Grupo de mulheres jovens, a maioria vestindo camisetas vermelhas com o logo Girl Up, sorrindo e acenando com as mãos para cima, em um evento com iluminação clara e um telão ao fundo
Imagem de grupo da Girl Up Brasill (@girlupbrasil/Instagram)

Foi nesse cenário que meninas passaram a bater à porta de parlamentares e apresentar propostas de lei voltadas ao combate à pobreza menstrual no país. Eram integrantes do Girl Up Brasil, iniciativa ligada à Fundação das Nações Unidas. As garotas tinham conduzido uma campanha exaustiva de arrecadação de absorventes, mas concluíram que a coleta não se sustentaria de forma contínua. Por isso, recorreram ao poder público. 

Em meados de 2020, o movimento ajudou na concepção de um projeto de lei estadual que inclui absorventes na cesta básica e reduz impostos sobre esses produtos essenciais. No Distrito Federal, o Girl Up coescreveu o texto do projeto que deu origem à Lei nº 6.779/2021, que garante a distribuição de absorventes em escolas e unidades de saúde.

Desde 2024, o Brasil tem o Programa Dignidade Menstrual para retirada de absorventes gratuitamente. Porém, movimentos sociais e organizações apontam que a implementação do programa ainda enfrenta desafios estruturais e exige campanhas permanentes de educação sobre o tema.

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As meninas Girl Up continuam falando sobre menstruação porque não é apenas a falta de recursos ou a vergonha que afastam adolescentes da escola. Menstruar também pode doer, e doer muito. A cólica menstrual tira da aula 4 em cada 10 alunas no Brasil, segundo levantamento do Instituto Alana e do Instituto Equidade.Info, divulgado em junho deste ano, sendo a principal causa de ausências durante o período menstrual.

Ser menina não deveria doer: por que a cólica menstrual deveria ser levada a sério?

Mão feminina segura calcinha branca com mancha de sangue menstrual, unhas pintadas de verde claro, fundo rosa
“Ser menina não deveria doer” é iniciativa do Instituto Alana (www.kaboompics.com/Pexels)

“Toda pessoa que menstrua tem contração uterina, o que causa cólica. Muitas vezes essa contração não é percebida como dor, porque o organismo entende que não há dano”, segundo Omero Poli, doutor pela USP e coordenador do Centro Brasileiro do Endometriosis Phenome and Biobanking Harmonisation Project.

Mas é possível que ela seja notada quando há alguma mudança, como a ansiedade extrema para o vestibular. “Nesse caso, a pessoa pode sentir dor porque o cérebro não bloqueia essa percepção. A dor existe para alertar sobre algo que está acontecendo, é natural do corpo, o problema surge quando essa sensação se repete com frequência.”

A cólica menstrual intensa pode ter diferentes causas, inclusive um ambiente estressante na infância. “Em Londres, descobrimos que viver em ambientes violentos, sofrer abuso, ser negligenciada pelos responsáveis ou perder esses cuidadores são fatores de um ambiente estressor que aumenta as dores durante as cólicas menstruais”, comenta o doutor, sobre pesquisas que participou na faculdade de Oxford.

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Para algumas pessoas, a dor intensa também está associada à endometriose, caracterizada pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio fora do útero. Ela provoca grande desconforto, pode levar à infertilidade e afeta cerca de 190 milhões de mulheres e meninas em idade reprodutiva no mundo. A doença também está associada ao aumento das faltas escolares. “A endometriose dificulta a inibição da percepção da dor. O cérebro permite que essa sensação se manifeste”, explica Omero.

Mas nem todo médico leva a sério o desconforto relatado pelas pacientes. “Sentia que precisava ser muito discreta sobre a menstruação, mas a minha dor sempre foi muito ‘alta’. Comecei a menstruar com 11 anos e, com o tempo, a dor foi piorando. Tinha dores de cabeça, não conseguia andar, era retirada da sala de aula e chegava a perder quatro dias de escola”, diz a jovem Alana Santana, participante da Girl Up, durante um talk no Alana Fest 2026.

“Só aos 18 anos fui diagnosticada com adenomiose [condição em que o endométrio invade e cresce dentro da parede muscular do útero].” Diversas meninas convivem com dores frequentes sem investigação ou tratamento, uma prática inadequada, segundo o doutor. “Se você sente dor crônica intensa e seu médico não toma providências, é preciso trocar de médico”, afirma.

Ao mesmo tempo, muitos dos profissionais estão despreparados para lidar com o tema. “Menstruei aos 8 anos e, em uma consulta, o médico disse que meu corpo estava formado, com tudo pronto. Não entendi, meu corpo estava pronto para ter um bebê? Sou uma criança, gostaria de ser tratada como uma”, diz uma garota de 13 anos, participante da Girl Up, durante outro painel no Alana Fest.

O tema tem se complicado porque a menstruação chega cada vez mais cedo na vida das pessoas. A média de idade para a primeira menstruação era de 12,5 anos entre as nascidas de 1950 a 1969 e caiu para 11,9 anos entre as nascidas de 2000 a 2005, de acordo com estudo publicado no periódico médico JAMA Network Open.

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“Ainda não sabemos por que isso acontece”, diz Omero. “O que se observa é a relação com o ritmo circadiano. Pessoas que vivem em regiões com maior incidência solar tendem a menstruar mais cedo. Também há associação com níveis elevados de estresse. Em áreas urbanas, a menstruação costuma ocorrer mais cedo do que em áreas rurais”, acrescenta o especialista.

Esse contexto ocorre enquanto muitos meninos entram em contato com conteúdos de ódio contra mulheres. “O pertencimento é muito importante para os jovens. Quando você constrói isso, olha para seus pares e você se compara, só que agora os jovens se comparam com muito mais gente”, diz Felipe Forbes, médico hebiatra.

“Nas redes, ninguém tem voz para falar sobre os seus sentimentos, as pessoas só vociferam coisas, e isso constrói um lugar de ódio. O próximo passo é discutir quem é melhor e quem é pior, e aí o discurso redpill ganha força.”

O fenômeno pode levar a uma piora do chamado bullying menstrual, o assédio ou discriminação que pessoas que menstruam passam. “A menstruação aparece como um marcador de diferença entre meninos e meninas. Em uma escola pública, ouvi a frase: ‘Agora elas estão prontas para o abate’”, exemplifica Úrsula.

Entre os especialistas, é consenso que resolver o problema envolve distribuir absorventes, fazer mais pesquisas sobre menstruação, conversar com adolescentes, homens e mulheres, e levar informação sobre o tema para toda a sociedade. Um novo passo nessa direção foi dado recentemente. O Instituto Alana anunciou a criação de um fundo de R$ 300 milhões para investir em saúde menstrual ao longo dos próximos 14 anos. É o começo de um mundo mais preparado para elas.

*A jornalista viajou a convite do Instituo Alana

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