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Pílula anticoncepcional masculina significa liberdade para as mulheres?

A previsão de comercialização da pílula é para daqui dez anos, em 2029

Por Gabriela Maraccini - Atualizado em 18 fev 2020, 09h54 - Publicado em 12 abr 2019, 18h03

As mulheres são as que mais sentem as consequências dos métodos contraceptivos. São elas que normalmente põem a própria saúde em risco ingerindo pílulas, levando injeções ou instalando chips anticoncepcionais no corpo. Essa realidade pode mudar em um futuro não tão distante. 

No final do mês de março, a Sociedade de Endocrinologia dos Estados Unidos informou que uma nova pílula anticoncepcional passou por testes e obteve resultados positivos. Dessa vez, o público alvo não são as mulheres, mas os homens!

O novo medicamento oral, chamado 11-beta-MNTDC, foi divulgado durante reunião anual. A pílula é composta de testosterona modificada com uma combinação entre hormônio masculino, o andrógeno, e feminino, a progesterona.

Apesar de serem desenvolvidas para sistemas reprodutivos diferentes, a pílula masculina e a feminina funcionam de formas semelhantes. Priscila Lima, ginecologista da Clínica Vivitá, explicou à CLAUDIA que em ambos os medicamentos há o uso de hormônios que bloqueiam a hipófise, inibindo nas mulheres a ovulação e nos homens a espermatogênese.

As tentativas anteriores de desenvolver uma pílula para homens foram barradas por apresentarem efeitos colaterais graves. Então por que, afinal, a pílula feminina, que também pode acarretar problemas de saúde como a trombose, foi aprovada e ainda circula comercialmente?

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Priscila conta que, durante a fase de testes da pílula feminina, 5 mil pessoas foram submetidas à experimentação e o risco de trombose não foi tão grande a ponto de barrar a liberação do anticoncepcional.

Em pacientes saudáveis, há o risco de trombose, mas não é um risco tão alto a ponto de contra-indicar a pílula”, aponta a ginecologista. “Quando há a pressão alta, diabetes ou no caso de pacientes com mais de 40 anos, aumenta-se um pouco o risco de problemas cardiovasculares e trombose.”

O estudo

Christina Wang, principal pesquisadora e uma das diretoras do Centro de Ciência Clínica do Instituto de Pesquisa Biomédica de Los Angeles (LA BioMed), explica que a pílula é feita com o hormônio feminino para inibir a produção de espermatozoide. A combinação com o hormônio masculino serve para não diminuir a libido. 

Nos testes, 40 homens tomaram o medicamento. Dez homens tomaram placebos (pílulas sem efeito); 14 tomaram pílulas com 200mg e 16 tomaram pílulas com 400mg da substância; todos fizeram uso de um comprimido ao dia, por 28 dias contínuos.

Ao final do estudo, os exames de sangue mostraram que o nível de testosterona de quem tomou o anticoncepcional diminuiu a níveis que não permitiam a produção de espermatozoide, mas sem causar insuficiência androgênica.

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Entretanto, ainda são necessários pesquisas mais longas para confirmar a efetividade do medicamento. Provando-se eficaz, a droga é finalmente submetida a testes com casais sexualmente ativos. A previsão de comercialização da pílula é para daqui dez anos, em 2029.

Robert Kneschke / EyeEm/Getty Images

Como funciona a pílula anticoncepcional masculina?

Flávio Trigo, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, afirma que, toda vez que se toma essa combinação de hormônio masculino, existe uma inibição da produção do espermatozoide.

O médico explica que a hipófise, glândula localizada na base do cérebro que tem a função de regular o trabalho dos testículos, nos homens, libera o LH – hormônio relacionado à fertilidade – e estimula a produção da testosterona.

“Quando eu dou alguma substância que inibe a produção do LH, eu não consigo inibir só a sua produção, eu também diminuo a produção de SSH, responsável pelos espermatozoides”, detalha o urologista. “Então, eu mexo em um sistema em que a pessoa se torna temporariamente infértil”.

Tentativas anteriores: alto risco à saúde

Não é a primeira vez que se tenta desenvolver um medicamento contraceptivo para os homens. Nas tentativas anteriores, os estudos foram barrados por terem apresentado níveis colaterais graves. 

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Alex Meller, urologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), conta que, anteriormente, os contraceptivos eram criados à base de progesterona. “Por se tratar de um hormônio feminino, havia a perda de libido”, explica. “Ela inibe a produção de espermatozoide, atingindo o seu objetivo; mas, consequentemente, prejudica a libido e a virilidade em um todo. Então estes estudos foram abandonados.”

Como saída, a testosterona começou a ser combinada com o hormônio feminino para tentar diminuir os efeitos colaterais. Porém, os testes continuaram mostrando riscos à saúde. “Além das questões sexuais, apareceram sintomas como aumento de peso e aumento de colesterol”, explica o urologista. “Então, o problema de aprovação destes métodos para o uso comercial foram as altas taxas de efeitos colaterais.”

Paul Bradbury/Getty Images

Nova tentativa, menos efeitos colaterais

Na nova pílula desenvolvida nos Estados Unidos, a combinação de testosterona modificada (a nandrolona) para ter efeitos de hormônio masculino e de progesterona foi a solução para atenuar as decorrências do uso dos anticoncepcionais masculinos. Com isso, é esperado que a droga, que combina duas ações hormonais em uma, diminua a produção de espermatozoides sem afetar a libido.

Durante o teste realizado no LA BioMed, alguns participantes perceberam efeitos colaterais leves, como acne e dor de cabeça. Já cinco tiveram uma tênue diminuição no desejo sexual e outros dois descreveram disfunção erétil leve, mas sem diminuir a atividade sexual.

Há o perigo de infertilidade irreversível?

Carol Yepes/Getty Images

Para ambas as pílulas, a masculina e a feminina, Priscila Lima afirma que não há risco de infertilidade. “A vantagem da pílula é que ela é reversível”, argumenta. “Ela produz infertilidade no tempo de uso, ou seja, é temporário. Depois de parar de usar ainda demora alguns meses para o organismo voltar ao normal, mas volta”, garante. 

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“Neste último estudo eles viram que a produção de espermatozoides foi diminuída, mas seu uso é seguro e reversível, interfere na infertilidade do homem temporariamente”, completa a ginecologista. 

E no futuro? Será que as mulheres vão poder parar de tomar o anticoncepcional e os homens é que vão adotar o método contraceptivo?

Segundo a ginecologista, em uma pesquisa feita com 9 mil homens, dos que mantinham uma relação estável, mais da metade concordou que adotaria métodos contraceptivos caso fosse desejo da parceira parar de tomar pílula. “Dessa forma, acredito que a pílula masculina vai ser um método utilizado, mas em maior quantidade entre homens em relacionamento estável”, opina. 

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