Precisamos falar sobre incontinência urinária nas mulheres

Ela não é normal em situação alguma. Causa de embaraço e isolamento, atinge não só as mulheres maduras, mas também as esportistas, as jovens e as magras

Apesar da dificuldade de tocar no assunto, há 400 milhões de pessoas no mundo sofrendo com perdas involuntárias de urina, sendo 10 milhões só no Brasil. A maioria fica sem tratamento por morrer de vergonha de contar para o médico. Ou por se conformar achando que escape de xixi faz parte do envelhecimento.

Há também as esportistas profissionais, que acreditam que é o preço que se paga por praticar atividades físicas de alto impacto. Se antes o problema acometia mais mulheres maduras (45% das que passaram dos 40 anos relatam algum grau de incontinência ante 15% dos homens), obesas e aquelas que tiveram múltiplas gestações e partos mal assistidos, agora aparece em mulheres jovens, em forma, sem filhos… que pegam pesado na malhação. Não só atletas de alto rendimento, fato que era conhecido, mas também amadoras que decidem correr uma maratona ou aderir a um treino mais puxado na academia. Elas podem se surpreender com o escape, que acontece só durante o exercício. Daí o nome incontinência urinária de esforço.

Um grande número de casos tem ocorrido no crossfit, que virou moda. Cerca de 30% das praticantes perdem urina no treino, segundo uma pesquisa que ouviu 551 mulheres esportistas dessa modalidade, que combina levantamento de peso, ginástica olímpica, corrida e pular corda. Feito por ginecologistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Unicamp, o estudo verificou que as atingidas tinham em média 32 anos, 68% delas nunca haviam tido filho e 68% estavam em dia com a balança, contrariando os clássicos fatores de risco para incontinência, informa uma das autoras, a ginecologista Maíta Poli de Araújo, especializada em medicina esportiva, chefe do setor de Ginecologia do Esporte da Escola Paulista de Medicina.

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Às vezes o “incidente” é estimulado, como se percebe pelo comentário de uma praticante. “Faço tanta força que chego a perder xixi, o que meu coach considera um desempenho excelente”, conta ela. É comum o uso de toalhinhas para secar não o suor, mas o chão, especialmente depois de executarem o double under (salto duplo com corda). “Não somos contra o crossfit, mas não podemos fechar os olhos para o fato”, diz a médica.

A modalidade melhora o condicionamento cardiorrespiratório, emagrece e esculpe o corpo, mas figura entre as que mais sobrecarregam o assoalho pélvico se ele não for preparado para isso. Ela não está sozinha. A ginástica olímpica, praticada por número menor de atletas, impacta mais de 50% das profissionais quando desenvolvem o trampolim, um dos exercícios.

Segundo o coautor da pesquisa, o ginecologista Luiz Gustavo Oliveira Brito, professor livre-docente do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, as queixas se repetem não só entre as profissionais que treinam todos os dias e em longas jornadas – como as do body pumping (que enfrentam o escape na elevação de pesos e em barras), do basquete, tênis e vôlei – mas também entre as que correm maratonas e meias maratonas.

Outro estudo, conduzido em Porto Alegre, mostrou que 70% das pessoas atingidas não relatam ao médico. “E, entre as 30% que falam, a maioria não recebe o tratamento adequado porque o profissional não dá importância”, lamenta o urologista Carlos Sacomani, diretor de Disfunção Miccional da Sociedade Brasileira de Urologia. Pior: o mais comum é recomendar o abandono da atividade, sendo que não é necessário.

O que leva ao descontrole?

O problema não está na bexiga, mas nos músculos que sustentam não só esse órgão como o útero e o intestino. A musculatura do assoalho pélvico (ou períneo) ajuda a conter fezes, urina e gases e ainda colabora no sexo. “Ela precisa ser forte e funcional, capaz de dar uma resposta rápida e evitar vexames quando se espirra, tosse, gargalha ou levanta peso”, explica a fisioterapeuta Camila Garcia de Carvalho, especialista em uroginecologia e obstetrícia pela Universidade de São Paulo e Unifesp.

Contribuem para que ela vá perdendo a eficiência a tendência genética, o tabagismo, excesso de peso (inclusive o ganho na gravidez), além de doenças como prisão de ventre crônica, diabetes e transtornos neurológicos. A carência de estrógeno, após a menopausa, também enfraquece o assoalho pélvico.

Parece estranho que as pessoas saradas tenham alguma musculatura fraca ou ineficiente. O treino intenso, porém, pode ter esse efeito nocivo. O exercício aumenta a pressão no interior do abdome. O impacto vai depender da frequência, intensidade, do tempo e tipo do esporte e do estado dos músculos.

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“Por exemplo, em cada pulo da corrida, uma mulher de 50 quilos triplica seu peso; portanto, sua musculatura deve arcar com a pressão de 150 quilos. Imagine isso de maneira frequente”, explica Luiz Gustavo. Se a pélvis estiver fragilizada ou despreparada, é grande o risco de a urina escorrer.

Com tanta carga e repetição, as esportistas podem perder a capacidade de contrair o músculo rapidamente. Assim, quem pratica atividades intensas está mais sujeita à incontinência urinária de esforço. Outro fator relevante é a alimentação. Na ânsia de emagrecer, muitas esportistas seguem dietas restritivas, pobres em carboidratos e vitaminas. “Falta energia para irrigar o assoalho pélvico”, diz Maíta.

Já nas mulheres mais velhas, o desejo incontrolável de urinar – a incontinência urinária de urgência – é resultado da bexiga hiperativa. Muitas sentem uma vontade súbita, saem correndo para o banheiro, mas não conseguem chegar a tempo. “O órgão passa a reter um volume menor de líquido porque a pessoa fica mais sensível e começa a perceber o enchimento da bexiga em menos tempo. Mesmo quando ela não está totalmente cheia, a vontade de urinar é mais frequente”, explica Carlos Sacomani.

O aumento da sensibilidade pode decorrer do próprio envelhecimento, mas isso não significa que seja inevitável tolerar perdas de urina com o avanço da idade. É preciso tratar essa doença porque ela afasta do convívio social, diminui a atividade sexual, provoca depressão e aumenta o risco de fraturas. “Quando acordam no meio da noite, apertadas, elas pulam da cama sonolentas e podem se desequilibrar e cair a caminho do banheiro”, adverte o urologista.

A incontinência de urgência também se manifesta em homens idosos, enquanto a de esforço, bem mais comum, é exclusiva do sexo feminino. Esta última tem graus variados e, se não for controlada, tende a evoluir, chegando a um quadro em que se molha a roupa só pelo movimento de se levantar da poltrona. Há mulheres que apresentam incontinência mista, de esforço e urgência. Seja qual for o tipo, quem tem casos na família deve cuidar – quanto antes, melhor.

Os tratamentos indicados

“A mulher não precisa desistir dos esportes, da vida social, de nada”, assegura Maíta. “Se fizer o tratamento bem orientado, pode prosseguir.” Casos leves a moderados de incontinência de esforço são tratados com fisioterapia especializada. Segundo Camila, a primeira medida é tomar consciência da musculatura, entender onde ela fica e como acioná-la, pois 30% das mulheres não conseguem contrair e relaxar o assoalho pélvico.

Há exercícios, eletroestimulação (uso de eletrodos para inibir ou estimular a contração) e biofeedback, entre outras técnicas, para enfrentar a situação. Além disso, a fisioterapia orienta manobras destinadas a fortalecer a musculatura do assoalho pélvico. Exercícios de pilates bem direcionados também podem dar resultado.

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Outras estratégias podem ser treinadas e adotadas para manter a contração (veja o quadro abaixo). Ainda são indicados os pessários vaginais, dispositivos pequenos, de silicone ou borracha, a maioria no formato de um anel. “Eles agem como fator obstrutivo, deixando mais resistente a parede anterior da vagina, de onde sai o canal da uretra. A mulher tende a manter essa área contraída, o que evita escapes”, afirma Luiz Gustavo. Utilizados no treino, podem ficar até dez dias na vagina. Removidos, são higienizados com água corrente e sabão.

Na incontinência de urgência, além de fisioterapia especializada, indicam–se medicamentos para diminuir a sensibilidade e relaxar a bexiga ou ainda injeções de toxina botulínica em até 30 pontos do músculo da parede da bexiga. Também é possível implantar um aparelho neuromodulador embaixo da pele, semelhante a um marca-passo, na altura das costas, com o objetivo de ativar o nervo que vai da medula à bexiga. Isso controla o estímulo desse órgão.

A cirurgia só é recomendada nos casos mais graves. Consiste na colocação de uma fita, uma telinha ou uma espécie de cinta para comprimir o canal urinário e melhorar a sustentação da uretra.

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