“Calça de lipedema” realmente funciona ou é perigosa? Médicos explicam
Especialistas explicam quando as peças de compressão ajudam nos sintomas do lipedema e alertam para riscos do uso inadequado e limitações do recurso
As leggings de compressão são vendidas como a nova solução para casos de lipedema. Elas podem ajudar durante a prática de exercícios, ao reduzir o inchaço e o acúmulo de líquido, mas não são solução definitiva nem servem para todas as pessoas. Especialistas explicam o que se sabe sobre o tema.
Antes, é preciso entender o que é lipedema. “É uma doença caracterizada pelo acúmulo desproporcional de gordura, principalmente em pernas e braços, acompanhada de dor, sensibilidade e impacto significativo na mobilidade e qualidade de vida”, segundo Fábio Kamamoto, diretor do Instituto Lipedema Brasil. Cerca de 10% da população mundial têm a condição.
A “calça de lipedema” realmente melhora os sintomas, como dor e inchaço?
As calças exercem uma pressão controlada sobre os tecidos dos membros inferiores. “Essa pressão ajuda a reduzir o acúmulo de líquido entre as células, melhora o retorno venoso e o fluxo linfático, diminui a sensação de peso e dor e oferece maior sustentação ao tecido adiposo, que é mais sensível nas pessoas com lipedema”, comenta Amanda Meirelles, médica intensivista.
Elas não eliminam as células doentes e, portanto, não resolvem o problema por completo, mas, ao reduzir o inchaço, aliviam a dor e a sensação de peso nas pernas. O uso costuma ser indicado durante a prática de exercícios ou em situações com maior tendência a edema, como viagens longas. Mas é preciso ter cuidado.
“Devemos ter cautela com as chamadas ‘calças de lipedema’ comerciais, porque muitos produtos vendidos com esse nome são modeladoras que não entregam compressão graduada de grau terapêutico, não são feitas sob medida e não têm classe de compressão especificada”, afirma Rafael Erthal, cirurgião plástico referência no assunto e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).
A compressão oferecida por esses produtos varia bastante, já que não há fiscalização nem classificação específicas. Por outro lado, segundo Rafael, as meias de compressão clínicas têm respaldo científico, reduzem o acúmulo de fluido no tecido intersticial e diminuem a dor e a sensação de peso quando usadas de forma consistente, porque oferecem a compressão graduada.
“A compressão médica bem indicada ajuda de verdade nos sintomas, mas depende de classe correta, construção adequada e ajuste profissional. Não é a mesma coisa que uma ‘calça de lipedema’ do varejo”, diz o cirurgião.
Quando a ‘calça de lipedema’ é indicada e quando não é?
Se por um lado são indicadas para a prática de exercícios físicos, por outro não servem para o pós-operatório, que exige compressão graduada específica para cada fase da recuperação. “Os produtos de compressão devem ser prescritos por profissionais capacitados”, acrescenta Amanda.
Segundo ela, alguns pacientes exigem ainda mais cuidado, como aqueles com doença arterial periférica importante, insuficiência cardíaca descompensada, infecções ativas na pele e trombose venosa profunda aguda.
Há risco de uso inadequado da ‘calça de lipedema’?
Além da piora da dor e do inchaço apontada pelos especialistas, o uso inadequado pode causar outros problemas. “O uso das ‘meias de lipedema’ pode trazer compressão insuficiente e um resultado insatisfatório”, diz Rafael.
“Mas o oposto também pode ocorrer, quando se usa um tamanho errado ou compressão excessiva, que podem gerar efeito garrote: dobras que ‘cavam’ a pele e comprometem o sistema circulatório distal, com piora do edema e da dor.”
Qual é o melhor tratamento contra o lipedema?
“O melhor tratamento comprovado cientificamente para o lipedema é a combinação entre o tratamento conservador e o cirúrgico”, diz Fábio.
“O tratamento conservador envolve mudança de estilo de vida: dieta adequada, atividade física regular, malhas compressivas e, em alguns casos, medicações para redução de peso quando há obesidade associada.” O tratamento cirúrgico permite a remoção do tecido doente de gordura e melhora da flacidez de pele, que é muito comum, segundo ele.
“O objetivo é controlar os sintomas e melhorar a função e a qualidade de vida, pois não existe, atualmente, uma cura definitiva”, afirma Amanda. Rafael acrescenta a importância das terapias compressivas específicas e graduadas, incluindo drenagem linfática, exercícios descongestivos e meias clínicas de compressão, além de suporte psicossocial.
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