5 perguntas para entender a epidemia de sífilis no Brasil

O crescimento de 5.000% de casos registrados da doença, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, vem assustando a comunidade médica.

A sífilis é uma doença sexualmente transmissível que acompanha a humanidade desde a Idade Média, quando surgiram os primeiros relatos de cancros nas regiões genitais. Mas o crescimento de 5.000% de casos registrados da enfermidade, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, vem assustando a comunidade médica.

Transmitida pela bactéria treponema pallidum, a patologia que pode ser diagnosticada facilmente no seu primeiro estágio, é de fácil tratamento, caso não evolua para as fases secundária e terciária. Para expor a problemática do que já pode ser considerada uma epidemia, o ginecologista e obstetra Dr. Ricardo Luba conversou com CLAUDIA e respondeu 5 questões que você precisa saber para entender o porquê dela ter se tornado uma doença que não escolhe gênero, faixa etária ou classe social.

Quais são os fatores que fizeram com que a sífilis voltasse a ser uma das doenças sexualmente transmissíveis que mais vitimam brasileiros nos dias de hoje?

O principal fator é a falta do uso de preservativo associado a um comportamento de risco, que implica na rotatividade de parceiros e parceiras. Hoje, há inúmeras possibilidades de manter relações sexuais casuais com os aplicativos de paquera e com as redes sociais. Não há problema em ter uma vida sexual agitada desde que você se proteja e faça exames de rotina com certa regularidade.

Uma das afirmações mais recorrentes sobre essa epidemia de sífilis é que, diferentemente do que muita gente imagina, a doença, hoje, não escolhe idade, sexo, nem classe social. O que isso quer dizer e quais são os perigos da contaminação irrestrita?

Na década de 70, o Brasil também passou por uma epidemia de sífilis semelhante a que estamos vendo agora devido à liberação sexual e aos valores que foram contestados na época. O fato de não ter mais classe social, gênero e faixa etária determinada para a contaminação só expõe que esta falta de cuidado consigo mesmo é algo muito enraizado na mentalidade dos brasileiros. Isso rebate conceitos preconceituosos, tanto é que pessoas do mais alto nível intelectual também podem contrair. Quando descoberta no estágio primário, a sífilis pode ser tratada com uma dose única de penicilina benzatina intramuscular. O problema maior começa a surgir quando o diagnóstico não é feito rapidamente.

Eu falo da negligência com o próprio corpo, mas é algo que vem acontecendo com homens e mulheres ao redor do mundo. Por exemplo, esses dias eu vi um artigo que falava sobre
ChemSex, um tipo de festa inglesa que se assemelha muito às raves. Mas além do abuso do uso de drogas, os integrantes também têm relações sexuais indiscriminadas sob o efeito dessas substâncias. São utilizadas drogas extremamente potentes, que alteram drasticamente as percepções de cada um e geram, além da dependência, uma série de infecções por doenças sexualmente transmissíveis como hepatite, sífilis e até mesmo HPV, porque as pessoas não estão em condição de usar preservativo. gerando problemas de drogas, relação sexual sob o uso de drogas.

Quais são os sintomas e como pode ser feito o diagnóstico?

O primeiro e mais evidente sintoma é a formação do cancro nas regiões genitais, uma ferida indolor que surge, em média, três semanas depois da primeira infecção e some três semanas depois. Caso aconteça esse desaparecimento, você perde a chance de fazer o diagnóstico inicial. Depois, podem levar de seis meses a dois anos para que o paciente comece a apresentar lesões cutâneas, pequenas manchinhas acastanhadas, que já podem ser caracterizadas como parte da sífilis secundária, também chamada de latente.

Você pode nunca mais apresentar nenhum sintoma dependendo do seu estado imunológico, e esses sinais só começarem a aparecer vinte anos depois, já como a sífilis terciária, também chamada de neurosífilis, que causa comprometimento em vários sistemas como o cognitivo, cardíaco, cutâneo e pulmonar. Normalmente, esse estágio acomete pacientes imunodeprimidos, que podem estar desnutridos, possuir HIV ou alguma doença crônica.

O diagnóstico pode ser feito através de dois exames de sangue, o VDRL e o FTA-ABS, esse último descobre o agente. Se o primeiro dá um resultado positivo, indicamos fazer o segundo. Doenças dermatológicas podem ser diagnosticadas com o primeiro, assim como a AIDS e gravidez. Ele também pode apresentar resultado positivo em pacientes que já tiveram sífilis e já foram submetidos ao tratamento, o que chamamos de cicatriz sorológica.

Como se trata de uma patologia transmitida por uma uma bactéria, para a cura é indicado um antibiótico, que neste caso é a penicilina benzatina bezetacil, porque possui uma ação de longo prazo. Para aqueles que são alérgicos à substância, indicamos outros antibióticos que dependem da sensibilidade e da tolerância de cada paciente.

Caso não seja tratada, a sífilis pode matar?

Não, casos de óbito de pacientes que possuem a doença geralmente ocorrem por outras enfermidades relacionadas à imunodepressão, ou seja, porque o sistema imunológico dessa pessoa não está atuando como deveria.

Qual é a diferença entre a sífilis congênita e a sífilis adquirida?

A diferença são as vias de transmissão. A sífilis congênita, também chamada de gestacional, é aquela em que a mulher já possuia quando engravidou. Essa criança, muito provavelmente, apresentará todos os malefícios e alterações relacionadas à doença, como problemas cardíacos, ósseos, cerebrais e cognitivos, além de já nascer portadora da patologia. A transmissão é sanguínea, também chamada de vertical, isto é, da mãe para o filho.

É muito difícil do bebê nascer sem a doença. O que pode acontecer é o efeito ser menor caso você faça um diagnóstico precoce e comece o tratamento durante a gravidez. Por isso que insistimos tanto que além da prevenção, seja feito um pré-natal com uma série de exames para que não haja nenhum problema ginecológico ou nada que contraindique a gravidez antes de engravidar. A adquirida é a sexualmente transmissível.

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