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Talíria Petrone: “Dizem que eu deveria ser furada como Marielle”

A deputada federal teve ameaças de morte interceptadas pela polícia. Ela conversou com CLAUDIA logo após o ocorrido, em agosto

Por Ana Carolina Pinheiro, Letícia Paiva 12 nov 2020, 19h11

Talíria Petrone (PSOL) convive com ameaças de morte desde sua eleição em 2016 como vereadora de Niterói, no Rio de Janeiro. Neste ano, como deputada federal, a parlamentar foi alvo de um atentado organizado pelo miliciano Edmilson Gomes Menezes, conhecido como Macaquinho, segundo revelou VEJA. O miliciano tem relação com o “escritório do crime”, que funciona como ponto de encomenda de assassinatos no Rio.

Foragido da polícia e réu em três crimes de homicídio, Macaquinho já foi apontado em investigações como um dos responsáveis pela execução da vereadora Marielle Franco, que era amiga de Talíria, e do motorista Anderson Gomes, em 2018. Porém, a polícia e o Ministério Público desconsideraram a participação do miliciano, responsabilizando apenas o policial reformado Ronnie Lessa e do ex-agente Élcio Queiroz. Ambos estão presos na Penitenciária Federal de Porto Velho.

O plano do atentado foi descoberto por conta de duas denúncias feitas por meio do Disque Denúncia, em agosto. Em decorrência da gravidade, a equipe da deputada foi comunicada imediatamente. Assim, Talíria passou a contar com escolta de agentes da Polícia Legislativa.

Em 21 de agosto, Talíria deu uma entrevista à editora de comportamento e sociedade de CLAUDIA, Letícia Paiva, sobre violência contra mulheres no ambiente político. Na época, a parlamentar havia recebido a denúncia da ameaça há uma semana. Como as investigações eram iniciais, suas falas não foram divulgadas no momento por questão de segurança.

“Recentemente, o Disque Denúncia identificou uma possível reunião de milicianos dizendo que eu tinha que ser assassinada antes das eleições. E eu estou de licença-maternidade. É quase inacreditável”, revelou Talíria, que não vive mais no Rio de Janeiro por conta das ameaças. “Isso tira uma energia para produzir luta e leis. Ficamos psicologicamente abalados”.

Segundo ela, as redes sociais podem democratizar as informações, mas ainda são muito violentas. “As ameaças de morte, como ‘vai ficar furada como Marielle, é a próxima, a milícia tem que te colocar no caixão’ saem de lá. Além de planos de assassinatos na deep web”, contou a parlamentar.

A rotina dela foi transformada a partir da sua eleição, em que demanda urgentes de direitos humanos, como direitos das mulheres e de negros e segurança pública, são defendidas veemente. “Antes da execução da Marielle, o nível de tensão já era grave. Mas a ocupação no parlamento obrigou uma mudança muito radical de vida. Do ônibus e da bicicleta para o carro blindado, da roda de samba para o cuidado de onde vai se divertir. Isso afasta”, disse Talíria. Os ataques se tornaram ainda mais cruéis com a maternidade. “Agora, tenho uma filha também. Me questiono às vezes, mas sei que ainda vale a pena”, pontuou.

Nesta quinta-feira (12), a deputada também se pronunciou sobre o plano de assassinato por meio de uma nota divulgada a CLAUDIA. “Convivo com ameaças desde o início da vida pública. Os riscos à minha vida foram mudando de patamar e, neste momento, devido à gravidade da situação, fui obrigada a sair temporariamente do Rio de Janeiro com minha família enquanto aguardamos a investigação. Considero o cerceamento ao meu exercício parlamentar um ataque frontal à democracia e exijo poder, o mais breve possível, voltar ao território que me elegeu e onde preciso e quero estar para seguir cumprindo a tarefa para a qual fui eleita com mais de 107 mil votos”, disse.

Mais de 600 pessoas assinaram o manifesto feito pela equipe de Talíria para alertar sobre os ataques sofridos por ela. Além disso, parlamentares de países como Colômbia, Estados Unidos, Suíça, Venezuela, políticos brasileiros e outras personalidades também declaram apoio à parlamentar.

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Para a deputada, o enfrentamento dessa violência deve ocorrer com a presença cada vez maior de mulheres na esfera política. Posteriormente, Talíria também recorreu à Organizações das Nações Unidas para cobrar um posicionamento do Governo Federal não só das denúncias em que é vítima, como também do caso de Marielle e de todas as mulheres ameaçadas.

O ataque

De acordo com relatos de fontes anônimas a VEJA, o ataque teria sido planejado dentro do presídio Bangu 9, onde há três detentos investigados no inquérito do caso Marielle e Anderson. As informações apontam que milicianos junto de Macaquinho que articulavam o crime.

Para investigar a denúncia, uma busca e apreensão dentro do presídio recolheu um celular. Os agentes aguardam a autorização judicial com a quebra de sigilo para acessar o conteúdo do aparelho.

Em agosto de 2018, o miliciano Orlando da Silva Araújo, também apontado por envolvimento no caso de Marielle e Anderson, revelou a existência do Escritório do Crime em um depoimento ao Ministério Público.

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