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Para o pastor Henrique Vieira, o sonho resiste ao caos e ao absurdo

O escritor fluminense demonstra que a esperança, seguida de luta, é a saída para uma sociedade menos desigual e mais generosa

Por Ana Carolina Pinheiro - Atualizado em 16 set 2020, 14h58 - Publicado em 14 ago 2020, 12h00

Logo no início da conversa por telefone, o pastor Henrique Vieira, 33 anos, faz uma pausa. Dirigindo-se à filha, Maria, 2 anos, que brincava ao fundo, diz: “Não precisa parar de falar; é só diminuir um pouquinho o volume da voz”. Assim como a maioria dos brasileiros, o pastor da Igreja Batista e autor do livro O Amor Como Revolução (Objetiva) viu a dinâmica familiar e profissional mudar nos últimos meses por causa da pandemia. O isolamento em casa coincidiu com a produção de mais dois livros – um deles a ser publicado ainda este mês. Isso fora as participações em lives e o preparo do curso de teologia negra, que ele ministra online a partir da segunda quinzena de agosto.

Apesar de ele próprio contar com uma estrutura privilegiada para dar continuidade às demandas domésticas, profissionais e religiosas, o pastor rejeita a romantização da quarentena praticada por algumas personalidades. “É uma pandemia que chegou a um país injusto socialmente e racialmente. Há mortes, famílias chorando, passando fome e sem acesso a direitos básicos. Não podemos reduzir essa combinação de fatores”, diz. Para o fluminense, o sofrimento não deve ser usado como instrumento pedagógico, porém, quando identificamos e acolhemos sentimentos desalentadores, adentramos o processo de transformação de que a sociedade tanto carece. “Preferimos não sentir dor, mas, uma vez expostos a ela, temos a oportunidade de tomada de consciência sobre problemas sistêmicos no país. Entendemos que o que considerávamos normal é absurdo”, afirma. Assim, segundo ele, a caminhada coletiva segue para decisões mais éticas, solidárias e razoáveis, traços inexistentes no governo atual. “O presidente, desde antes da posse, elogia a ditadura, exalta torturador, desdenha de lutas, promete a morte de seus adversários. Não há novidade nesse nível de perversidade”, aponta.

Em meio a tanta obscuridade, é possível transformar? “Sim, há que sonhar. O sonho é uma das características mais singulares da experiência humana e resiste mesmo diante de situações caóticas e absurdas. Acredito nisso pela minha tradição de fé. O Evangelho narra a cruz. Todo cristão é discípulo de alguém que foi preso, torturado e executado pelo Estado, que foi entregue por líderes poderosos sob os aplausos de muitos que se intitulavam cidadãos de bem”, responde o pastor, apontando que o julgamento sobre certos corpos permanece até hoje. “A cruz muitas vezes se torna o fuzil que tira a vida da Irmã Dorothy, da Marielle, do Chico Mendes, de Ágatha Félix, Maria Eduarda, João Pedro; ou o joelho de um sistema policial que sufoca e mata George Floyd. Mas com o fim vem também o renascimento, a ressurreição.”

“Preferimos não sentir dor, mas, uma vez expostos a ela, temos a oportunidade de tomada de consciência sobre problemas sistêmicos no país. Entendemos que o que considerávamos normal é absurdo”

Henrique renova a esperança no futuro ao testemunhar as grandes ações promovidas por redes de solidariedade nos últimos meses, como as iniciativas de combate à pandemia organizadas por coletivos periféricos. “A escritora Conceição Evaristo sempre fala que nossos passos vêm de longe. Em ascensão, vejo essa força popular organizada, como a luta do movimento negro, feminista, das pessoas sem moradia, indígenas, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência. Não é ilusão, portanto, vislumbrar algo melhor”, explica. Em seu livro, de 2019, o escritor reflete sobre o processo que antecede a ação diante das dificuldades: “A vida nos convida diariamente a encarar sua beleza e tragédia (…). Tendemos à negação, ao entretenimento permanente, às distrações contínuas, ao barulho incessante que nos livra do incômodo do silêncio (…) Porque, de alguma maneira, (o silêncio) evoca a reflexão, o confronto com nossa condição mais profunda e as verdades que não contamos para nós mesmos”.

Fotos Chico Cerchiaro/Colagens Bárbara Siewer//CLAUDIA

Pessoalmente, o que move Henrique é sua espiritualidade, algo que independe de tudo, tornando-se uma potência de generosidade e amor. “Qual era a razão para que, diante da fogueira da Inquisição, mulheres e meus irmãos e minhas irmãs do povo negro se mantivessem otimistas? Eles se ancoravam num amanhã mais razoável. Então, por mais que eu olhe para o presidente do Brasil e queira chorar, já que ele se tornou um símbolo de desesperança, me viro para dentro de mim e vejo que o mundo novo está aqui, seja por desejo, seja por ações”, explica. Para Henrique, manter os sonhos no campo da imaginação é importante, mas somente ao expandi-los para o campo das ações é que se tornam reais. “A força interna de que falo se materializa quando participo de articulações sociais e de uma igreja que defende a diversidade religiosa, por exemplo. Não importa se vou estar diante de Trump ou Bolsonaro, que podem, em tese, dominar o meu corpo por meio da violência, pois o meu espírito e minha mente eles não controlam”, aponta o pastor, que define essa resistência como um movimento histórico.

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Ele reconhece que há muitas pessoas feridas com a institucionalidade cristã. “Com razão, mas essas ideias opressoras criadas pelo homem não condizem com a verdadeira mensagem de Jesus, que fala de amor e respeito. A espiritualidade não pode ser anestesia ou muleta. Fé não é vacina para o sofrimento nem para o vírus”, afirma, criticando também quem culpa Deus pela crise que estamos vivendo. Para Henrique, a espiritualidade pode ser uma forma profunda e generosa de lidar com o desamparo da vida sem cair na desesperança. “A condição humana é frágil antes, durante e depois da pandemia. Vivemos à beira de um abismo o tempo inteiro, mas a espiritualidade mostra que dá para dançar e fazer poesia. Ela me dá a certeza de que posso descansar o meu coração em uma potência – Deus, para quem acredita – e produzir felicidade, aproveitar o tempo, amar o próximo. Tem, do outro lado do grupo que citei antes, muita gente percebendo essa condição de existência frágil e olhando para o alto em busca de um sentido mais profundo para além do risco do vírus”, diz ele.

O mundo ideal, segundo Henrique, aparece na canção Vilarejo, dos Tribalistas. “Há um vilarejo ali, onde areja um vento bom. Peitos fartos, filhos fortes, sonhos semeando o mundo real”, cantarola. “Até chegarmos lá, é preciso pé no chão. Quais são os objetivos reais? Reforma tributária e agrária, manutenção da democracia, políticas públicas de garantia de renda, redução de mortes por feminicídio, racismo e LGBTfobia, editais de cultura para pequenos artistas”, pontua, listando alguns dos avanços pelos quais ele considera essencial lutar por agora. “Martin Luther King dizia que não importa se dá para ver a escada inteira, é preciso subir o primeiro degrau. Isso começa em nossas redes de solidariedade, no compromisso com o próximo, na dinâmica da família, no relacionamento no trabalho e até com desconhecidos”, explica. Segundo o pastor, a vida pode ser comparada com um jardim, que precisa de cuidados para frutificar e florescer. “Quando a gente coloca tudo na conta do mundo, nos abstemos da própria responsabilidade. Por isso, gosto de pensar que os lugares onde vivo serão pequenos jardins de esperança, pequenos novos mundos.” Lutas à parte, Henrique carrega ainda muitos sonhos pessoais. “Gostaria de viajar por um tempo com a minha família para conhecer alguns lugares, especialmente países do continente africano, como a África do Sul. Também quero realizar mais no campo da arte, fazendo filmes, por exemplo”, revela ele, que participou de Marighella, longa ainda sem data de estreia que conta a vida do escritor, político e guerrilheiro baiano Carlos Marighella.

 

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