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Carolina Maria de Jesus é a homenageada da Festa Literária das Periferias

A escritora ficou mundialmente conhecida pelo livro "Quarto de Despejo: Diário de uma favelada" e é uma importante figura da literatura brasileira

Por Esmeralda Santos (colaboradora) - Atualizado em 26 jun 2020, 20h17 - Publicado em 27 jun 2020, 14h00

“Como diz a Carolina: ninguém vai falar por mim. Então também somos nós falando por nós mesmos”, explica a comunicadora e escritora Ana Paula Lisboa, que é orientadora da turma “Quilombo Dona Carolina”, que conta com 29 mulheres negras na FLUP, Festa Literária das Periferias .

Na edição de 2020, a festa homenageia uma das importantes escritoras negras brasileiras. Carolina Maria de Jesus ficou mundialmente conhecida pelo seu livro “Quarto de Despejo: Diário de uma favelada“, que completa 60 anos esse ano.

O evento acontece tradicionalmente em territórios excluídos de programas literários no Rio de Janeiro, mas, devido a pandemia do novo coronavírus, os encontros estão acontecendo de forma remota e transmitidos pelo Facebook e Youtube, toda terça-feira.

Além do ciclo de palestras de nome “Uma Revolução chamada Carolina” com convidados, a FLUP possui um processo formativo, onde nascem novos escritores, poetas e roteiristas. Esse processo resultou da publicação de 21 livros de autores das periferias, entre eles, está Ana Paula Lisboa.

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De família tradicionalmente do samba, a música e os discos sempre foram presentes na vida da escritora. Aos 14 anos, ela ingressou em um curso de contação de histórias e teatro em um projeto social. “Eu não tinha livro, mas a minha família tinha muitos discos. Então eu ouvi muita música, ainda que não tivéssemos histórias no papel, eu cresci cercada de histórias reais”, contou ela à CLAUDIA de sua casa em Luanda, Angola, onde vive há 4 anos.

“Comecei a criar de uma forma mais específica, foi em 2012 [quando o evento ainda se chamava Festa Literária das UPPs] que comecei a me narrar como escritora. A FLUP me deu técnica e habilidade de produção, eu tinha que entregar textos semanalmente, então sai da inspiração e passei a ter que produzir inspirada pela própria técnica, o que foi muito importante”.

No mesmo ano em que conheceu o evento Ana Paula e mais 42 autores tiveram seus textos publicados pela primeira vez, que ela entende como a importância mais objetiva dos encontros.

A escritora Ana Paula Lisboa na FLUP de 2019 FLUP/Divulgação

“É algo muito representativo, uma força e uma potência ter um produto, algo físico publicado. Temos um histórico de pouquíssimas pessoas negras publicadas, e menos ainda de mulheres negras, ainda que escrevamos muito”.

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Mas além das publicações afim de mostrar que as mulheres negras escritoras são muitas, há também o objetivo indireto dos encontros, que agora reúne 230 mulheres, para reescrever a obra de Carolina.

“Temos falado sobre como essa escrita pode nos curar, e é uma cura coletiva. Escrever é um ato muito solitário, apenas você seu papel, sua caneta, seu computador ou celular. Então escrever no coletivo para mim é muito bonito, importante e fortalecedor”, argumenta a escritora.

“É um ato político você colocar 230 mulheres negras pra reescrever um livro de uma outra mulher negra, e ao mesmo tempo, painéis inspiradores que trazem debatedores e falas negras, em sua maioria também mulheres”, explica Ana Paula.

O principal desafio nesse momento, é a realização dos encontros através das videoconferências. “Claro que é um prazer, uma honra encontrar pessoas de Porto Alegre, do Piauí, da Bahia e de São Paulo ao mesmo tempo. Mas não olhar no olho de alguém, não saber se aquilo que você está dizendo está fazendo o olho dessa pessoa brilhar é horrível”, explica Ana Paula.

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A FLUP é marcada por encontros e circulação de pessoas, e apesar de parecer um grande impasse, o evento tem acontecido normalmente. “Temos conseguido fazer encontros quentes, há muitos relatos emocionados de troca, desejo e de que esse processo está facilitando a vida delas pra escrever, que está sendo bom, prazeroso e um desafio. Escrever é isso, desafio e prazer”, conta a escritora.

As sucessoras de Carolina estão na FLUP, e em todos os lugares

“Esse ano vai sair o livro mais revolucionário da FLUP. É o livro pra colocar a mulher preta em destaque definitivamente na literatura brasileira”, diz Denise Lima, de 53 anos e formada em jornalismo, que conheceu a festa no ano de 2012  fazendo a cobertura da parte infantil do evento.

“Por ser mulher preta periférica, mesmo com nível superior e especialização em literatura, as portas não se abriam”, conta a jornalista, que com a ajuda da FLUP conseguiu editar a coletânea “Je suis favela” na França em 2017 ao lado de mais 14 autores.

“Eu sou a Carolina que chegou à universidade, mas não conseguiu sobreviver do jornalismo. Hoje, eu ainda trabalho com comida. Faço congelados na casa de um casal de médicos”, explica Denise.

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Agora ela segue em uma “busca do tempo perdido na casa das patroas das mães”, e quer resgatar através da escrita tudo o que vivenciou até os 20 anos de idade em um quarto de empregada ao lado de sua mãe. “Estou passando a limpo o que significa a imagem social de afilhada comportada da patroa ‘tijucana classe média alta’, sendo preta, ‘paupérrima’, com dois irmãos escondidos na casa de uma amiga da minha mãe, porque a patroa não podia saber dos outros filhos”, conta a jornalista.

Com histórias parecidas com a de Denise, as 230 mulheres escreverão o livro “Crônicas Carolinas”, fazendo menções à vida de Carolina, que tem um encontro direto na vida de cada uma dessas mulheres, também pretas e escritoras.

“Eu e Carolina temos uma série de coincidências. A história de nossas famílias são parecidas. Assim como ela, tenho três filhos, então entendo Carolina, entende a ânsia de escrever para superar dores e entendo as dificuldades que ela teve”, comenta Denise.

Todas as mulheres podem (e devem) assumir uma postura antirracista

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