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Caso Marielle: após três anos, crime continua sem esclarecimento

Criação de uma Força-Tarefa e lançamento de um dossiê são novidades no caso que já se estende por três anos e ainda causa dor aos familiares

Por Da Redação Atualizado em 14 mar 2021, 18h28 - Publicado em 14 mar 2021, 09h00

Os assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes completam três anos neste domingo (14), mas continuam sem esclarecimento, inclusive sobre quem seriam os possíveis mandantes do crime.

A vereadora e o motorista foram assassinados a tiros em 14 de março de 2018 na região central do Rio de Janeiro. Marielle era ativista de direitos humanos e do feminismo negro. Ela, que presidia a Comissão da Mulher na Câmara, havia sido nomeada como relatora da comissão que acompanha a intervenção federal na segurança pública do Rio, um mês antes do crime.

O policial militar reformado Ronnie Lessa [apontado como o atirador] e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz [apontado como motorista do carro envolvido no crime], presos há dois anos, são os acusados da execução dos assassinatos. Ambos irão a júri popular.

A mãe de Marielle Franco, Marinete Silva, em uma coletiva de imprensa virtual realizada em conjunto pelo Instituto Marielle Franco e a Anistia Internacional, na última sexta-feira (12), lamentou pela falta de respostas.

“Três anos é muita coisa, muito tempo para a gente não saber quem são os mandantes dessa barbárie. Não tem como mensurar a dor de uma mãe que passa por uma situação dessa”, disse. 

É inadmissível ver esses passos tão lentos depois de tanto tempo daquela barbaridade”, desabafou Marinete.

 

Jurema Werneck, representante da Anistia Internacional no Brasil, lembrou que as diversas trocas no comando das investigações, tanto no Ministério Público quanto na Polícia Civil, atrapalharam os esforços para se chegar às respostas sobre o crime.

Leia mais sobre tentativas de dificultar as investigações do Caso Marielle.

“Quero destacar que foram três governadores, dois procuradores gerais de justiça, três delegados, três promotoras. Foram, no total, cinco trocas”, disse Jurema.

“Três anos que a gente pergunta: quem mandou matar Marielle Franco e por quê? É inadmissível que três anos depois não tenhamos essas respostas. A gente não pode aceitar que as autoridades brasileiras não deem uma resposta clara a essa tentativa de silenciamento”, destacou a representante.

 

A Anistia Internacional recolheu um milhão de assinaturas pedindo justiça e empenho das autoridades na resolução do crime, as quais seriam levadas a uma audiência com o governador em exercício, Cláudio Castro, solicitada no mesmo dia da coletiva. 

A viúva do motorista Anderson Gomes, Ágatha Arnaus, também se pronunciou. De acordo com ela, a criação de uma Força-Tarefa específica do Ministério Público para investigação aconteceu muito tardiamente, quase três anos após o crime. 

“Eu acredito que levou tempo demais. Essa força-tarefa devia ter sido criada lá no início. Não é uma questão de privilégio fúnebre. Eles falam tanto que tinham técnicas inovadoras nesse caso, então sim, é importante que tenham um olhar diferenciado”, disse Ágatha.

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Após três anos, a viúva ainda sofre emocionalmente com a impunidade, e disse que este último mês, antes da marca de três anos do assassinato, foi muito difícil.

“Cada mês que passa dá uma diminuída nas forças para lidar com algumas coisas. Esse mês foi bem pesado. Eu confesso que a esperança não morre, mas a gente vai recebendo notícias e vai duvidando um pouco das instituições, das buscas”, lamentou.

A nova Força-Tarefa

Na quinta-feira (04) da última semana, o procurador-geral de Justiça do Rio, Luciano Oliveira Mattos de Souza, anunciou a criação de uma Força-Tarefa no MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) para enfim concluir as investigações dos assassinatos de Marielle e Anderson.

A força-tarefa será chefiada novamente por Simone Sibilio, que contará com o auxílio de Letícia Emile, promotora que também já atuou na investigação, e um outro promotor, que ainda não teve o nome divulgado.

Em conjunto, os três designados se dedicarão exclusivamente à apuração dos homicídios, o que não ocorria anteriormente. Quando comandava o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), Simone Sibilio atuava simultaneamente em outros casos, como investigações complexas sobre milícias, não dando a atenção necessária ao caso. 

O primeiro passo da força-tarefa já foi dado na  sexta-feira (12), quando foi firmado um acordo com o Facebook  para obter dados que possam ajudar nas buscas dos mandantes do crime, após a solicitação feita no dia 24 de fevereiro.

A conciliação foi proposta pela própria rede social e será a primeira vez que a empresa disponibilizará dados, apesar de já existir uma determinação judicial anterior.

Em conversa com a viúva de Marielle, a promotora Simone Sibilio disse que não se pode “afirmar que, com as informações do Facebook, chegaremos aos mandantes, mas esperamos que ajudem”.

Perguntas que não foram respondidas nem esquecidas

Também na sexta-feira (12), foi lançado pelo Instituto Marielle Franco um dossiê contendo uma linha do tempo da investigação e uma série de perguntas a respeito do caso que ainda não foram respondidas, segundo o Instituto e a Anistia Internacional. São elas:

  1. Quem mandou matar Marielle?
  2. Qual a motivação do mandante do crime?
  3. Por que ainda não se avançou na investigação sobre a autoria intelectual do crime?
  4. Qual é a ligação do responsável pela clonagem do carro com o crime e o grupo de milicianos ligado a Adriano Nóbrega e o Escritório do Crime?
  5. Qual é a conclusão das investigações sobre o extravio das munições e armas da Polícia Federal usadas no crime?
  6. Quem desligou, como e a mando de quem as câmeras de segurança do trajeto que Marielle e Anderson percorreram, já que os aparelhos não estavam funcionando?
  7. Por que não existe uma atuação coordenada das instâncias em níveis estadual e federal sobre a elucidação do caso de Marielle e Anderson?
  8. Por que até agora o Google não entregou os dados solicitados pelo MPRJ e a Polícia Civil para a investigação?
  9. Por que houve tantas trocas no comando da Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro, responsável pela investigação do caso Marielle?
  10. Houve tentativa de fraude nas investigações? Por quem?
  11. Foi aberto um inquérito pela Polícia Federal para apurar as interferências na investigação do caso. Por que em meio a estas investigações, o superintendente regional da Polícia Federal do Rio de Janeiro foi trocado?
  12. O presidente Jair Bolsonaro informou que Ronnie Lessa foi ouvido pela polícia federal sobre o caso do porteiro. Este interrogatório foi entregue ao Ministério Público e à Polícia Civil do Rio de Janeiro?
  13. Por que o governo brasileiro não forneceu todas as informações demandadas pelo Alto Comissariado de Direitos Humanos das Nações Unidas?
  14. Por que as recomendações da Comissão Externa realizada no âmbito do Congresso Nacional no ano de 2018 ainda não foram implementadas?

Marielle presente

Neste domingo (14), a parlamentar foi homenageada no Rio de Janeiro com a inauguração de uma placa em frente à Câmara Municipal. Seguindo o design das placas usadas nas vias e praças da cidade fluminense, o item conta com uma emocionante descrição de Marielle.

“Mulher negra, favelada, LGBT e defensora dos direitos humanos. Brutalmente assassinada em 14 de março de 2018 por lutar por uma sociedade mais justa.”

No local, estavam presentes a família da vereadora, o prefeito do Rio Eduardo Paes e o deputado federal Marcelo Freixo. Em entrevista à Rede Globo, Marinete Silva afirmou que está confiante com as investigações, principalmente com o início da força-tarefa do MP-RJ.

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