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Qual será o futuro das semanas de moda após a pandemia?

Com cada vez mais marcas deixando os grandes eventos para trabalhar em desfiles mais minimalistas, a indústria da moda terá de se reinventar

Por Maria Clara Serpa - 9 jun 2020, 03h00

“Quando a coleção estiver pronta”. Essa era a resposta que jornalistas e admiradores recebiam do estilista Azzedine Alaïa ao questionarem quando sua marca teria um novo desfile. O tunisiano era um dos grandes nomes da Semana de Moda de Paris e, mesmo assim, decidiu deixar o evento em 1992, por desacreditar nas produções megalomaníacas das semanas de moda e preferir seguir o seu ritmo de criação. Desde então, o calendário dos eventos e o jeito de fazer moda da atualidade vem sendo questionado por muitas grifes e designers. A discussão se intensificou ainda mais agora no período de pandemia, em que vários eventos tiveram de ser cancelados. Será que, apenas depois de uma situação de alarde mundial, a indústria da moda finalmente repensará sua realidade?

É importante frisar que é impossível prever o que vai acontecer com a moda depois do novo coronavírus. O mundo todo vai mudar, mas não sabemos exatamente de que maneira – pode ser que as semanas de moda sejam suspensas por enquanto, mas voltem ao normal depois de algum tempo, ou pode ser que os eventos mudem completamente –, então não podemos fazer um exercício de futurologia. Mas, fato é: os designers e grandes nomes da indústria fashion terão que mudar o modo de trabalho.

Quebra de padrões

De alguns anos para cá, a moda já vem tentando tornar-se mais “palpável” ao público em geral. Alguns padrões foram quebrados e cada vez mais marcas buscam diversidade e representatividade nas modelos – agora é mais comum ver mulheres “fora dos padrões” nas passarelas, ainda que não seja suficiente – e, em alguns países, como é o caso do Brasil, as coleções são desfiladas no esquema “ready-to-wear” (“pronto para usar”, ou seja, as peças desfiladas no verão são de verão) e não mais em estações trocadas, como ainda é comum em várias das semanas de moda européias. Além disso, os desfiles, que antes eram reservados apenas a grandes nomes  ou famosos, também recebem influenciadores de todos os tipos, aproximando um pouco mais o evento do público.

Modo de produção

Ainda que já tenham ocorrido algumas mudanças, o principal ainda não mudou: a forma de produzir. Geralmente, são realizadas duas grandes semanas de moda por ano, a de Primavera/Verão e a de Outono/Inverno, porém, também existem as coleções intermediárias, como Pre-Fall (pré-outono) e Resort/Cruise (que seria equivalente a um pré-verão). Isso significa que as marcas têm de produzir coleções inteiramente novas pelo menos quatro vezes por ano. Esse ritmo é frenético e insustentável a longo prazo.

Raf Simons, que deixou subitamente o cargo de diretor criativo da Dior em 2015 devido a um quase burnout pelo estresse do trabalho, também foi um grande apoiador da mudança na cadeia. “Quando você faz seis desfiles por ano não existe tempo suficiente para o processo todo. Fizemos a coleção de outono/inverno da Dior inteira em três semanas, é praticamente impossível. Conseguimos colocar em prática porque temos uma grande equipe, mas eu não tenho tempo para  exercitar a criatividade. Quando crio algo novo gosto de deixar aquilo de lado por pelo menos uma semana e depois voltar a pensar nisso, para “amadurecer” a ideia. É impossível fazer isso nesse ritmo”, afirmou Raf em entrevista ao Business of Fashion.

Raf Simons Andrew Toth/Getty Images

A busca incessante por novidades e por criar peças e coleções novas várias vezes por ano também tornou a indústria da moda o segundo setor da economia que mais consome água e responsável por quase 10% das emissões de gases do efeito estufa, mais do que a aviação e o transporte marítimo juntos, segundo dados da ONU Meio Ambiente. Especialmente as marcas de luxo, que desfilam nas semanas de moda e querem que seu produto continue sendo exclusivo a uma elite, são capazes de liberar nos oceanos cerca de 500 mil toneladas de microfibra por ano, além de perder cerca de US$ 500 bilhões ao ano com o descarte de roupas que não foram vendidas. Para essas grifes, é mais interessante esse descarte do que, por exemplo, diminuir o preço das peças para tentar ter menos sobras.

Este é um assunto que vem sendo cada vez mais discutido e as marcas cada vez mais questionadas sobre o impacto de sua produção no meio ambiente. A ideia de consumo consciente já é uma realidade especialmente entre alguns dos consumidores mais jovens, que também fizeram crescer o mercado de venda, aluguel e troca de peças de segunda mão. Fora do Brasil, os brechós já são sucesso há alguns anos, e estão começando agora  a crescer por aqui. Essa pressão também pode contar para uma revisão na maneira de fazer semanas de moda, já que se menos fosse produzido, menos seria poluído.

Mudanças durante a pandemia

Com as medidas de isolamento social, os desfiles e semanas de moda foram adiadas. Com esse “freio”, alguns designers começaram finalmente a repensar a moda. Liderados pelo belga Dries Van Noten, outras marcas importantes como Thom Browne, Nina Ricci e as lojas de departamento Selfridges e Nordstrom se reuniram através do Zoom e divulgaram uma carta aberta que pede que o mercado se realinhe e respeite as estações, além de ser mais prudente com as vendas especiais e promoções. O grupo sugere que a coleção de outono/inverno permaneça nas lojas de agosto a janeiro, e primavera/verão de fevereiro a julho, coincidindo com o início e término das estações. Já as datas das liquidações deveriam ser em janeiro e julho. O primeiro impacto dessa proposta afetaria promoções importantes como Black Friday, Cyber Monday, entre outras, que geram um grande fluxo de vendas para o varejo, porém, segundo o grupo, corroem as margens de lucro e o valor das marcas.

Dries Van Noten Victor VIRGILE/Getty Images

Apesar dos grandes nomes, as holdings Kering, que é dona da Gucci e Saint Laurent, e LVMH, da Louis Vuitton e Dior, não deram seu parecer sobre o documento. No Brasil, em maio, a Associação Brasileira dos Estilistas (Abest), em parceria com a SPFW, divulgou um protocolo para a adaptação do calendário da moda após a pandemia. Na nota, eles defendem a diminuição da quantidade de modelos em cada coleção, para consequentemente diminuir o desperdício, e que as coleções de verão passem a ser vendidas a partir de junho e as de inverno a partir de novembro. “As empresas colocam a coleção de inverno nas lojas antes do carnaval e fazem liquidação em julho, no pico do inverno. A liquidação de inverno deveria ser feita em agosto”, explicou Lourenço Bartholomei, presidente da Abest, em entrevista ao Yahoo.

Uso da tecnologia

Como a Ásia foi o continente onde o novo coronavírus surgiu, as semanas de moda locais logo tiveram que se adaptar à nova realidade, antes mesmo que isso passasse a ser uma questão no mundo ocidental. O primeiro evento a encontrar uma solução foi a Shanghai Fashion Week, que ainda em março foi realizada de maneira completamente online. Através da plataforma Tmall, qualquer pessoa poderia assistir aos desfiles ao vivo e, logo após a transmissão, adquirir as peças que quisesse e recebê-las em poucos dias em casa. O alcance nesse formato foi muito maior, e mais de 2,5 milhões de pessoas assistiram aos desfiles e 800 mil fizeram compras no e-commerce.

Desfile online da marca Pinko na Shanghai Fashion Week, em março Pinko/Divulgação

Seguindo o exemplo, a London Fashion Week foi a semana seguinte a decidir transformar-se em digital. Também buscando a democratização da moda, a organização manteve a data original do evento, que começará no próximo dia 12. Na plataforma criada especialmente para a LFW, qualquer pessoa poderá acompanhar os desfiles masculinos e femininos, showroom das peças, entrevistas com grandes nomes estilistas, além de podcasts sobre moda. A única diferença comparada a Shanghai será que os únicos que poderão comprar as peças na hora serão grandes lojas. “Estamos adaptando a inovação digital para melhor atender às nossas necessidades e para construir uma vitrine global para o futuro. Os estilistas poderão compartilhar suas histórias e coleções com uma comunidade global mais ampla. Esperamos que, além de perspectivas pessoais sobre este momento difícil, haja inspiração em abundância. É por esse motivo que a moda britânica é reconhecida”, declarou Caroline Rush, CEO do conselho de moda britânico, à plataforma WWD.

Em fevereiro, quando a pandemia já estava chegando ao ocidente, as semanas de moda de Paris e Milão aconteceram, mas sofreram alterações. Na época, o próprio Giorgio Armani pediu para que as pessoas não comparecessem ao seu desfile, por mais que já estivesse tudo pronto. Em um primeiro momento, as organizações das duas semanas de moda se recusaram a alterar ou cancelar as datas dos próximos eventos, como a Semana de Alta Costura e a Semana de Moda Masculina de Paris. Neste mesmo período, a Saint Laurent decidiu deixar a Paris Fashion Week e a Gucci a Milan Fashion Week. Em nota, Saint Laurent disse que “assumirá o controle de seu calendário e lançará suas coleções de acordo com uma perspectiva atualizada e impulsionada apenas pela criatividade. Daremos valor ao tempo e nos aproximaremos das pessoas em seus próprios espaços e vidas”.

No final do último mês, a organização dos dois eventos franceses e do italiano cederam a pressão e anunciaram suas versões online que ocorrerão em julho, ainda que sem alguns dos grandes nomes já veteranos dos desfiles, como Jean Paul Gaultier e Balenciaga.

Desfile de outono/inverno da Gucci em sua última semana de moda de Milão, em fevereiro Estrop/Getty Images

“A Milano Fashion Week Digital será um pouco diferente da semana de moda normal, foi criada especialmente para o mundo digital. Estilistas que quiserem apresentar coleções de primavera/verão ou resort masculinas e femininas. A vantagem é que o mundo online permite que cada um decida como quer fazer isso, todos serão completamente livres para pensar em maneiras de apresentar a coleção. As marcas terão entre 1 e 15 minutos para tal – algumas já optaram por desfiles virtuais, iguais aos convencionais, como Ermenegildo Zegna, e outros desenvolverão curtas-metragens ou sessões de foto à distância”, explicou Carlo Capasa, presidente da Camera della Moda, organizadora do evento, à Vogue norte-americana.

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Experiência

Será que experiência online seria capaz de captar o mesmo que um desfile presencial? Essa é a pergunta que muitos especialistas se fazem sobre uma possível mudança completa das semanas de moda para o online. A verdade é que as Fashion Weeks são muito mais do que só desfiles. Além dos shows em si, há almoços, jantares, visitas a showrooms, backstages, entre outras coisas. O networking que geralmente é feito nos eventos também seria prejudicado.

Também há pessoas que defendem que assistir pela tela de um computador não permitirá que os detalhes e tecidos das peças sejam vistos tão bem como é possível em uma passarela. Para Olivier Rousteing, diretor criativo da Balmain e um dos grandes defensores da mudança nas semanas de moda, isso não seria um problema. “Não vejo o digital como menos emocional, mas como uma experiência em que você pode levar seus sonhos ao próximo nível”, afirmou em entrevista ao WWD.

Último desfile da Saint Laurent na PFW, em fevereiro Victor VIRGILE/Getty Images

Outro ponto levantado por estilistas que defendem a importância das semanas de moda “físicas”, é que esse tipo de evento tomou proporções muito maiores e, atualmente, envolve muitos outros tipos de emprego além deles mesmos e as modelos. Há também pessoas que trabalham como freelancer de stylist, produtora ou costureira, além de fotógrafos de streetstyle, que percorrem as ruas das cidades em busca de fotos de looks. Caso os eventos fossem descontinuados, essas pessoas perderiam parte de sua renda e seriam prejudicadas. Por isso, independentemente da decisão que seja tomada, ela tem que ser muito pensada para conseguir também englobar estas outras categorias de trabalhadores.

Crise

Outro ponto que pode ser crucial para a decisão de mudar os esquemas das semanas de moda é o preço que custa para desenvolver um desfile. Na última década, os desfiles deixaram de ser algo “comum” e muitas marcas passaram a investir em verdadeiras megaproduções, em locações diferentes e com efeitos especiais. Isso custa muito dinheiro e, em um momento de crise como o que estamos passando e continuaremos após a pandemia, talvez não seja a melhor opção.

A crise também fará com que as marcas vendam menos e, consequentemente lucrem menos, o que tornará ainda mais difícil a criação dessas produções enormes, além das várias coleções por ano. Por isso, especialistas acreditam que a tendência é que os designers produzam menos – em quantidade de peças e em vezes por ano – e que os desfiles sejam mais espaçados e intimistas. Outros acreditam que abrir os showrooms para mostrar as peças pode ser uma saída mais barata, além, é claro, do uso da tecnologia.

É inegável que a moda é um retrato de da realidade do mundo em um determinado período, por isso, é quase certeiro de que as maneiras de consumir mudem depois do fim da pandemia. Dados da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico dão conta de que houve um aumento de 40% no número de pessoas que fizeram compras online em março deste ano quando comparado ao ano passado e, ao que tudo indica, isso deve continuar. O e-commerce, antes restrito às lojas de departamento, agora também abrange grandes grifes de luxo, o que as torna ligeiramente mais palpáveis a uma parcela um pouco maior da população.

O que esperar do futuro

Depois de uma era em que os blogs de moda estreitaram a relação da indústria com os consumires, chegou o Instagram, que manteve essa proximidade. Assim, a ideia de viagens longas para acompanhar desfiles começou a soar um pouco ultrapassada para parte dos trabalhadores do meio. Em uma visita ao Brasil no ano passado, Olivier Rousteing, da Balmain, criou o formato dos desfiles atualmente. Em entrevista para a VEJA, ele disse: “Vejo os desfiles como shows de rock, e talvez uma fórmula seja passar de 500 para 10.000 convidados, e quem sabe fazer uma turnê mundial, em várias capitais. O impacto seria muito maior”. Apesar de parecer uma boa ideia conseguir transformar os desfiles em eventos com maior alcance, para marcas com menos caixa isso é quase impossível, por isso, acredita-se que a tendência será diminuir ainda mais as proporções dos eventos ou transformá-los em online.

A SPFW que ocorreria em abril, pretendia trazer mudanças para o mundo da moda brasileiro. Ao invés de duas grandes edições no ano, o evento se transformaria em um festival que aconteceria durante o ano todo em vários bairros da cidade e São Paulo, inclusive na periferia. Além dos desfiles, haveria debates, discussões e entrevistas ao vivo, um pouco aos moldes do que buscam as semanas européias online.

Por outro lado, existem grandes nomes que continuam acreditando na maneira de produzir tradicional da moda e isso pode pesar na hora de fazer mudanças mais bruscas para a indústria. Nesta segunda-feira (8), a Chanel lançou sua coleção cruise Balade en Méditerranée online, com vídeos nas redes sociais. O desfile estava marcado para ocorrer há algumas semanas em Capri, na Itália. Apesar de aderirem ao formato, em entrevista ao WWD, o presidente de empresa, Bruno Pavlovsky afirmou que a Chanel pretende voltar a seu antigo formato de desfiles e muitas coleções por ano assim que a pandemia passar. O grande número de produções anuais era defendido também por Karl Lagerfeld, que ficou mais de 30 anos no comando da marca e chegou a produzir até 10 coleções por ano.

“Preferimos ter seis coleções mais focadas, como sempre fizemos, do que duas coleções maiores. Escolhemos esse ritmo e gostamos dele, acredito que é o que nossos consumidores querem ver nas lojas. Então, iremos manter esse planejamento e, em paralelo, os desfiles continuam sendo a melhor maneira de expressar a criatividade da marca”, explicou. A grife francesa espera voltar aos eventos presenciais em outubro e fazer um último desfile no Grand Palais, em Paris, que, depois disso, começará uma grande reforma para os Jogos Olímpicos de 2024.

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‘Balade en Méditerranée’ — the CHANEL Cruise 2020/21 collection imagined by Virginie Viard. Discover the collection on chanel.com Available in boutiques from November. Captured by Julien Pujol. #CHANELCruise #CHANEL @MaisonDesrues #Desrues @Maison_Lemarie #MaisonLemarie @Lesage #Lesage @Julienxxnxx @Arca1000000 @CamHrl @Karlyloyce @CrisHerrmann @Micarganaraz

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É difícil definir o que irá acontecer com a moda daqui em diante, especialmente com muitas das grandes marcas que continuam a defender o ritmo frenético da indústria, mas com certeza haverá grandes mudanças. Acredita-se a princípio que a quantidade de coleções anuais será reduzida, seja devido à poluição e também à saúde mental de quem trabalha com isso. Enquanto não há respostas certas para tantas questões, alguns designers já começam a trabalhar em exibições especiais online. No início de maio, nomes como Maria Grazia Chiuri, Simon Porte Jacquemus e Olivier Rousteing, se uniram a personalidades como Kim Kardashian, Hailey Bieber e Winnie Harlow para um grande desfile virtual organizado pelo amFAR, com o intuito de reunir fundo para pesquisas relacionadas à pandemia.

Em tempos de isolamento, não se cobre tanto a ser produtiva:

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