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Não é só física! A gravidade de todas as violências à mulher

Neste Dia Nacional da Luta Contra a violência à Mulher, o Movimento Luz Azul alerta a sociedade para as agressões verbais e psicológicas

Por Ana Carolina Pinheiro - Atualizado em 9 out 2020, 23h59 - Publicado em 10 out 2020, 12h00

Quando a poeta Luz Ribeiro construiu seus primeiros poemas, ainda na escola, as palavras não encontraram um leitor, mas sim o fogo. As folhas eram queimadas por falta de acolhimento, interno e externo, vulnerabilidade presente em histórias de vítima de violência contra a mulher, que tem este sábado (10) como dia nacional de combate.

“Não conseguia dar nome às coisas que sentia. Talvez, se percebesse que tinha alguém interessado na minha história e palavras, não faria isso. Esse silenciamento também é visto na violência doméstica, que surge como uma agressão psicológica normalmente, abala nossa estrutura e chega ao ponto em que enxergamos o opressor como a melhor pessoa e ninguém vai nos querer”, relata a artista, que já foi vítima de violência doméstica.

O Observatório da Mulher Contra a Violência revela que, se perguntadas frequentemente, o número de mulheres vítimas de violência chega a ser cinco vezes maior do que o registrado. A dificuldade de reconhecer uma agressão verbal e psicológica explicam esse dado.

Para mostrar a gravidade desses abusos nem sempre explícitos, a consultoria Think Eva, a agência AKQA Casa, a produtora Stink Films, o artista Pegge, a poeta Luz Ribeiro e as ONGs Casa Vivi e Casa Anastácia criaram Movimento Luz Azul.

Além de produzir conteúdo sobre a amplitude da violência doméstica, o projeto também articula campanhas de arrecadação para fornecer rede de apoio às vítimas, auxílio que foi essencial para a gestora ambiental Bianca Silva se livrar de um relacionamento abusivo de 2 anos.

Assim como no filme lançado pelo Movimento Luz Azul, em que Luz Ribeiro narra falas opressivas ditas as vítimas de violência diariamente, Bianca também sofreu com as agressões verbais e psicológicas.

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“Tudo o que eu fazia estava errado, a minha postura, com quem eu falava, como me vestia. Se usava determinada roupa, era de puta. Sentia que vivia em uma ilha, porque não tinha mais ninguém, só poderia ter ele”, revela a vítima, que chegou a ser proibida de cumprimentar o próprio sogro com beijo no rosto.

Em dois minutos e quinze segundos, o curta, disponível abaixo, condensa o impacto suficientes dessas agressões para quebrar ciclos de violência. Acostumada com o tempo apertado das batalhas de slam, Luz diz: “A poesia tem um poder de síntese, necessário para a urgência do tema. Tenho que ser assertiva e me fazer entender. Se esse vídeo chegar em uma pessoa, que se sinta incentivada a buscar ajuda, já vai valer a pena”, pontua.

Para a poeta, nos falta aprendizado de como viver em sociedade e cuidar das vítimas. “Não deveria ser uma obrigação solitária de quem identifica uma pessoa sofrendo violência, mas sim uma estratégia coletiva de enfrentamento. Quando participo de uma ação como essa, mesmo sem viver a agressão no momento, é uma forma de chamar a responsabilidade para todos”, considera Luz.

O apoio de amigos não surtiu efeito de cara para Bianca colocar fim no relacionamento, mas eles fizeram parte do seu processo de entendimento. “Um dia tive um estalo e vi que não precisava passar por isso. Querendo ou não, você cria uma dependência e se submete a ficar nela. Quando percebi que não dependia dele do que acreditava ser afeto, me livrei da violência doméstica”, diz.

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