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Renata Vasconcellos:“Na pandemia, parei e me perguntei o que me faz feliz”

Para aguentar o aumento da carga no trabalho, ela se apegou aos pequenos gestos de afeto, além de mergulhar num processo de autoconhecimento profundo

Por Isabella D'Ercole Atualizado em 21 jun 2021, 12h09 - Publicado em 18 jun 2021, 09h00
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belo é aquilo que causa prazer, admiração, encantamento. Tomo a liberdade de simplificar (e muito!) as palavras do filósofo alemão Immanuel Kant para começar esse texto sobre Renata Vasconcellos, já que a jornalista é seguidora ávida da teoria.

Em seus dias, precisa do belo para se revigorar; é o belo que alimenta sua energia de renovação. Não é difícil para ela encontrá-lo. O belo está nas flores que coloca em vasos pela casa – “Dá um trabalho danado, porque tem que trocar a água, cortar o caule, mas me faz bem”, conta –, nos seus pés pisando a grama e a terra de sua casa de campo, no Rio de Janeiro, no olhar dos seus cachorros e fiéis escudeiros, e até na cerâmica em que serve um pedaço de bolo saboreado com café.

“A cultura e a arte têm esse poder, mas também as pequenas coisas”, fala ela, que tem se aventurado por filosofias para o autoconhecimento e não recusa um bom livro. É verdade que desde março do ano passado, quando a cobertura da pandemia pelo Jornal Nacional se intensificou, o tempo da apresentadora para o belo tem sido mais curto, mas nem por isso Renata abre mão de encaixá-lo no cotidiano.

Renata Vasconcellos
Em sua casa, no interior do Rio de Janeiro, Renata mantém uma horta, fica perto de seus cães e entra em contato com a natureza. Sempre que tem uma folga do trabalho, é esse o destino. É um verdadeiro refúgio. De lá, ela foi fotografada remotamente Leca Novo/CLAUDIA

“O que me faz ficar perdida é a correria do dia a dia, que não permite essa conexão. Fico sem chão”, diz a jornalista de 49 anos, apreciadora do silêncio e da calmaria. Para aguentar a intensidade do trabalho e das notícias que passou a dar, tornou prioridade a meditação e a ioga. Sempre que pode, para tudo e faz exercícios de respiração.

“A gente respira muito mal. Vira algo automático e, quando você toma consciência, se transforma numa ferramenta fundamental para conectar você com coisas incríveis, para promover relaxamento e autopercepção. É uma viagem maravilhosa de se fazer”, acrescenta.

Renata Vasconcellos
Leca Novo/CLAUDIA

Por ora, eu e Renata convidamos você para outro refúgio, nas palavras da conversa a seguir, em que ela se permite ir mais a fundo nos seus pensamentos e revela partes da mulher que não está na TV; e, através das fotos, para o campo fluminense, onde capturamos remotamente seus momentos de descanso e contato com a natureza.

Há mais de um ano, com o país em quarentenas esporádicas, você é a pessoa que entra na casa dos brasileiros toda noite para dar as notícias da situação dura que vivemos. De alguma forma, é um alívio ver você ali, é um dos pontos seguros, das coisas que não mudaram. Ao mesmo tempo, você não teve home office e ainda lida diariamente com a tragédia das vidas perdidas. Como foi esse processo para você?

Na verdade, nossa rotina se intensificou, com mais plantões de fim de semana e feriados. Além da carga maior, tem o peso da situação, que é difícil, dramática. A gente pega força na responsabilidade do nosso trabalho. A proposta é justamente essa que você mencionou, de sermos um porto seguro em mares revoltos. Claro que tenho medo, dificuldade, apreensões, mas penso no meu propósito como jornalista.

Renata Vasconcellos
Leca Novo/CLAUDIA

Você não segura a emoção na bancada. Essa humanização é também um acolhimento…

Eu me emociono mesmo, porque me afeta visceralmente. Tenho muita empatia pelo próximo e vejo o sentimento das famílias desfeitas, o sofrimento. Com a pandemia, não tem só o vírus, mas a fome. Eu tento me segurar para que a informação seja passada, mas a emoção é inerente ao ser humano. E é bom sentir, se solidarizar, não só nos momentos agudos de tristeza, mas nas histórias de alegria que mostramos. Ao ver alguém passando por uma coisa boa, ficamos com esperança e aí a emoção transborda.

Em algum momento você desmoronou?

Eu estou aqui, de pé. O Bonner me perguntou uma vez: ‘Você está cansada?’. Eu respondi: ‘Sim, mas atenta e vigilante’. Tem muitas emoções juntas e eu reconheço todas elas. Ansiedade, insegurança, medo, desconsolo. Às vezes, acho que não vou conseguir, mas aí me concentro no momento. O que eu preciso fazer agora para dar conta disso? Um dia de cada vez.

“Estamos percebendo que a aceleração do dia a dia não faz sentido. Parei para me perguntar o que me faz feliz”

 

Renata Vasconcellos
Leca Novo/CLAUDIA

Você faz algum tipo de terapia para ajudar?

Eu fazia terapia e passei pro virtual no começo da pandemia, mas não consegui me acostumar, não era a mesma coisa e eu ainda estava assoberbada de trabalho. Porém, é fundamental, preciso voltar. Acho importante dizer que todos estamos nos sentindo ansiosos, inseguros e tristes. Eu também sinto essa vulnerabilidade. Como sociedade, precisamos falar mais sobre isso, e entender que tudo bem pedir ajuda. Especialmente para as mulheres, que têm sido tão fortes, eu digo: vocês não estão sozinhas.

Renata Vasconcellos
Leca Novo/CLAUDIA

A rotina mudou muito no último ano. O que você mais sentiu de impacto?

Foi uma chacoalhada tão grande em tantos aspectos da vida, acho que não tem como não passar sem nenhuma mudança. Eu me vi questionando muitas coisas que estavam no automático, me cobrando um consumo mais consciente. Eu me pergunto se realmente preciso comprar aquilo e qual o impacto no meio ambiente. Estamos percebendo que a aceleração do dia a dia, essa obrigação de cumprir tarefas, de tentar atender às expectativas dos outros para sermos perfeitas, não faz sentido. Por que tentamos cumprir com uma lista que nem fomos nós que criamos? Parei para me perguntar o que realmente me faz feliz. Isso gera um processo de autoconhecimento. Tenho buscado também olhar mais para o outro, estar presente, mesmo que isso signifique abrir mão de outras coisas. Estou focada na essência das pessoas, em compartilhar energia boa. É isso que nos faz sentir vivos. Quero cultivar, cada vez mais, a delicadeza com o outro. As emoções exacerbadas são um fenômeno do nosso momento civilizatório e das redes. Falamos coisas sem pensar no outro e sem ouvir. Quero refletir sobre isso e mostrar que estou disposta a escutar e tentar entender sem bater de frente de primeira.

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“Eu gosto do conceito do belo e penso que não devemos abrir mão dele. É uma riqueza que precisa ser cultivada”

 

Você compartilhou durante a pandemia uma reflexão em relação à sua aparência, postou uma foto no Instagram e exaltou os fios brancos na legenda. Você já defendeu que as mulheres da TV pudessem envelhecer em paz muitas vezes. Como é sua relação com sua aparência e com a idade?

Eu acredito que alcançar a aceitação e o acolhimento é um processo que dura a vida toda. Mas, para mim, vai além. Acho que o bem-estar reflete na aparência, isso de estar feliz, de estar em dia com a saúde física e mental, transparece. Não renego nem tenho aversão aos padrões da sociedade. Acho que é interessante olhar para eles e entender como refletem o momento histórico. Agora, entramos numa fase de mais aceitação, graças a Deus, porque a gente não é único. Gosto de perceber os códigos e brincar com eles, pensar no que eu quero ser a cada dia, manter meu olhar curioso, minha aceitação aberta, me surpreender com o jeito que uma mulher pinta ou corta o cabelo, com uma tatuagem, achar legal ela se expressar assim. Quanto mais a gente aceita a nós mesmas, mais acolhe o outro. Os jovens já fazem isso muito bem, eles não se prendem a arquétipos, se apresentam cada dia de um jeito, conforme o que estão sentindo. Colabora pra gente também se desfazer das amarras.

“Quanto mais a gente aceita a nós mesmas, mais acolhe o outro. Os jovens já fazem isso muito bem”

 

Os padrões podem ser verdadeiros vilões para muitas mulheres. Como chegou nesse pensamento de estar em paz com isso?

Não é um processo simples, é angustiante, doloroso. Mas o autoconhecimento me faz questionar por que estou sofrendo com alguma coisa. Vou dar um exemplo: eu sempre enxerguei superbem, olhos de águia. Em um determinado momento, precisei de óculos para leitura. Depois, resolvi levar para a bancada, caso precisasse olhar um computador mais próximo. Tirava na hora de apresentar. Aí, comecei a me sentir mais segura com os óculos o tempo todo. Para que vou ficar insegura ou ansiosa se existe uma ferramenta que resolve meu problema? ‘Ah, mas ninguém da bancada do JN já usou óculos’. Bom, então vai ser a primeira vez. E rolou. Com os cabelos brancos foi algo parecido. Nada contra pintar, acho ótimo, mas tem dias que não dá, estou com pressa ou acho que é melhor fazer ioga e cuidar da cabeça.

Renata Vasconcellos
Leca Novo/CLAUDIA

No que mais o processo de autoconhecimento ajudou você?

Gosto de entrar em contato com questões pessoais sem julgamentos. Além de me fazer bem, me deixa relaxada. O que me faz ficar perdida é a correria do dia a dia, que não permite essa conexão. Fico sem chão. Preciso saber o propósito de uma ação e para onde estou indo com ela. Às vezes, penso até demais, admito. Mas é importante se fazer perguntas, porque auxilia na criação de uma consciência individual e coletiva. Estamos num momento de transformação grande e é bom entender o que estamos passando.

“Todos estamos nos sentindo ansiosos, inseguros e tristes. Como sociedade, precisamos falar mais sobre isso”

 

Com a rotina mais corrida, quais são seus bálsamos?

Gosto muito da ideia de me cercar de beleza, um conceito que é tão plural e importante para o ser humano. A arte e a cultura são ferramentas lindas para a gente transcender, superar dificuldades, se emocionar, viver e sobreviver. Eu gosto do conceito de belo e penso que não devemos abrir mão dele. É uma riqueza que precisa ser cultivada. O belo, para mim, pode ser ter tempo para tomar café da manhã com calma, saborear, olhar a cerâmica bonita que estou usando e pensar no caminho que ela percorreu até ali. Ela tem um rachadinho e isso fala da trajetória dela. Cuidar de mim, hidratar as minhas mãos ressecadas do álcool em gel é outra beleza. E tem coisas que dá pra abrir mão, aquilo que não produz a sensação do conforto, que é vazio ou até caro demais, que toma muito do seu tempo. Se você se conhece, sabe o que é essencial para você.

Renata Vasconcellos
Leca Novo/CLAUDIA

Como você cultiva o belo na sua vida?

Eu estava fazendo cerâmica, mas tive que parar, porque estou trabalhando mais. Nesse momento, me priorizo tirando tempo para meditação e ioga, que me ajudam muito, me permitem o encontro com as minhas energias e o mundo. Também tenho aprendido exercícios de respiração, porque a gente respira muito mal. Vira algo automático e, quando você toma consciência, se transforma numa ferramenta fundamental para conectar você com coisas incríveis, para promover relaxamento e autopercepção. É uma viagem maravilhosa de se fazer. Gosto também de ler, de ficar em contato com a natureza, de ficar com o pé no chão, do silêncio. Gosto de ficar em casa, do simbolismo de ser um porto seguro, um ninho. Tento cultivar isso fazendo uma comida conforto, como um bolinho com café. Sempre que posso, coloco uma flor num vaso. Dá um trabalho danado, porque tem que trocar a água, cortar o caule, mas me faz bem. Fico encantada com a efemeridade das flores. Hoje, ela está bonita e amanhã pode não estar. Mas agora ela está aqui pra você, com essas cores, abriu para você. É uma troca legal.

Já li que você adora arrumar um armário ou uma gaveta…

Estou com pouco tempo, mas sempre haverá um armário para arrumar (risos). Vejo como um exercício de autoconhecimento mexer na casa, criar esse ambiente aconchegante, mudar as coisas de lugar, me traz memórias. Sou uma pessoa que nota os detalhes, como colocar um papel colorido, cheiroso, comprado num brechó ou que ganhei de presente de uma amiga, para enfeitar um canto. São pequenos símbolos de afeto. É o prazer na beleza, enxergar a poesia das coisas, cultivar o belo.

Renata Vasconcellos com cachorro
Leca Novo/CLAUDIA
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