Marjorie Estiano revela bastidores de cena épica em Sob Pressão

A atriz falou a CLAUDIA sobre como se preparou para viver a médica Carolina e conta que só viu o episódio quando foi ao ar

Quem acompanhou o episódio de Sob Pressão exibido na última quarta (26) foi arrebatado pela grande atuação de Marjorie Estiano na pele da médica Carolina. Em um longo plano sequência, a profissional ficou no meio do fogo cruzado entre policiais e traficantes em pleno hospital público. Grávida, ela tentava encontrar um plasma sanguíneo para salvar um homem ferido, mas acabou se chocando contra uma maca.

Foi fascinante a capacidade da artista de encarnar sensações. O terror mesclado à angústia e ao sofrimento pela possível perda de seu bebê eram sentidos pelo telespectador, que se punha a imaginar o que se passava na cabeça de Carolina naqueles momentos de tensão extrema.

Que grande presente Marjorie deu ao público. Não à toa, virou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. Não faltaram elogios e aclamações ao trabalho da atriz de 37 anos que ficou conhecida nacionalmente após viver a rebelde Natasha de Malhação. Do longínquo ano de 2004 para cá, ela se firmou como uma das melhores atrizes de sua geração.

 (Reprodução/Twitter)

Na entrevista abaixo, Marjorie fala sobre como foram os bastidores da gravação e sua preparação para viver a personagem. E não se omite: para ela, a excelente recepção do público à série se dá por causa da identificação das pessoas com a ausência do Estado. O personagem é o próprio espectador.

Sob Pressão está sendo bastante elogiada pela imprensa e pelo público. O último episódio [exibido no dia 26 de junho] foi especialmente enaltecido pela sua atuação. Como você recebeu esses elogios? 

Ficamos muito orgulhos. Filmar em plano sequência já é uma empreitada difícil para uma história simples, mas para aquele episódio de Sob Pressão era quase impossível. Havia muita gente, muitos efeitos, tiro, sangue, cirurgia, e por isso muita chance de alguma coisa dar errado. Mas não seria a mesma coisa se não tivesse sido feito dessa forma. A história já era extremamente forte e os planos ampliaram ainda mais essa tensão.

Foi muito emocionante. Fiquei muito feliz e a resposta do público foi linda. Todos estavam muito envolvidos e emocionados. Fui dormir muito grata pela honra de fazer parte dessa equipe sensacional. Eles são inacreditáveis. Ter dado certo foi a prova final da definição de equipe.

Na cena, impressionou o longo plano sequência e a sucessão de acontecimentos tensos vivenciados pela sua personagem. Como foram os bastidores?    

Estávamos nervosos, excitados. Havia muita informação para apreender em muito pouco tempo. Em um plano sequência, se você comete algum erro, perde-se o plano inteiro. Ao mesmo tempo, foi muito especial porque ficamos em um estado de maior conexão com o todo. A sintonia foi fundamental, quando finalizávamos cada plano era uma comoção grande. Fiquei especialmente nervosa porque eu estava doente naquele dia e o plano sequência coloca a responsabilidade do todo na mão de cada um. Não vi nada até ir ao ar. Assisti junto com todo mundo e fiquei muito emocionada com o resultado.

marjorie estiano

 (Divulgação/Rede Globo)

Como você se preparou para viver a médica Carolina na série?   

O meu processo de construção das personagens é o resultado de uma composição de vários elementos. Tem algo comum e também as particularidades de cada processo, de acordo com cada personagem e obra. O roteiro é a base, mas o processo de pesquisa varia. Muitas vezes se vale de imagens, pinturas, fotografias, esculturas, exercícios práticos de investigação, discussão…

Tem uma parte intelectual e uma parte física. Muitas coisas são entendidas através da experiência e ocupam um espaço muito próprio e sensorial. O corpo entende de uma forma diferente da palavra e é assim com todos os sentidos que pertencem a ele, que somados formam um novo registro de códigos que contribuem para o entendimento e composição da personagem.

Uma pesquisa voltada para os pontos essenciais, no caso da Carolina, inclui a profissão, como encara a profissão, os conflitos, desejos, história familiar, entre vários pontos que formam a maneira com que a personagem vê e se coloca no mundo.

O que a doutora Carolina te ensinou? 

O Sob Pressão me inspirou a ter uma nova perspectiva e tenho certeza que algo em mim mudou permanentemente. Sei que inspirações têm um ciclo e é natural que a demanda da rotina acabe burocratizando um pouco esse olhar. É um trabalho meu não deixar isso acontecer, ou resgatar a motivação sempre que preciso. Acho que Sob Pressão também foi me mostrando isso, que qualquer hora é hora e que isso não precisa ser idealizado. A gente não tem clareza sobre o efeito que um gesto pode ter na vida daquela pessoa naquele momento. Podemos oferecer algo muito simples para alguém em qualquer situação. É de fato uma sugestão de uma perspectiva, de um olhar mais participativo que pode ser integrado a nós e carregado para qualquer momento.

No Brasil de hoje, o termo “feminismo” acabou ganhando sentido pejorativo para algumas pessoas. Você considera Carolina uma mulher feminista? E você, é uma feminista? Por quê?

Ser feminista é um movimento fundamental para homens e mulheres interessados em uma sociedade rica e justa. Feminismo é um dos temas que felizmente ganharam mais espaço, mais atenção nos últimos anos, mundialmente. Como a difusão de informações hoje é muito mais ampla e rápida, o impulso para agregar pessoas que compartilhem de um mesmo ideal e para ajudar a caminhar em frente é mais forte. Porém ainda é preciso explicar didaticamente o que significa feminismo. Já ouvi de pessoas com acesso à informação que machismo e feminismo são a mesma coisa com gênero inverso. Grande parte da população ainda não entende do que se trata e rejeita por ignorância.

Eu me considero feminista, muito embora vivamos de maneira tão enraizada no comportamento e vocabulário em uma sociedade machista. Eu mesma me surpreendo tendo reflexos de uma mentalidade machista. O movimento feminista é pra esclarecer e conscientizar a todos, encorajar, trazer acolhimento, amparo legal, segurança… Eu participo de diferentes formas: divulgo, converso, me imponho, assino, vou a manifestações, mas sobretudo, no meu dia a dia, sempre me coloco e me analiso. No meu trabalho, na minha vida pessoal, no meu entorno, aonde eu puder alcançar.

Acho que posso dizer que Carolina está nesse mesmo grupo, sim.  É uma mulher independente, uma cirurgiã, lidera uma equipe, mas se avalia capaz de exercer qualquer função. Reflete sobre o desejo ou não de ter um filho… não toma pra si nenhuma verdade absoluta, nem interna muito menos externa. Nenhuma imposição de aspecto algum.

Entendo o feminismo como um ideal muito mais simples do que parece, é uma reivindicação de igualdade e liberdade. Entender não é difícil, transformar é trabalhoso, mas possível e necessário.

É difícil se despir de Carolina depois que as gravações acabam?

Foi difícil me distanciar da Carolina. Acho que eu me perdi um pouco no caminho de volta. Não sei a que se deve isso. Talvez pelo conteúdo pesado da série e pelo tempo contínuo em que filmamos. O tempo de filmagem de um longa normalmente gira em torno de três meses, mas fizemos duas temporadas seguidas de Sob Pressão em 2018 e filmamos praticamente o ano inteiro. Pode ter sido um conjunto de elementos. Nosso material de trabalho é essencialmente nos utilizar das nossas emoções, dos nossos sentimentos, para uma outra pessoa, e viver a vida dela durante determinado período de tempo. Fazer o seu corpo e a sua alma aceitar um horário comercial nem sempre é possível. Você faz o seu corpo acreditar que é verdade e, se tudo der certo, ele acredita. Normalmente, dormir me restabelecia, fazer exercício físico, ouvir música, ou qualquer coisa que me relaxasse. Descobrir uma maneira de estabelecer essa separação é parte integrante do trabalho, mas por alguma razão os métodos que eu utilizava antes não funcionaram dessa vez. Só consegui me distanciar mesmo depois de um tempo sem filmar.

Ambientada em um hospital público inserido no contexto das favelas cariocas, a série não deixa de tocar em problemas sociais do país. Qual ou quais são as críticas mais latentes que você enxerga na produção?

A ausência do Estado. Acho que o Estado concentra a responsabilidade do que vemos no hospital. Sob Pressão se passa no Rio de Janeiro, mas poderia ser em qualquer lugar do Brasil. A série mostra a falta de tudo o que o Estado tem por obrigação administrar e oferecer ao cidadão, na educação, na segurança, na economia e etc. E acho que a identificação do público vem por esse caminho também, do espectador se reconhecer personagem, e se perceber visto. Por mais que o que se mostre seja terrível, traz acolhimento.

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