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Recado aos pais: a educação antirracista é urgente

Para educar as crianças, precisamos primeiro fazer uma autocrítica como pais e educadores. O processo exige dedicação e não é possível começar aos poucos

Por Isabella D'Ercole Atualizado em 21 jul 2020, 00h47 - Publicado em 17 jul 2020, 12h00

Falar de crianças é pensar em futuro, possibilidades e transformação. Nelas depositamos esperanças de dias melhores. Mas, para que isso aconteça, precisamos primeiro fazer uma autocrítica como pais e educadores. O processo exige dedicação e não é possível começar aos poucos. Afinal, a luta contra o racismo é urgente

 

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Criar um filho é, de certa forma, fazer política. É atuar, mesmo que dentro de um pequeno círculo, para construir uma sociedade com a qual você concorda. Pais e mães sabem que o processo exige revisão pessoal constante – e inclui dúvidas, incertezas, muitas noites maldormidas. Quando falamos sobre oferecer educação antirracista, a reflexão é essencial e profunda. Já de imediato, é necessário elucidar algo: “Criou-se um estereótipo de que o racista é aquele que aparece xingando e humilhando. Portanto, poucas pessoas enxergam suas atitudes racistas no cotidiano. Um dos grandes problemas do combate ao preconceito é a negação dele”, explica Deh Bastos, publicitária e cofundadora do projeto Criando Crianças Pretas (@criandocriancaspretas). Esse confronto com nós mesmas vai nos levar a encontrar atitudes de exclusão ou de não colaboração pela igualdade. Pode não ser algo proposital, mas é incutido socialmente no subconsciente; é estrutural, fincado em nossos hábitos e instituições. “As crianças não aprendem a escovar os dentes só porque os pais ensinam, mas porque elas veem o exemplo em casa e criam o costume”, diz Deh. “A consciência dói, mas ela é um caminho sem volta. Uma vez que você enxerga as falhas da comunidade e as suas, terá um olhar mais atento para as desigualdades. É normal experimentar múltiplas e confusas sensações; só não se permita retroceder”, aconselha. Enquanto esse trabalho interno acontece, é fundamental pensar em como ele pode impactar o externo, instâncias públicas e privadas, ambientes que sua família frequenta e também os mais distantes. É a pequena transformação que se expande e tem grande efeito. As ações propostas aqui são apenas o começo de uma longa luta, que precisa de cada vez mais adeptos.

 

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Olhe ao redor

 

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Os ambientes que seu filho frequenta são diversos? “Observe se a criança só se relaciona com pessoas negras que estão em situação de servi-la, como empregadas e garçons. Isso faz com que o pequeno estabeleça uma conexão entre a cor da pele e essas posições. É essencial que ele veja o negro ocupando outros espaços, ampliando as experiências, e que absorva a cultura negra para além dos estereótipos”, explica Cléa Maria Ferreira, doutora em educação, pesquisadora das relações raciais e pedagogias decoloniais e criadora do projeto Entre o Remendar e o Tecer. “Esses encontros podem não acontecer na escola. Então você deve buscar outros lugares, cursos, pois a troca é absolutamente enriquecedora. O maior aprendizado vem da convivência, nada nos engaja mais do que o afeto”, acrescenta Deh. Portanto, é importante repensar não só a rotina do seu filho como a sua também. Afinal, os pais são objeto de observação e, por muito tempo, a referência maior da criança. “Ao conversar com seu filho sobre racismo, admita seus erros e diga que está disposta a mudar, convocando-o a participar do processo. Ele vai se sentir estimulado a fazer as reflexões também. Evite seguir pelo caminho mais corriqueiro, que é dizer que somos todos iguais. Esse é o nosso desejo, mas a criança vai notar que as faxineiras da escola e quem pede dinheiro nas ruas têm em comum o fato de serem negros. Ensine o que significa injustiça, desigualdade, privilégio e, por fim, racismo. Vá introduzindo os conceitos aos poucos para que ela absorva. E tente usar referências acessíveis, como desenhos e filmes”, recomenda Deh.

 

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“A casa e a escola são os dois ambientes que a criança mais frequenta. Portanto, devem estar em sintonia quanto aos valores ensinados”

Cléa Maria Ferreira, doutora em educação

 

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Busque conhecimento

 

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Nenhuma revisão pessoal pode ser feita sem acesso à informação. Então vá atrás de livros, vídeos, artigos e outras fontes confiáveis que possam lhe explicar mais sobre a formação e manutenção das estruturas do racismo. “Isso vai ajudar o sujeito não negro a identificar todos os privilégios que tem apenas em função da cor da pele”, sugere Cléa. Nesse processo, é provável que você encontre visões bastante diferentes daquelas a que teve acesso na escola. “É a oportunidade de perceber que existem outras cosmovisões, não só a eurocêntrica. Essas narrativas vão fazê-la compreender como o racismo é de fato perpetrado no país, quais corpos ele alveja, quais terras coopta, em quais lugares ele impede acesso à saúde e à educação”, explica Elen Ferreira, professora do ensino fundamental e cocriadora do projeto Pretinhas Leitoras (@pretinhasleitoras). Evite pedir a pessoas negras com quem você se relaciona que lhe ensinem sobre racismo, pois isso não é um dever delas. Depois que já tiver se aprofundado no tema, até vale uma conversa, mas a função de se instruir é totalmente sua.

“Pessoas negras em cargos estratégicos serão capazes de apontar caminhos que quem está agora no poder não consegue”

Elen Ferreira, educadora

 

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Exija mudanças na escola

 

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“A casa e a escola são os dois ambientes que a criança mais frequenta. Portanto, devem estar em sintonia quanto aos valores ensinados”, diz Cléa. A primeira coisa a ser feita é perguntar qual é o projeto político-pedagógico referente a iniciativas antirracismo da instituição. A discussão deve ser abordada em todas as disciplinas, não apenas em história e literatura e muito menos só em novembro, mês da Consciência Negra. Em 2003, uma lei tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira. Ela foi revista em 2008, quando teve detalhes acrescentados e a inclusão do ensino de cultura indígena. Entretanto, a pouca fiscalização não permite garantir que ela seja aplicada. Mas não só no ensino é importante assegurar acesso à diversidade. Verifique se o corpo de professores e a coordenação da escola possuem funcionários negros em todos os níveis. “Se seu filho frequenta uma escola particular, organize com outros pais um projeto de ingresso de alunos negros na instituição, com programa de bolsas. Quando se pensa em inclusão, é necessário focar não apenas na entrada mas também nas condições de permanência, desde recursos como materiais e oferta à tecnologia utilizada até as questões afetivas, emocionais, de acolhimento. A criança precisa ter uma relação de equidade lá dentro”, completa Cléa. Elen lembra dos debates durante a pandemia, quando muitas escolas públicas optaram por um modelo digital à distância, apesar da dificuldade de acesso da população mais vulnerável. “Pautamos uma discussão sobre a condição de 27% do ensino básico, que é particular”, ressalta.

Fer Rodrigues/CLAUDIA

Apoie a inserção de pessoas negras em espaços de poder

 

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Quanto mais diversos forem os lugares onde as decisões são tomadas, mais pessoas serão beneficiadas. Isso acontece na esfera pública e privada. Em empresas, por exemplo, veja se a proposta vai além da criação de um comitê de diversidade. “Pessoas negras podem e devem ocupar cargos estratégicos. Elas serão capazes de apontar caminhos que quem está agora no poder não consegue”, pontua Elen. Na esfera pública, essa transformação é feita não só pelo voto mas pela possibilidade de pessoas negras se candidatarem. Isso exige capacitação, apoio (inclusive financeiro) e canais de visibilidade. Hoje, fazer parte da política tradicional é difícil, já que é um reduto branco, com maioria masculina e de classe média alta. Auxiliar outros corpos a entrar nessa seara é essencial para, daqui a algum tempo, vermos igualdade ao menos em número de concorrentes.

“A consciência dói, mas ela é um caminho sem volta. Uma vez que você enxerga as falhas da comunidade e as suas, terá um olhar mais atento para as desigualdades”

Deh Bastos, cofundadora do Criando Crianças Pretas

 

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Coloque dinheiro na luta

 

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“Não existe causa antirracista sem dinheiro”, afirma Deh Bastos. “Se você tem recursos, é um agente potente no movimento.” Isso significa não apenas doar para ONGs que atuem na área mas também escolher melhor os seus objetos de consumo. Por exemplo, buscar marcas de moda de profissionais negros, negócios de serviços criados por empreendedores negros e ainda médicos, terapeutas, dentistas. No ramo intelectual e cultural, analise os livros que você compra, filmes a que você e seus filhos assistem. “A arte, nesse sentido, é um artifício interessante e muito rico. Procure conteúdo com personagens negros que não estejam em uma posição de subalternidade ou de reprodução dos estereótipos. Hoje, há uma vasta literatura que traz representação positiva do negro”, orienta Cléa. Por fim, filtre o que você consome atualmente verificando se a empresa respeita o movimento antirracista, assim como outros valores seus. Se não for o caso, repense a relação.

  • Conversando sobre notícias ruins com as crianças

     

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