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A fome é de se ver no futuro

Priscila Gama fala da necessidade de propor mudanças que tirem as pessoas da situação de vulnerabilidade definitivamente

Por Priscila Gama - 5 jun 2020, 15h00

Durante a pandemia, a ajuda emergencial da sociedade civil e das grandes empresas é bem-vinda e necessária, mas, para Priscila Gama, é preciso propor mudanças que tirem as pessoas da situação de vulnerabilidade definitivamente

 

“A fome no Brasil precede a pandemia. As desigualdades absurdas já estavam aqui bem antes do vírus. A cesta básica chega à quebrada e o limite da opressão se mantém. Somos alimentados como vidas em cativeiro. O protagonismo segue distante nessas ações, que mitigam a fome, mas não fomentam de nenhuma forma a transformação das estruturas que são o alicerce das desigualdades.
Por acaso você já pensou em pesquisar as soluções criadas pelo próprio povo preto periférico para essas demandas? Tem coisas incríveis. Papo de tecnologia mesmo – social, artificial, todas elas convergindo para uma preocupação que perpassa pela fome, mas não para nela. A nossa lógica de riqueza é outra, e a fome é de futuro. O negócio é que o futuro que se espera não nos contempla. E já dizia a cantora americana Janet Jackson: ‘O futuro precisa virar presente, pois já estamos aqui agora, olhe ao redor’.

Eu sempre me senti circulando entre dois mundos com frequências absurdamente diferentes. Para além do óbvio visto a olho nu, eu sempre tive a impressão de que fora das periferias a gente performava a lógica de economia do indivíduo – onde não tem para todo mundo e não pode ter, onde quem tem pode ter mais e, portanto, é mais indivíduo que outros. Uma sobreposição grotesca do ter ao ser. Já nas periferias, muito possivelmente por causa da ancestralidade africana pautada em lógicas que o eurocentro não consegue captar, mas cuja melanina marca nossos organogramas mentais, a lógica é absurdamente colaborativa e o indivíduo é ser, e não ter. Porque o ter tem que dar pra todo mundo e assim o pensamento é sobre a abundância (tem e dá pra todo mundo), e não sobre a escassez (tem pouco, então quem tem mais vale mais).

Me parece que essa pandemia evidenciou a nossa imensa vulnerabilidade enquanto sociedade. Percebeu–se então que, para que o bagulho não fique ainda mais doido, a gente precisava ser mais colaborativo. Assim, grandes empresas e a sociedade em geral se reuniram para o ataque assistencial. Mas, sabe, está faltando mais do que comida e, se isso não for considerado, vai continuar faltando comida e vai faltar cada vez mais.

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Os acessos para esse futuro transformado não são um portal excludente, você entende? Não há padrão para essa passagem, mas há acessos que nós, aqui da periferia, precisamos ter para que possamos, de alguma forma, acompanhar essa transformação não só como corpos impactantes mas também como agentes da transformação. A questão é que a nossa história de manutenção dos privilégios manteve os acessos bem longe de nós. Por isso, eu ouso dizer que, sim, é tempo de avançarmos as consciências sobre branquitude e o que essa branquitude de fato consciente de seus privilégios pode fazer para que, no bom uso, as diferenças sejam cada vez mais reduzidas e os acessos amplificados, assim como os discursos.

Eu sei que parece utópica essa história de branco aliado. Confesso que pra mim essa confusão também ainda rola, porque a sociedade nos oprime, nos violenta e nos enraivece cotidianamente. Mas, considerando que tempos atrás falar de educação antirracista parecia impossível, eu espero que logo mais estejamos lendo manuais de como a sociedade vai usar de seus privilégios inerentes para diminuí-los.

Não sei se isso vai acontecer, também não tenho uma proposta efetiva para essa demanda. No entanto, tenho certeza de que brancos precisam avançar na absorção sobre o que é branquitude com urgência e verdadeiramente se interessar pelas propostas de transformação da sociedade que resultem na diminuição perene das desigualdades.

É preciso falar do lugar de fala, assim como do lugar de escuta. Assim como são necessários os antirracismos, os aliados, as concessões. Falar de tudo e todos, porque ignorar as interseccionalidades e vivências nas estratégias para as ações coletivas pode nos levar para buracos muito maiores do que os que a gente está. Além disso, a pausa obrigatória causada por esta pandemia não vai ter servido como momento de melhora; então, teremos levado pouco aprendizado deste momento.

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E como falar em mudança quando mantemos a caridade como exemplo de cidadania e quando a transformação por meio da redução dos danos e promoção da igualdade está longe de ser incluída nos planos dos heroicos caridosos?

A comida é importante, sim. Mas o movimento verdadeiramente inclusivo e que irá de fato configurar se o momento será de transformação parte desses encontros e das narrativas que consideram nossas vivências para fortalecer nossas existências e garantir que no PRESENTE a gente se veja e no FUTURO estejamos lá.”

*Priscila Gama é estrategista de inovação em tecnologia social e mestranda em sociologia política. Coordena diversos projetos focados em inclusão, igualdade e potencialização de territórios periféricos. É CEO do Das Pretas.Org e do Bekoo Das Pretas

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