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Pelo direito das crianças de compreender a pandemia (e o mundo!)

Colocar os filhos em uma bolha, como se pudéssemos blindá-los das notícias da pandemia, pode ser nocivo

Por *Joanna Cataldo - Atualizado em 18 ago 2020, 19h13 - Publicado em 19 ago 2020, 10h00

Imagine uma família formada por uma criança e dois adultos. Pensando em “proteger” o filho de conteúdos que julgam ser nocivos à sua saúde mental, os pais decidem conversar o mínimo possível com a criança sobre a pandemia do novo coronavírus. De forma superficial, apenas explicam que as aulas foram suspensas e que agora todos têm que higienizar as mãos com frequência e usar máscaras para sair à rua. Não entram em detalhes sobre como o vírus atua, quais são os grupos de risco, como o país está sendo afetado pela pandemia…

Este cenário, aqui imaginário, pode ser a realidade em algumas famílias neste momento. Mas há um engano nessa linha de pensamento e comportamento quando se trata da relação entre as notícias e as crianças. Apesar da relutância de alguns pais em falar sobre o assunto mais comentado do momento dentro de casa, o fato é que a criança não está completamente isolada do mundo exterior – mesmo saindo pouco de casa. O assunto do novo coronavírus aparece nas conversas que ela tem com os amigos pela internet, nos vídeos que assiste no YouTube e até no telejornal que os pais veem – e que ela consegue escutar do seu quarto, por exemplo. No meio desses conteúdos sobre a pandemia, que a criança inevitavelmente recebe todos os dias, há muitas fake news, hipóteses, informações imprecisas ou até notícias que, embora sejam verdadeiras, não foram pensadas para explicar o assunto ao público infantojunveil – e que, portanto, podem não ser inteiramente compreendidas por uma criança.

Tudo isso leva o jovem a ter dúvidas e a fazer uma série de especulações, que, somadas à sua fértil imaginação, podem não ser das mais saudáveis. No fim, essa criança está apavorada com a doença e, como não se sente à vontade para conversar com os pais sobre o assunto, as dúvidas apenas crescem – e o seu medo também.

O que aprendemos com essa história é que colocar os filhos em uma bolha, como se pudéssemos blindá-los das notícias da pandemia, pode ser nocivo. É praticamente impossível impedir que eles tenham acesso a conteúdos sobre o novo coronavírus. Não seria melhor que os pais ou responsáveis ajudassem esses jovens a entender o que, de fato, está acontecendo?

Em uma conversa, o adulto pode tirar as dúvidas do filho sobre o assunto, desmentir fake news, explicar como está caminhando a fabricação da vacina, entre outras questões que possam surgir eventualmente. Não precisa ser uma conversa tensa, com horário marcado para acontecer. Um bate-papo despretensioso, na hora do jantar ou do café da manhã, funciona bem. Para iniciar a conversa, o adulto pode usar como gancho uma notícia sobre a covid-19 que esteja passando na televisão ou até algum conteúdo sobre o assunto que a criança tenha visto na internet, por exemplo.

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Além disso, nessas conversas, os pais ou responsáveis podem aproveitar para trocar ideias com as crianças sobre temas instrutivos para elas. A partir da pandemia é possível falar sobre fake news de forma geral. O que são? Como “se proteger” delas? Por que são perigosas? Também é possível falar sobre globalização: como uma doença que, ao que tudo indica, começou na China, se espalhou para o mundo inteiro? Como a crise na economia de um país prejudica outras nações que mantêm relações comerciais com ele?

Assuntos naturalmente complexos, como fake news e globalização, tornam-se mais palpáveis, mais fáceis de serem compreendidos a partir da realidade que estamos vivendo. É muito mais simples para uma criança entender que há uma notícia falsa sendo disseminada na internet sobre a eficácia de um chá contra o novo coronavírus do que simplesmente dizer, de forma genérica, que alguns usuários espalham conteúdos falsos na rede. Com exemplos práticos e próximos à realidade dela, a criança consegue visualizar melhor determinada ideia.

Por todos esses motivos, falar sobre a pandemia – e os diversos assuntos da atualidade – não apenas ajuda a combater a ansiedade das crianças como abre espaço para que elas aprendam conceitos que serão importantes para a sua formação cidadã. Enfrentar uma pandemia é difícil em qualquer idade. Mas, certamente, esse processo se tornará menos complicado e até mais instrutivo para os mais jovens se nós, adultos, nos empenharmos em ajudá-los a compreender a sociedade – da qual eles já fazem parte.

 

*Joanna Cataldo, repórter do Joca, jornal sobre atualidades para crianças e jovens

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