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Série busca no universo respostas sobre de onde viemos e para onde vamos

Nova série produzida, dirigida e com roteiro de Annn Druyan vai atrás das respostas dos mistérios do universo – e da nossa origem

Por Isabella D'Ercole - 6 jun 2020, 11h00

O homem sempre olhou para o céu e sentiu fascínio. Civilizações antigas já buscavam respostas nos astros e sobre eles. No fundo, isso significa procurar repostas sobre nós mesmos, o nosso lugar no universo e a história que nos trouxe até aqui. Contudo, mesmo hoje, com toda a tecnologia, as dúvidas ainda são mais numerosas do que as conclusões. E essa brecha nos permitiu criar. Inventamos livros, filmes e peças de teatro. Criamos seres extraordinários, ameaças de meteoros e até cenários de vida humana em outros planetas (após destruirmos a Terra).

Só que a fantasia não faz do universo um lugar menos misterioso e incrível. Tanto é que seguimos em busca das verdades. Foguetes estão sendo lançados, fotos estão sendo tiradas. Mandamos até um espião para Marte. Esse olhar possibilitado pela modernidade é tema da nova temporada de Cosmos: Mundos Possíveis, programa que estreia hoje, às 22h30, no canal a cabo Nat Geo. O nome não deve soar estranho. A primeira temporada da séria, Cosmos: Uma História Pessoal, foi transmitida em 1980 e venceu três Emmy.

O projeto era do cientista e astrofísico Carl Sagan e da escritora e roteirista Ann Druyan. O casal maravilhou espectadores do mundo inteiro com projetos ligados ao universo. Um dos mais conhecidos é Contato, filme com Jodie Foster, de 1997. Carl morreu um ano antes do lançamento do longa, mas seu trabalho continuou atrás das produções de Ann. Talentosa produtora, Ann participou de diversas parcerias com a Nasa e projetos espaciais americanos como diretora criativa.

National Geographic/Divulgação

Na nova temporada de Cosmos, há a possibilidade de explorar o espaço de forma muito diferente de 1980. Tem mais tecnologia, dando ao público imagens incríveis e destrinchando teorias complicadíssimas de forma que todos possam compreender – esse, aliás, é o maior talento de Ann: explicar de forma simples e com voz doce as coisas mais complexas. Em conversa com CLAUDIA de sua casa, nos Estados Unidos, ela falou sobre a importância do respeito à natureza e não se mostrou muito feliz com o lançamento do foguete privado da SpaceX.

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A sensação que eu tenho é que ainda sabemos tão pouco sobre o universo e há tanto a descobrir. Por que não evoluímos cientificamente tão rápido nessa área como nas outras? 

O universo é um lugar muito grande mesmo e tem muito para saber. Aliás, nós somos criaturas tão pequenas que não podemos nem sequer imaginar as dimensões do universo. Mas não acho que estamos tão estagnados assim. Faz pouco mais de 400 anos que Galileu falou que a Terra não era o centro do universo e que ele descobriu os anéis de Júpiter. Isso não é muito tempo, então acho que é notável o que descobrimos. Temos sistematicamente questionado a natureza para saber mais e mais.

Como essas descobertas sobre o universo impactam o ser humano e o ajudam a descobrir mais sobre ele mesmo, sobre origens e destino? 

Nesses 400 anos, deixamos de ser crianças. A infância é aquele período em que a criança acha que é o centro do universo. Nós, a humanidade, superamos isso. Já sabemos que não somos os mais importantes e que não estamos sozinhos – ou estamos bem avançados no processo de aceitação disso. Vivemos um momento de entender que somos parte de algo tão grandioso. Pessoalmente, acho isso uma experiência espiritual. Somos resultado de 4 bilhões de anos de evolução. Cada átomo da nossa pele, cabelo, foi cozinhado no coração da evolução. Entender o universo é transformador porque revela que você é o legado de uma trajetória que começa nas estrelas. Isso faz eu me sentir responsável por ser um link bom nesse ciclo da vida. Não quero viver pensando só em mim, de uma maneira egoísta, mas em fazer parte dessa história do universo, que inclui as gerações que estão por vir. O programa tem um papel importante nesse ponto de comunicar essa informações. Eu queria inspirar e animar o máximo de pessoas possível com a belíssima história de onde viemos, quem somos, para onde vamos e de como anda o processo de nos tornarmos quem deveríamos ser.

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No momento, o mundo vive as consequências de uma relação nociva, sem respeito pelo meio ambiente. Como o show realça essa conexão que o ser humano tem com a natureza, com o planeta?

Essa é a grande luta da nossa civilização. Nossos mitos fundadores nos mostram como um tipo de fenômenos, como se tivéssemos chegado ao planeta já adultos. O pecado original de Adão e Eva, por exemplo, acontece porque eles se alimentam de uma fruta da árvore do conhecimento. Eles são adultos quando passam a conhecer o bom e o mau. É assim que a gente aprende sobre a vida na Terra. E se a gente for se basear nessas ilusões, nunca nos conheceremos. A ciência nos ajuda a juntar pistas de como as coisas funcionam. Ela é vital, desvendou muitos mistérios nos últimos 120, 140 anos. E assim entendemos que as vidas se conectam, as nossas e de outros seres vivos. Não estamos e nunca fomos isolados. Saber nossa origem ajuda a entender comportamentos. Isso atualmente é essencial, com tudo que vivemos politicamente. Eu vejo os movimentos por igualdade quebrando esses mitos antigos de superioridade, as mulheres exigindo seu espaço. E isso é uma oportunidade de mudar as dinâmicas.

Você cita os movimentos feministas e acho que deve ter passado por muitas situações de desigualdade. Astrofísica não é um lugar com muitas mulheres. Já teve algum caso de injustiça? 

Muitas vezes eu fui a única mulher da sala. Muitas vezes mal me deixavam falar ou terminar frases. Eu me lembro de falar coisas em reuniões e ninguém nem sequer responder, mas dois minutos depois dizer que a ideia do Carl era ótima, como se ele tivesse falado. Virou até uma piada entre nós dois. Mas o Carl me encorajava muito e sempre chamava a atenção das pessoas em episódios assim. Isso mudou drasticamente. Eu sei que os números de cientistas mulheres cresceu bastante. E elas fazem trabalhos promissores, fico fascinada. Outro dia uma astrofísica me mandou um email de um projeto maravilhoso que ela está desenvolvendo. E ainda encerrou o email dizendo que o mais legal é que na equipe dela a proporção de homens e mulheres era igual. Quando fizemos Contato, queríamos que a protagonista fosse uma mulher. E ela era sempre a pessoa mais esperta da sala, partia numa odisséia e deixava os homens em casa. Nos últimos 20 anos, muitas mulheres me disseram que essa personagem as inspirou a seguir o caminho delas na ciência, a exigir espaço. Eu acho que nós, humanos, precisamos de toda a inteligência que tivermos para salvar o mundo e ela não está só em homens. O próximo Einstein ou Newton não terá a mesma aparência.

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Stewart Volland/National Geographic/Divulgação

Como as evoluções da tecnologia mudou sua forma de trabalhar?

Nossa, eu gosto tanto do que a tecnologia me proporcionou. Para começar, poder escrever e reescrever textos sem que o papel fique todo marcado como era na minha máquina de escrever antiga (risos). E poder pesquisar assuntos sem ter que sair de casa e ir até uma biblioteca. Não precisar fazer xerox de páginas para guardar citações e referências. As bibliotecas e livrarias de todo o planeta estão ao alcance dos meus dedos. E mesmo que não funcionem 100%, há ferramentas de tradução simultânea. Ter informação disponível é incrível e transformador. Isso me dá muito esperança para um futuro melhor. Espero que a distribuição de informação seja cada vez mais democrática.

Na semana passada, a SpaceX lançou um foguete em direção a uma estação espacial e o mundo todo assistiu. O que você achou? 

Para ser sincera, não me emociona ou anima. Acho que já muito a ser feito no nosso planeta. Claro que temos muito a aprender com o universo e demoramos muito tempo para entender a física, a matemática, desenvolver materiais que possibilitassem nossas excursões espaciais. Mas agora vivemos uma pandemia, há pessoas morrendo de fome. Não me parece que estamos usando nosso conhecimento de tecnologia e nossos recursos da melhor maneira. Eu não gosto de pensar que o futuro de programas espaciais e de explorações espaciais será só para quem tem dinheiro e feito por quem tem dinheiro. E de quem faz por ego. Acho que uma exploração estratégica, pensada como um ganho para o planeta seria mais benéfico.

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