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Vanda Witoto, a técnica de enfermagem indígena que atua em Manaus

A técnica de enfermagem Vanda Witoto acompanha mais de 700 famílias na sua comunidade, o Parque das Tribos, em Manaus

Por Ana Carolina Pinheiro - Atualizado em 5 jun 2020, 14h48 - Publicado em 5 jun 2020, 11h00

“Eu sabia que estava no ápice da exaustão. Era a primeira semana de maio e já enfrentávamos a pandemia do novo coronavírus fazia meses. Mas eu não tinha opção. Precisava de forças para continuar defendendo a vida dos povos originários. Mais uma vez, busquei a faísca para seguir em frente onde eu sabia que encontraria. Fui até a árvore do meu quintal, colhi urucum e pintei o rosto. Saí do Parque das Tribos e me dirigi para o principal hospital de Manaus, o Delphina Aziz. O objetivo era cobrar do então ministro da Saúde, Nelson Teich, que estaria lá no dia, atendimento para os moradores da minha aldeia. Desassistidos, muitos desenvolviam sintomas graves da Covid-19 e corriam risco de vida. A ambulância, na maioria das vezes, não chegava à comunidade e a precariedade do saneamento básico é outro risco constante. O coronavírus é mais um problema que ameaça a nossa população, agravando o que já estava complicado. Um dos cartazes da nossa comitiva estampava a frase: ‘Indígenas do Amazonas pedem socorro’. Fomos ignorados na chegada dos funcionários do ministério. Porém, continuamos lá até sermos atendidos. Conseguimos uma reunião com Robson Santos da Silva, chefe da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que foi agendada para a mesma semana.

Dona Edvirgem, da etnia Tukuya, foi a primeira pessoa a apresentar os sintomas da Covid-19 na comunidade. Ela está no grupo de risco e sentiu fortes dores no peito. Precisamos levá-la ao hospital mais próximo, onde passou apenas uma noite internada. No dia seguinte, foi liberada para continuar a recuperação em casa. Depois da reunião, casos como o dela puderam ser mais bem amparados. O secretário da Sesai enviou um médico à comunidade para acompanhar as pessoas com suspeita e alguns moradores foram encaminhados para os postos e hospitais. A situação mais delicada foi a do nosso cacique. Apesar de ter todos os sintomas, ele não conseguia o diagnóstico de Covid-19 por falta de teste e faleceu no dia 13 de maio.

Vanda com o pai, Edson Ortega, a esposa dele, Brazileia Martimiano, e os sobrinhos da ativista, Maria Eduarda e Davi Paulo de Lima/CLAUDIA

Às margens do Rio Tarumã-Açu, o chão do Parque das Tribos, ocupação indígena na parte urbana de Manaus, é base para 700 famílias de 35 povos diferentes. Eu fui uma das primeiras moradoras do local. Mas não é a primeira vez que indígenas ocupam a região. Nossa presença representa a retomada de um espaço que foi do povo Kokama no passado. Em 2014, quando me mudei para cá, eu tinha entrado na faculdade de pedagogia e morava de favor na casa de uma prima. Estou entre as poucas que aguentaram ficar no Parque das Tribos. As condições eram ainda mais difíceis na época.

Manaus é meu lar há 18 anos. Cheguei em 2002 para ajudar minha prima, que também é da tribo Witoto, a cuidar do filho dela. Antes, vivíamos na Terra Indígena Barreira da Missão, em Tefé, interior do Amazonas. Era comum homens brancos buscarem meninas na nossa aldeia para trabalhar em Manaus. Algumas conseguiam realmente um emprego, como aconteceu com minha prima, mas outras eram exploradas sexualmente. Os jovens também deixam Tefé rumo à capital para conquistar mais conhecimento e melhorias para o nosso povo, tanto os Witoto como os Kaixana, Kambeba, Miranha e Ticuna, que hoje também ocupam a região.

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Quando negam a nossa cultura, também estão nos matando. E somos submetidos a isso diariamente

Vanda Witoto

Na minha infância, viviam na aldeia apenas parentes, divididos em oito famílias. Foi a melhor fase da minha vida; cresci brincando nas margens do Rio Solimões. Na roça, plantávamos macaxeira, milho, cana e frutas para vender na cidade com o mel e os peixes que conseguíamos. A casa dos meus pais, que abrigava também meus cinco irmãos, além de mim, era de palafita. Alguns familiares preferiam morar em terra firme. Eles tinham muito medo dos navios que passavam ali e pensavam que seriam encontrados pela guerrilha da Colômbia e do Peru, países originários dos Witoto. É um receio herdado de uma geração para outra. No início do século 20, a população Witoto era de 50 mil pessoas, mas a invasão da tribo na Colômbia pelos seringueiros matou muitos indígenas. Outros morreram por causa das doenças trazidas pelos invasores. Anos depois, em 1922, a demarcação de fronteiras na Amazônia entre Colômbia e Peru, conhecida como Tratado de Salomón Lozano, também prejudicou os Witoto. Insatisfeito com o acordo, em 1932 o exército peruano deu início a uma guerra e os obrigou a ir para o Peru. Meus bisavós fugiram da Colômbia nessa batalha, encontrando abrigo em Tefé, no Brasil.

A mudança causou um adormecimento da cultura. A Igreja Católica recebeu os indígenas, mas os transformou, substituindo seus rituais religiosos pelas festas de santos. O dialeto também deixou de ser usado porque os indígenas tinham medo de ser identificados como fugitivos. É por isso que os Witoto do Alto Solimões têm tanta dificuldade de reafirmar suas origens. É necessário conversar muito para conseguir alguma informação da história do nosso povo. Esse distanciamento aumentou quando completei 10 anos e fomos morar em Amaturá, a cerca de 400 quilômetros dali. A decisão foi do meu pai, responsável por alfabetizar todas as crianças da aldeia e grande defensor da educação. O sonho dele era que estudássemos em uma escola para termos mais oportunidades na vida. Cederam uma casa pra gente, mas não tínhamos nada além de trouxas de roupas e um peixe, que minha mãe limpou de cócoras no banheiro na primeira noite. Estávamos matriculados, mas não havia uniforme nem material para todo mundo. Um vizinho doou sapatos e os cadernos dos filhos que não tinham sido usados. Como revezávamos o material, metade estudava de manhã e a outra metade à tarde.

Foi assim até os 12 anos, quando tive que mudar para a casa da minha tia, na Colômbia. Eu precisava de um tratamento de saúde para um distúrbio hormonal. Fiquei lá três anos e, ao me recuperar, voltei para a casa dos meus pais. Mas logo parti para ajudar minha prima em Manaus. Conciliava os estudos com o trabalho. Então, de 2002 a 2008, passei por várias casas, mas só aceitava lugares que me permitissem ir para a escola. Acordava às 3 horas da manhã para arrumar tudo e deixar o almoço pronto antes de ir para a aula. Só que eu não me importava, porque no colégio eu me sentia feliz e podia conversar. Nas casas, tinha que ficar calada. Era só: ‘sim, senhor’, ‘obrigada’ e ‘imagina’. A minha liberdade era a escola.

Uma professora enxergou minha paixão pelos estudos e conseguiu um emprego para mim em uma loja de tortas. Como já estava na última semana de aula no 3º ano do ensino médio, pude aceitar sem preocupações com o horário e parei de trabalhar em casa de família. Foi uma libertação, pois não precisava mais lidar com o assédio dos meus patrões, que sempre sofri, apesar de ter conseguido escapar do pior. O meu novo lar se tornou um quarto alugado na casa de uma senhora. Não era fácil, só tomava vitamina e suco para não ter que usar o fogão dela, mas era um canto só meu e ganhava um tempo para começar a conquistar minhas coisas.

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O sonho de vida de fazer medicina ou enfermagem passou a ficar mais forte. Mas a realidade – precisava trabalhar para sobreviver – me fez optar pelo técnico em enfermagem, já que os outros cursos eram em período integral. Com uma bolsa parcial e a ajuda do meu chefe, dono da loja de tortas, consegui pagar a mensalidade e completar a formação. Em 2014, após a conclusão dos estudos, prestei um concurso público para a Fundação Alberto da Mata, que faz cirurgias eletivas e tratamentos para pacientes oncológicos. E, para minha surpresa, passei em 12º lugar. Trabalho no mesmo lugar até hoje.

Conversando com alguns amigos, descobri que tinha direito às cotas de indígenas para ingressar na universidade. A notícia afastou minha insegurança por ter estudado em escola pública e não me sentir preparada. Até então, não sabia o que realmente era ser Witoto. Resolvi ir atrás da minha identidade. Afinal, ocuparia uma vaga para indígena e não conhecia a própria história. Fui conversar com a minha família para entender quem éramos. Matriculada no curso de pedagogia, percebi que, mais do que aprender o conteúdo da grade curricular, estava ali para desenhar o meu caminho de reconhecimento e luta pelos direitos da minha história e do meu povo, ao lado dos companheiros Ludmilar Cocama, Erimar Satere e Francisco Maricaua, do núcleo estudantil de movimento indígena.

Na universidade e fora dela, a minha luta é para assegurar a defesa dos nossos povos, revitalizar a nossa língua, ter os nossos saberes reconhecidos também dentro do espaço acadêmico. São as necessidades que movem minha batalha, uma vez que, quando negam nossa cultura, também estão nos matando. E somos submetidos a isso diariamente. Ao mesmo tempo que me sinto cansada, tenho uma alegria imensa de poder olhar os meus avós e parentes e ver que eles sabem que podem contar comigo para garantir alimento e para não deixá-los morrer.”

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