Ela criou um Masterchef na periferia para capacitar jovens na gastronomia

"Chef Aprendiz" está em expansão: campanha online busca recursos para instalar o projeto no Capão Redondo, em São Paulo

A relação de Beatriz Mansberger com a culinária surgiu bem cedo. A primeira lembrança que tem relacionada à gastronomia é da avó, no restaurante por quilo do qual era dona. “Lembro de entrar na cozinha e ver aquelas panelas enormes antes do almoço”, conta. O pai de Beatriz também tinha a culinária como hobby e ela, quando criança, deu seus primeiros passos na cozinha ao entrar para um grupo de escoteiras.

A comida sempre teve um lugar especial na vida de Beatriz, mas foi em um momento complicado que ela se deu conta da dimensão do tema. Enquanto cursava Gestão de Políticas Públicas, ela teve depressão. O sentimento de impotência que tinha em relação a alguns problemas do mundo até a impedia de comer.

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“Eu percebi que aquilo era algo muito maior que eu, então resolvi pedir ajuda e comecei um tratamento”, explica. No momento de sua recuperação, seu pai a presenteou com o livro Cozinhando Para Amigos, da chef Heloisa Bacellar. Foi através dele que Beatriz resgatou seu vínculo com a comida.

Beatrzi Mansberger Chef Aprendiz Beatriz Mansberger

“Quando voltei a cozinhar, consegui me animar um pouco e resolvi ir atrás de algum trabalho social. Foi assim que eu cheguei até Paraisópolis”, explica Beatriz sobre o início de seu projeto.

Masterchef na comunidade

A ONG em que começou a trabalhar em 2015 a convidou para realizar algum projeto com os jovens daquela comunidade, que muitas vezes eram deixados de lado por não se encaixarem nem no grupo das crianças nem no dos adultos.

Beatriz topou o desafio, mas antes de criar algo, resolveu conversar com os adolescentes para conseguir desenvolver um programa que realmente tivesse a cara deles.

Eles disseram que queriam participar do Masterchef, reality show de culinária apresentado por Ana Paula Padrão e pelos chefs Henrique Fogaça, Erick Jacquin e Paola Carosella. Com ajuda do namorado, que é chef, ela desenvolveu aulas teóricas e práticas inspiradas no programa para que os jovens aprendessem a cozinhar.

Para o projeto sair do papel, no entanto, era necessária uma quantia de dinheiro que a ONG não tinha. Foi lançado, então, um projeto de arrecadação através de um crowdfunding na internet que conseguiu cerca de R$ 37 000 em apenas 3 meses. Foi assim que o Chef Aprendiz conseguiu realizar sua primeira edição, em 2015.

Chef Aprendiz Chef Aprendiz no Glicério

Desde então, o Chef Aprendiz cresceu e hoje é uma ONG independente. Beatriz conta que o curso, que dura em torno de seis meses, visa não somente ensinar culinária, mas também desenvolver o jovem por completo.

“A primeira hora das aulas é voltada para o desenvolvimento humano, com técnicas de mindfulness [atenção plena ao presente]. Na segunda parte do projeto, alguns meses depois, entram os profissionais da psicanálise, que abordam temas do Ensino Médio com enfoque na gastronomia para dar significado aos temas tão abstratos”, explica.

Chefs voluntários são os responsáveis pelas aulas práticas. Ao final do curso, os 16 jovens participam de uma competição inspirada no reality show.

Com orçamento de R$ 350,00 por grupo, eles têm que cozinhar um menu completo – entrada, prato principal e sobremesa. O júri, composto pelos chefs e empresários da área de gastronomia, prova todos os pratos e escolhe o grupo ganhador. Os que se destacaram no processo podem conseguir vagas de emprego nos restaurantes de algum deles.

O Chef Aprendiz consegue mudar a vida de muita gente. Jovens que antes tinham baixas perspectivas de vida hoje estão empregados. “Eu tento manter contato com vários dos participantes, até pra ajudar caso algum precise, encaminhar para alguma vaga que apareça. É lindo ver como o projeto realmente fez diferença na vida deles. Dois jovens da primeira edição conseguiram bolsa em uma faculdade de gastronomia. Um outro trabalha há dois anos no Hotel Emiliano. São muitas histórias assim, e isso que faz a gente ir adiante”.

Expansão

Depois de Paraisópolis, o Chef Aprendiz já foi para o Campo Limpo, Glicério, Jardim Colombo e Valo Velho. Todas as edições conseguiram ser concretizadas através do crowdfunding. Quem doa pode reverter o valor em jantares em restaurantes parceiros. Até agora não houve lucro e o que Beatriz espera é que, nas próximas edições, os colaboradores passem a ter um salário.

Hoje, o Chef Aprendiz se prepara para sua 6ª edição, no Capão Redondo. A campanha no Catarse está aberta até o domingo (12) para conseguir o dinheiro necessário para a realização do projeto com 20 jovens, um número maior que nas outras edições. Para ajudar e saber mais, é só visitar: catarse.me/chefaprendiz2019.

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