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Por que “O Morro dos Ventos Uivantes” soa tão vazio?

Estrelado por Margot Robbie e Jacob Elordi, filme tem exuberância visual, mas dilui a força trágica e a complexidade do clássico de Emily Brontë

Por Lorraine Moreira 12 fev 2026, 17h41 •
Crítica sobre o filme "O Morro dos Ventos Uivantes"
Filme estreia no Brasil nesta quinta, 12 de fevereiro (@wutheringheightsmovie/Instagram)
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  • O Morro dos Ventos Uivantes já era polêmico antes mesmo de chegar às telas. As escolhas criativas que o afastam do romance de Emily Brontë estavam dadas no visual exuberante, no trailer sensual estrelado por Margot Robbie e Jacob Elordi e na decisão de escalar um ator branco para viver Heathcliff.

    Mas restava a pergunta: há algo de substancial sob os vestidos pomposos, os cenários ornamentados e o desfile de belos atores?

    Na trama, o pai de Catherine, embriagado, resgata o menino abandonado Heathcliff e o leva para casa, onde passa a tratá-lo brutalmente como servo. Cathy e Heathcliff, no entanto, desenvolvem uma relação profunda que evolui da amizade para a paixão.

    Mas, ao contrário dos contos de fadas, o vínculo mergulha num jogo de obsessão, controle e vingança.

    Sexo, obsessão e desejo: a erotização substitui a construção dramática

    Filme
    “O Morro dos Ventos Uivantes” é inspirado em clássico de Emily Brontë (@wutheringheightsmovie/Instagram)

    A transição é marcada pelo sexo — não entre os protagonistas, mas por meio de um casal de empregados flagrado por Cathy.

    Perturbada pela cena, ela se entrega ao próprio desejo e se masturba escondida atrás de uma pedra, até ser surpreendida por Heathcliff. Ele lambe seus dedos, mas o encontro não é traduzido em intimidade real entre os dois.

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    Há coragem em suprimir personagens, alterar o tom de Heathcliff e apostar numa estética estilizada. Falta, porém, ousadia equivalente para levar a história a novos debates.

    Quando Heathcliff retorna rico e se reaproxima de Cathy, a relação não tem uma construção dramática convincente. Jacob e Margot entregam boas performances, mas o roteiro os reduz a uma dinâmica que oscila entre implicância juvenil e sexo impulsivo, e apenas isso.

    Sem algo que ultrapasse o desejo físico, a conexão entre eles parece exclusivamente carnal. Controle, obsessão, poder, e mesmo o amor que deveria sustentar o drama, aparecem diluídos.

    Paradoxalmente, são esses temas, quando aparecem fora do eixo central do casal, que tornam o filme mais cativante.

    Quando o filme fala sobre poder, ele se torna mais interessante

    O Morro dos Ventos Uivantes
    “O Morro dos Ventos Uivantes” investiga relações de poder entre os personagens (@wutheringheightsmovie/Instagram)
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    A dama de companhia, Nelly, tem origem ilegítima e se vinga, às escondidas, das atitudes individualistas de Cathy. O pai da protagonista manipula emocionalmente e maltrata Heathcliff enquanto detém poder, apenas para, mais tarde, perder tudo e experimentar a própria subordinação. Heathcliff, antes dominado, reproduz o ciclo ao enriquecer.

    Já o marido de Cathy, embora mantenha com ela uma relação cordial, sabe que pode usar sua posição para afastá-la do antigo amor. O filme ganha força ao expor como o poder circula, corrompe e aprisiona todos num estado contínuo de destruição.

    Algo interessante é que o título do filme aparece entre aspas, gesto que Fennell definiu, em entrevistas, como um reconhecimento de que sua leitura jamais poderia abarcar a totalidade da obra-prima de Brontë.

    As alterações radicais do material original soam menos como reverência e mais como um comentário quase satírico sobre a própria adaptação.

    A estética é arrebatadora, mas falta emoção

    Quarto de Catherine, em
    Quarto de Catherine, em “O Morro dos Ventos Uivantes” (@wutheringheightsmovie/Instagram)
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    Visualmente, a produção é arrebatadora. À medida que Catherine ascende socialmente, Fennell e sua equipe, entre eles o diretor de fotografia Linus Sandgren e a designer de produção Suzie Davies, transformam o cenário em espetáculo.

    Na mansão, o chão vermelho intenso, a mesa farta de doces, o quarto cujas paredes reproduzem a tonalidade da pele com sardas e veias de Cathy reforçam a ideia de posse e fetichização.

    O figurino de Jacqueline Durran é também um destaque. Um vestido com brilho rígido que remete ao látex, outro, translúcido como celofane, o véu que aparece tanto no casamento quanto no funeral. Nada corresponde fielmente à época, e essa é precisamente a intenção.

    A proposta é sugerir um amor que transcende tempo e convenções, reforçado pela trilha que combina a orquestra de Anthony Willis com baladas sintéticas e tão atuais de Charli XCX.

    A história, porém, não acompanha o esplendor do visual. Ao final, pode-se até simpatizar com o casal e desejar sua união, mas seria apenas essa a intenção de Fennell? Falta acreditar na conexão de almas que justificaria toda essa tragédia.

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    Entre excessos visuais e cenas de sexo, o filme se assemelha a um bolo cenográfico. É coberto de chantilly, vistoso por fora, mas oco por dentro.

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