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Audre Lorde: potência que transcende o tempo

Livros lançados por Audre Lorde nos anos 1970 e 1980 finalmente chegam ao Brasil. Ícone dos movimentos lésbico, negro e feminista, ela segue muito atual

Por Júlia Warken Atualizado em 29 ago 2020, 11h04 - Publicado em 29 ago 2020, 10h30

Lésbica, negra, feminista, guerreira, poeta e mãe. Audre Lorde era uma mulher que gostava de se apresentar revelando suas particularidades e, assim, lutava bravamente contra as múltiplas opressões que sofreu durante a vida. Nasceu no Harlem, em Nova York, em 1934, e faleceu aos 58 anos, em 1992 – vítima de câncer.

Começou a destacar-se no espaço acadêmico e nos movimentos negro e feminista e a partir dos anos 1970. Ela era uma voz dissonante nesses grupos, pois não tinha medo de dizer aos oprimidos que eles também eram opressores. “Não é fácil para mim falar com vocês aqui como uma feminista negra lésbica e admitir que algumas formas como me identifico dificultam que me escutem”, disse ela em uma palestra na conferência Black Women Rising Together (Mulheres negras ascendem juntas, em tradução livre), no Brooklyn, em 1985. Esse viria a ser um de seus discursos mais memoráveis e ele dá nome ao livro Sou Sua Irmã, lançado no Brasil em junho deste ano pela Ubu Editora.

“Havia um cartaz muito popular nos anos 1960: ele não é negro, ele é meu irmão! Eu ficava furiosa com ele, porque dava a entender que as duas coisas são excludentes – ele não poderia ser ambos, negro e irmão. Bem, não quero ser tolerada nem chamada de algo que não sou. Quero ser reconhecida. Sou uma lésbica negra e sou sua irmã.”, disse Audre, para finalizar o famoso discurso de 1985.

O livro I am Your Sister foi lançado nos Estados Unidos naquele mesmo e chega ao Brasil mais de três décadas depois. E ele não está sozinho. Sister Outsider, de 1984, ganhou uma versão brasileira somente em dezembro de 2019 – por aqui se chama Irmã Outsider e é publicado pela Autêntica. Tanto Sou Sua Irmã quanto Irmã Outsider reúnem ensaios e discursos de Audre Lorde, mas o mercado editorial brasileiro também se voltou aos poemas dela recentemente. Entre Nós Mesmas e A Unicórnia Preta estão em pré-venda e serão lançados em setembro pelas editoras Bazar do Tempo e Relicário, respectivamente. O primeiro livro compila as obras Uma terra onde o outro povo vive (1973), Poemas escolhidos – velhos e novos (1978) e Entre nós mesmas (1982) e o segundo é a versão brasileira do livro homônimo, de 1978. E mais: para 2021, a editora Elefante já anunciou o lançamento de Zami, uma autobiografia – o livro autobiográfico que Audre publicou em 1982.

Após o lançamento de Irmã Outsider, em 2019, quatro editoras se uniram para publicar outros livros de Audre Lorde, que contam com o mesmo projeto gráfico em suas versões brasileiras. Fotos: Reprodução/Divulgação

Em menos de um ano, cinco editoras decidiram apostar nas obras de uma escritora que foi ignorada por décadas pelo mercado brasileiro. Isso denota um atraso histórico, mas também confirma a potência atemporal desta mulher. “A Audre já circulava dentro da comunidade feminista negra. As feministas negras traduziam por conta própria, para fazer circular o pensamento dela. Eu acredito que muito desse apagamento vem do apagamento lésbico, de até então não ter sido interessante traduzir uma pensadora negra lésbica. Isso acontece. E agora eu acho que, por uma pressão dos movimentos sociais, principalmente das feministas negras, mais obras estão sendo traduzidas para o nosso idioma – também de feministas negras de outros países”, diz Ana Claudino, pesquisadora e ativista negra lésbica. No YouTube, ela é conhecida como Sapatão Amiga e, em seus vídeos, fala sobre temas que permeiam a vivência das mulheres lésbicas e negras. Também comanda o podcast LesboSapiência , é colunista da Mídia Ninja e assina a contracapa do livro Sou Sua Irmã.

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Ela mesma conheceu a obra de Audre nas redes sociais, através de uma tradução da poeta e pensadora Tatiana Nascimento. O primeiro texto que leu foi “A transformação do silêncio em linguagem e ação”, hoje publicado em Irmã Outsider. Como explica Ana, esse texto gira em torno da ideia de que o silêncio não protege o oprimido do sofrimento e que falar sobre isso é necessário, por mais que não seja fácil. “Ela fala de coisas do cotidiano e transforma em teoria. Isso é o que me chama muito a atenção nela”, completa, dizendo que leva o seguinte ensinamento de Audre como mantra: seu silêncio não vai te proteger.

Ana Claudino, a Sapatão Amiga: reflexões contemporâneas e inspiração em Audre Lorde. Foto: Ana Claudino/Arquivo pessoal

“Ler Audre Lorde, para mim, é como se eu estivesse conversando com uma amiga. Quando eu leio ela eu curo as minhas feridas, eu entendo muitas coisas do meu passado que, até então, me faziam sofrer. Eu não sabia o que eram essas coisas, eu não sabia nomear, mas eu já sofria com elas – e quando eu leio a Audre é como um despertar. Ela tem uma linguagem acessível e é muito esclarecedora em múltiplas questões. Até mesmo quem não é negra ou lésbica deveria ler, para poder compreender um pouco das nossas vivências e até mesmo ajudar com aliade nesta luta”, aponta Ana.

De fato, quem se debruça sobre os textos de Audre logo percebe que ela não apenas aponta o dedo aos que a oprimem. Acessível sem deixar de ser firme, ela fala sobre empatia, convida à reflexão e pede por união. “Como nos organizamos em torno de nossas diferenças, sem nega-las ou lhes dar proporções explosivas?”, disse ela no célebre discurso do Black Women Rising Together.

Infelizmente, um ponto crucial que resulta na atemporalidade da obra de Audre Lorde é o fato de que, ainda hoje, os grupos reunidos em prol de determinada causa social acabam sendo também agentes de opressão. O racismo segue presente nos movimentos feminista e LGBT, a LGBTfobia e o machismo seguem presentes no movimento negro, e por aí vai. “Infelizmente isso é muito atual em qualquer movimento, de as pessoas não entenderem que elas são potenciais opressoras. Por exemplo eu, mesmo sendo uma mulher lésbica, negra, gorda e cisgênero, eu posso ser transfóbica ou posso ser capacitista com alguém que é PCD. Ainda é importante falar sobre isso dentro dos movimentos, mas de uma forma didática, porque essas pessoas são frutos da sociedade e a sociedade é estruturada para ser racista, machista, LGBTfóbica e gordofóbica”.

Audre Lorde, em 1983, durante uma palestra na Flórida. Foto: Robert Alexander/Getty Images

Mesmo defendendo a ideia de que o silêncio precisa ser quebrado, Audre Lorde também era solidária com aqueles que não conseguem colocar isso em prática. Ela pautava a opressão não apenas em seus discursos e ensaios teóricos, mas também na poesia. Defendia a poesia como arma política, numa época em que isso era pouco difundido. “Escrevo sobretudo para aquelas mulheres que não falam, que não verbalizam, porque elas, nós, estamos aterrorizadas, porque fomos ensinadas a respeitar mais o medo que a nós mesmas. Fomos ensinadas a respeitar nossos medos, mas devemos aprender a nos respeitar e a respeitar nossas necessidades”, diz ela no texto “Minhas palavras estarão lá”, de 1983, em que fala sobre o que a motiva a escrever poemas.

A Sapatão Amiga conta que carrega consigo essa mesma motivação ao produzir seus conteúdos. “Nem todas as lésbicas, principalmente negras, podem sair do armário, falar na internet e dizer, assumidamente, que são lésbicas. Já que eu posso fazer isso, tô aqui para pautar questões por aquelas que não podem ainda, por algum motivo – risco de morte, risco de expulsão de casa, de perder o emprego, de perder a guardo dos filhos. São múltiplas as razões. E eu levo isso para a minha vida: alguém tem que falar”.

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