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Akashinga, a força de mulheres para preservar a fauna africana

Composto por mulheres vítimas de violência doméstica e em situação de vulnerabilidade, o grupo do Zimbábue tem a história contada em um documentário

Por Ana Claudia Paixão - Atualizado em 5 set 2020, 19h54 - Publicado em 5 set 2020, 18h54

Integrado por mulheres do Zimbábue, a força de segurança Akashinga (em tradução livre, Valentes) protege umas das principais populações de elefantes do mundo. O grupo foi criado pela Fundação Internacional Anti-Caça Ilegal (IAPF em inglês), que é articulada por mulheres vítimas de violência doméstica, em situação de pobreza e mães solteiras. Na fundação, elas enxergaram uma possibilidade de se apropriarem e usufruírem de suas forças pessoais, combatendo o crime contra a fauna.

As Akashinga são formadas por um treinamento militar e atuam com armas para proteção em caso de alguma eventualidade, mas a missão delas é aproximar a comunidade da importância de preservar os animais e os manterem longe da violência.

O resultado da conscientização dos moradores ultrapassa os benefícios com a fauna. Melhorias nos cuidados de saúde, desenvolvimento de habilidades, redução no abandono escolar, prevenção de crimes sexuais, aumento da expectativa de vida e diminuição das taxas de pobreza são alguns dos impactos positivos que as Akashinga promovem.

Damien Mander, fundador da IAPF e ex-soldado das forças especiais dedicado por uma década ao treinamento de guardas florestais no Zimbábue, diz que sua experiência na vanguarda da luta contra a caça ilegal na África o ensinou que a comunidade desempenha um papel fundamental: “ A população local tem um interesse especial em seu lugar de origem, sua casa. Estrangeiros, não ”, garante.

Para quem está dentro da comunidade, a percepção é a mesma. Nyaradzo Hoto, integrante do Akashinga, concorda com Mander: “Antes, todos aceitavam que os guarda-parques eram homens, mas quero mostrar que não existe trabalho que seja só masculino. O céu é o limite”. Desde que ingressou na Força, Hoto conseguiu retomar os estudos e hoje é estudante universitária em regime de meio período. Além disso, ela conseguiu comprar um terreno em sua comunidade.

Até o momento, o grupo tem mais de 200 integrantes espalhadas em mais de 186 mil hectares de reserva. De acordo com números da IAPF, por meio do projeto Akashinga a caça ilegal foi reduzida em 80% e a vida selvagem cresceu 350%.

A história da força de segurança articulada e alimentada por mulheres é contada no documentário Akashinga, que tem produção executiva do cineasta James Cameron e direção de Maria Wilhelm. Neste sábado (5), às 22h, a produção será estreia no canal da National Geographic. Para quem perder, há uma reexibição no dia 22 deste mês.

Em entrevista exclusiva a CLAUDIA, Damnien Mander e Nyaradzo Hoto contaram sobre o contexto social que o projeto nasceu e os impactos que ele promove para a comunidade.

Qual foi o impacto da Akashinga na sua vida?

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Nyaradzo: Este trabalho significou muito para mim porque, através da Akashinga, minha vida foi totalmente transformada. Sou um testemunho vivo hoje. Antes eu não pensava em animais, mas agora tenho uma forte paixão pela vida selvagem e pela natureza. Além disso, através de Akashinga, adquiri uma carteira de motorista, o que é um grande negócio para uma mulher rural africana. Consegui perseguir meus sonhos educacionais, sendo que desisti muitos anos anteriormente. Agora sou uma estudante em uma das Universidades no Zimbábue, cursando bacharelado em ciências em vida selvagem, ecologia e conservação. Também consegui comprar um terreno em nossa comunidade, não muito longe da escola, em que tinha sido forçada a abandonar anos atrás.

Como é o processo de recrutamento para Akashinga?

Damnien: O critério é de 18 a 35 anos de idade. Em seguida, entrevistamos sobreviventes de graves agressões sexuais, violência doméstica, órfãos da AIDS, mães solteiras, esposas abandonadas e profissionais do sexo, que morem em aldeias vizinhas. Em seguida, fazemos um período de seleção de 72 horas para seguir ao treinamento.

Como você se envolveu com o projeto?

Damnien: Quando iniciamos este projeto, sabíamos que estaríamos operando em um ambiente muito desafiador. O Zimbábue é classificado como um dos países mais corruptos do mundo, com 158 de 180 no relatório mais recente da Transparency International sobre corrupção global (180 é o mais corrupto). O Zimbábue também tem uma pobreza generalizada e severa: mesmo antes do colapso econômico mais recente, mais de 60% da população vivia abaixo da linha de subsistência, com cerca de 16% existentes caracterizados como “extremamente pobres”. A situação piorou significativamente desde que esses dados foram divulgados. O desemprego e o subemprego são generalizados, com mulheres e jovens afetados de forma desproporcional. Além disso, mulheres e meninas enfrentam discriminação de gênero significativa e obstáculos para o avanço em quase todos os setores da sociedade, sendo especialmente difícil para as mulheres rurais. E a Akashinga cria oportunidades de educação e emprego para elas, o que traz benefícios em cascata.

O que espera e deseja para o futuro?

Nyaradzo: Por meio deste programa anti-caça totalmente feminino, as mulheres africanas serão mais fortalecidas do que antes. E também como já conquistamos corações e mentes da comunidade para diminuir a caça furtiva em 80%, no futuro, esperamos uma caça ilegal de zero por cento em todo o mundo.

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