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Por trás da moda

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Renata Brosina é jornalista, host de podcast e editora de moda com foco em luxo e sustentabilidade. Com 15 anos de carreira e alguns títulos internacionais no currículo, ela é curiosa, gosta de entrevistar e vestir pessoas, e analisar as transformações que vêm acontecendo no mercado.

Anos 90 e liberdade: o legado transgressor da moda que ainda deixa tanta saudade

Dar um passo atrás e olhar para a moda dos anos 90 é lembrar de um tempo de liberdade criativa e transgressão (e sentir saudade)

Por Renata Brosina 15 out 2026, 15h31
Três pessoas posam para foto em evento. À esquerda, Kate Moss com tranças loiras e vestido preto e branco. Ao centro, um homem sorridente com chapéu de pele, óculos escuros pendurados no pescoço e camiseta rosa gorgeous. À direita, uma mulher com touca prateada e vestido floral.
John Galliano com Kate Moss na Semana de Moda de Paris em Primavera/ Verão 1994  (John van Hasselt/Getty Images)
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Houve um tempo em que a moda andava melhor. A reflexão vem de alguns dias em Londres, sobretudo pensando em uma exposição inaugurada agora em outubro na Tate Britain, intitulada The 90s: Art and Fashion. A mostra celebra a efervescência de uma época em que a juventude transformava suas ideias mais irruptivas em roupas e tendências. Para encurtar a conversa — como os britânicos também preferem —, esta foi, além da última década offline da história, o último suspiro de liberdade criativa e comportamental.

Uma época em que variados estilos coexistiram, que as cenas noturnas questionavam as passarelas e que jovens passaram a inverter, propositalmente, os códigos do que era certo e errado. Funcionou, por um tempo, levar pessoas comuns para desfilar, questionar a diversidade e os corpos — apesar de Kate Moss derrubar, com sua aparência frágil, a soberania das top models —, e fazer o público pensar além do look.

Em suma, até a virada do milênio, a moda foi próspera. Foi quando chegaram tendências que transformaram peças de luxo em algo efêmero, a diversidade saiu dos holofotes, produções artesanais ficaram antiquadas e os conglomerados de luxo abocanharam grifes cheias de autenticidade que precisavam de suporte financeiro. Até a sustentabilidade, que ensaiou roubar a cena em meados dos anos 2010, trazendo um sopro de esperança, não se sustentou…

Londres chama

Durante o processo de descentralização da moda parisiense na década de 1980, o Reino Unido já cultivava uma forte cultura de vestimenta vinda das ruas e da influência musical. Questionar os padrões do guarda-roupa deu origem a uma nova geração de estilistas prolíficos: Alexander McQueen, Hussein Chalayan e John Galliano foram nomes que desprezaram as regras que um estilista devia seguir para transformar a maneira como as roupas refletiam o espírito da juventude experimental, ousada e, até certo ponto, ingênua.

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Foram eles que cruzaram a fronteira para chegar à França e comandar na década seguinte duas das maiores maisons parisienses – Galliano primeiro, na Givenchy, sendo substituído por McQueen antes de chegar à Dior. As modelos do momento também eram britânicas: Naomi Campbell e Kate Moss.

Mulher negra sorridente, com chapéu preto e dourado, vestido preto de lantejoulas e alças de pérolas, ajustando um sapato de salto alto preto, apoiada em uma coluna de mármore em um ambiente luxuoso
Naomi Campbell vestindo look da coleção de Alta-Costura de Outono/Inverno 1996/1997 da Chanel (Stephane Cardinale/Getty Images)
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O manequim mudou

Se, nos anos 2000, os corpos estiveram à mercê do julgamento pela extrema magreza na passarela — dando luz a assuntos como distúrbios alimentares vividos no backstage —, modelos plus size começaram a aparecer em desfiles, campanhas e capas de revista. Parecia um grande divisor de águas. Entre as pioneiras desse período está Ashley Graham, que abriu caminho para uma série de outros nomes, como Paloma Elsesser e Jill Kortleve.

O movimento pressionou grifes a expandir suas roupas para grades maiores, mas logo regrediu. De repente, a moda plus size saiu de moda. Atualmente, poucas marcas mantêm uma ou outra modelo fora do padrão em seu casting e, quando isso acontece, costuma ser uma participação especial, reforçando a exceção de selecionar um corpo que não seja magro. O uso disseminado de análogos de GLP-1, aliás, também entra na conta: a redução de medidas causada pelo uso de medicamentos pode nos fazer deparar com etiquetas tamanho PPPP.

Modelo Ashley Graham desfilando com um espartilho preto transparente, calcinha preta, meias 7/8 com ligas e uma pequena bolsa preta com alça dourada. Ela tem cabelo castanho preso e maquiagem leve, olhando para frente com expressão séria em uma passarela iluminada
Ashley Graham no desfile da Dolce&Gabbana na temporada de Primavera/Verão 2024 (Daniele Venturelli/WireImage/Divulgação)
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Ficou no passado

Goste ou não do estilo maximalista de Alessandro Michele, ele tirou a moda do tédio. A sua primeira coleção para a Gucci, em 2015, nos sacudiu da complacência estética, mas não só. Ele aproveitava o palco da emblemática marca italiana para questionar a beleza, trazendo modelos que não respeitassem cartilhas e padrões.

O estilista mostrava à indústria que era preciso mudar e provocar esse choque. De fato, em sua gestão criativa, a grife se tornou vocal em pautas como sustentabilidade e inclusão e abraçou discursos para derrubar preconceitos. Outras marcas embarcaram nesse caminho. Até que veio a pandemia de COVID-19, e Michele saiu da marca.  Na substituição por Sabato De Sarno, tudo desapareceu como se fosse mero branding. As modelos voltaram a seguir os padrões, e  a  sustentabilidade… bom, o que é sustentabilidade mesmo? Com  a recente troca, de De Sarno para Demna Gvasalia, a grife mudou de novo — para longe das reflexões e atitudes que Michele costurou.

Duas modelos desfilam em passarela iluminada por luz vermelha. A da frente usa conjunto creme com listras vermelhas e azuis, botas vermelhas e faixa na cabeça. A de trás veste um vestido floral com corpete preto e óculos escuros grandes, com cabelo loiro volumoso. Pessoas na plateia filmam com celulares
Desfile de Primavera/ Verão 2017 da Gucci (Catwalking/Getty Images)
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50+

Matthieu Blazy, o estilista da Chanel, tem um apreço profundo por modelos acima dos 50 anos. Em seus tempos de Bottega Veneta, elegia algumas delas para seus desfiles e despertava admiração. Para seu show de estreia na maison francesa, em outubro de 2025, o franco-belga escolheu Stephanie Cavalli para compor o casting. Na temporada seguinte, repetiu. E ela se transformou em um símbolo dessa nova era da Chanel.

Mulher negra de cabelos crespos e grisalhos, vestindo um conjunto de malha preta com zíper dourado e botões, segurando uma bolsa marrom escura no ombro, em uma passarela escura com luzes douradas ao fundo
Stephanie Cavalli no desfile de Outono/Inverno 2026-2027 da Chanel (Kristy Sparow/Getty Images)
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A partir dessa referência, a moda passou a trazer novos rostos — e a resgatar modelos que tinham abandonado as passarelas por causa da idade — para quebrar o ciclo de etarismo que predominou por décadas. Nos red carpets, contudo, o movimento parece o oposto: celebridades acima dos 50 anos estão cada vez mais empenhadas em investir em procedimentos estéticos, para aparentar uma juventude nada natural, e na magreza extrema. Mais uma vez, a moda tenta desfilar na contramão… 

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