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Por que dívidas dos funcionários devem ser preocupação da empresa?

Saúde financeira, ou melhor, a falta dela, é uma das situações de maior impacto na vida das pessoas e, consequentemente, no trabalho delas

Por Natalia Lima Atualizado em 19 Maio 2021, 16h47 - Publicado em 26 Maio 2021, 12h00
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ue a pandemia da Covid-19 transformou o cenário econômico do nosso país e do mundo, não há dúvidas. Se, antes disso, o brasileiro já sofria com o endividamento e os juros pessoais altos, a pandemia exerceu um papel avassalador.

Temos uma taxa de desemprego recorde (13,5% em 2020) e um grande percentual de famílias com dívidas (66,3% em dezembro de 2020). Sabemos, por uma pesquisa recente*, que 64% dos brasileiros vivem no limite do orçamento, e que 52% deles não possuem uma reserva de emergência.

Como consequência das reações do Governo nos últimos meses e de termos uma população carente de planejamento e educação financeira, cresceu o medo de que o dinheiro não dure até o final do mês e também subiram as dívidas – na maioria das vezes, a única saída para garantir o sustento. Além disso, ainda que o funcionário tenha mantido o emprego, os gastos não planejados aparecem com maior frequência.

Essas dificuldades financeiras tão familiares a muitos de nós geram o que chamamos de estresse financeiro, condição que afeta a saúde mental e a produtividade. Do outro lado, as empresas, também impactadas pela crise, veem queda de perfomance e absenteísmo de seus funcionários.

Em pesquisa feita pela consultoria PwC no ano passado, 54% dos entrevistados afirmaram que a questão financeira é a principal causa de estresse para eles. Em 2019, 35% relataram que problemas com finanças eram motivos de distração no trabalho. Outro dado alarmante é que 49% dos funcionários que sofrem com problemas financeiros relatam gastar 3 horas ou mais, por semana, no trabalho, lidando com eles – o equivalente a 20 dias ao ano. Segundo um estudo de 2019 da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade, 87% das pessoas ouvidas usariam o 13º salário para quitar dívidas – número que cresce ano a ano.

Isso nos faz refletir sobre a responsabilidade do empregador, que tem a oportunidade de realmente fazer a diferença na vida de seus colaboradores. Não é apenas um ganho para a empresa, mas uma questão de empatia, visto que ele pode ser, naquele momento, a única fonte de auxílio de alguém do time.

Benefícios financeiros são agora, mais do que nunca, essenciais para que todos tenhamos mais tranquilidade e concentração. Permitir que alguém trabalhe sabendo que existem alternativas e também uma rede de segurança em casos de necessidade pode fazer toda a diferença – além de que, muitas vezes, não tem nenhum custo para a empresa.

Com essas questões tão relevantes, ganhou força uma linha de pensamento bastante popular em outros países: por que fazemos as pessoas trabalharem um mês todo (ou ano, no caso do 13º) para só depois receber seu pagamento? Por que não liberar para que cada um faça a gestão de sua renda proporcional ao trabalho exercido? Sabe aquela vez que você precisou de um valor no meio do mês e fez as contas para saber quantos dias faltavam até o pagamento do salário? E se desse para evitar isso? O sistema existente hoje na maioria dos lugares funciona como um financiamento ao empregador por parte dos seus colaboradores, via trabalho e salário. Esse modelo nem sequer é questionado.

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Conhecido como salário sob demanda, o benefício citado acima, com casos muito impressionantes, pode contribuir para a segurança financeira do colaborador, apresentar uma alternativa ao endividamento e também facilitar a organização pessoal de cada um – inclusive caso ele opte por não movimentar esse salário, se não houver necessidade ou vontade.

Pesquisas de empresas que fazem isso fora do Brasil, como a PayActiv, revelaram que o salário sob demanda permitiu que 38% dos colaboradores evitasse o pagamento de multas por atraso de contas, por exemplo, e 31% deles evitaram o pagamento de taxas de juros do cheque especial. O resultado também é visível no engajamento: 81% deles têm maior tendência a permanecer no emprego por causa do benefício.

Para mim, a empatia passa também pela saúde financeira. E concordam comigo 92% dos colaboradores que afirmaram que empresas que oferecem assistência de emergência financeira são mais empáticas, segundo outra pesquisa**. O estudo mostra também que 93% dos colaboradores estão propensos a continuar em uma empresa empática. Portanto, ao mesmo tempo em que ajuda, a companhia melhora o ambiente e garante a retenção de talentos.

O estresse financeiro é um problema unânime no Brasil de hoje, e já está afetando a saúde física e mental de muita gente. Há formas de ajudar, mas todas passam pela vontade de contribuir com o próximo e de buscar soluções viáveis – muitas vezes, elas estão mais perto e são mais fáceis do que imaginamos.

*Indicador de Bem-estar Financeiro do Brasileiro, CNDL/SPC Brasil e CVM, 2019 **The State of Workplace Empathy – Special Report, Businessolver, 2020

Natalia posa sorridente com os braços cruzados
Foto/Divulgação

Natalia Lima é CFO do Xerpay. Formada em finanças e contabilidade pela University of Virginia, nos Estados Unidos, tem mais de 10 anos de experiência no mercado de investimentos. Hoje, lidera a área financeira da startup, que oferece soluções financeiras e de benefícios para empresas no Brasil.

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