Lições para superar as dificuldades ao abrir seu próprio negócio

Quer virar empreendedora? Aproveite estas lições certeiras para superar as dificuldades mais comuns das mulheres que abrem o negócio próprio

Mulheres casadas, que, em geral, estão beirando os 40 anos, sonham com a independência financeira e passam a priorizar a flexibilidade na rotina de trabalho depois que têm filhos – configuração que dificilmente conseguiriam no ambiente corporativo.

De acordo com um levantamento de 2016 da Rede Mulher Empreendedora com 1,3 mil mulheres, esse é o perfil da maioria das brasileiras às voltas com a criação do próprio negócio. E 55% delas preferem não ter sócios.

Solitárias, no máximo com a ajuda do marido ou de um parente, elas acumulam funções: gerenciam a empresa, coordenam a produção, supervisionam empregados, atendem a clientela e cuidam do caixa, mesmo que não tenham intimidade com o assunto.

Fácil compreender por que os transtornos se acumulam, comprometendo o sucesso da empreitada – 14% não mantêm o controle financeiro, por exemplo. Tem mais: um terço das empreendedoras não fatura além de 2,5 mil reais por mês, a despeito de todo o esforço.

“O que mais atrapalha a maioria é exatamente a baixa confiança para gerir as finanças”, afirma Ana Fontes, consultora da Rede Mulher Empreendedora. “Elas também costumam ter menos acesso ao crédito do que os homens, já que seus negócios tendem a começar muito pequenos, sem tantas garantias para oferecer ao banco.”

Nos depoimentos a seguir, quatro empreendedoras, de diferentes ramos de atuação, compartilham questões reais, enfrentadas no início ou quando já contavam com algum tempo de estrada. Os dilemas foram analisados por consultores de negócios, que aqui apontam estratégias para vencer cada obstáculo.

Como formalizo o negócio?

 (Ricardo Corrêa/CLAUDIA)

Trabalhando em escritórios de arquitetura há uma década, Mônica Pellegrine, 32 anos, andava exausta da rotina corporativa.

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“A última experiência foi péssima. Desenvolvi síndrome do pânico e resolvi largar a carreira”, conta. Com pouco dinheiro, desistiu de tirar um período sabático e, há um ano, criou a marca de bordados Celeste, que vende peças feitas por ela e kits para clientes que prefiram bordar em casa.

“Elaborei tudo praticamente sozinha: logomarca, comunicação visual, fotos, redes sociais…” Ela também cuida das finanças, das vendas online, da participação em feiras e do atendimento aos clientes. Mas, até hoje, não formalizou o negócio. “Falta segurança. Não sei por onde começar, se a iniciativa pode mesmo dar certo”, explica.

O primeiro passo para qualquer empreendedor em estágio inicial, sugere Ana Fontes, é fazer uma radiografia de sua ideia. “Antes de fundar a empresa, estuda-se o que já foi lançado no setor e se existe demanda para aquele produto”, ensina.

Quando tiver confiança, a pessoa define o tamanho do negócio. Para formalizá-lo: a categoria mais simples, ideal para empresas com faturamento anual de 60 mil reais e um funcionário, no máximo, é a de microempreendedor individual (MEI).

A inscrição pode ser feita gratuitamente pelo Portal do Empreendedor. Paga-se apenas uma taxa mensal de até 52,85 reais e não é necessário ter contador.

Quem não se enquadra nas exigências do MEI pode se registrar como microempresa (ME) – o limite é de 19 funcionários e teto de vendas de 360 mil reais anuais. Paga-se imposto único, o Simples, com alíquotas de 4% a 16,93% do bruto, definido por tipo de atividade e faixa de faturamento.

Importante: microempresas devem obrigatoriamente contratar um contador, seja um profissional convencional ou uma plataforma que preste o serviço, como os sites Contabilizei ou Contador Amigo.

O que faço para lucrar mais?

 (Ricardo Corrêa/CLAUDIA)

Durante a gravidez da irmã, que se queixava de não encontrar lingerie adequada a gestantes, Natalia Pereira, 34 anos, enxergou uma oportunidade.

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Um ano depois, criou a Maya Lingerie, exclusivamente para grávidas, com comércio online e cinco revendedores no Brasil. Sem formação na área de administração de empresas, porém, Natalia se declara perdida diante de termos como balancete e fluxo de caixa. “Precisamos de força para crescer e passar a ter lucro”, diz.

Há diversos pontos a considerar, de acordo com Kanter. Convém começar pelo descarte de peças que vendem pouco e manter apenas aquelas que têm boa saída. Depois, calcula-se o preço de custo de cada uma delas, sem deixar nada de fora, da matéria-prima à mão de obra. Desse modo, pode-se descobrir onde enxugar os custos.

“O grande segredo é aumentar a margem de lucro, isto é, fazer o custo de produção ser mais baixo e maximizar as vendas”, afirma. “E testar se um pequeno aumento no preço afeta negativamente as vendas”, aconselha.

Outro ponto crucial é entender a gestão do capital de giro. “Não pode haver descompasso entre o prazo para pagamento da matéria-prima e o recebimento pela venda do produto”, explica.

Ele recomenda negociar prazo com o fornecedor para que os pagamentos sejam feitos em compasso com os recebimentos. Quando os lucros começarem a aparecer, avisa Ana Fontes, o momento é de reinvestir. “O foco migra para a busca de novos clientes. Se sobrou dinheiro, invista em marketing e divulgação.”

Como expandir minha área de entrega?

Às sextas-feiras, antes mesmo do amanhecer, Lygia de Luca, 33 anos, pedala até os armazéns da Ceagesp, em São Paulo, para comprar flores.

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Elas são a matéria-prima dos arranjos que a empreendedora monta e distribui, também de bicicleta, aos assinantes de sua floricultura, a Leve Flores.

As entregas são feitas em bairros vizinhos à região da Saúde, Zona Sul da cidade. “Tenho medo de buscar novos clientes, ampliar minha área de entrega e não dar conta de prestar o serviço com a mesma eficiência”, diz Lygia. Seu objetivo é continuar realizando a tarefa de bicicleta – é um meio de transporte sustentável e uma das marcas de seu negócio.

Quem planeja expandir o raio da área de atuação precisa se organizar. Definir um dia da semana para cada bairro é uma opção, aconselha Roberto Kanter, professor de marketing e empreendedorismo da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro.

Agora, se a demanda por entregas for diária, a saída pode ser firmar parcerias com serviços já estabelecidos, como as startups Eu Entrego, em São Paulo, e Courrieros, no Rio de Janeiro, sendo que a segunda também faz os trajetos pedalando.

De acordo com Kanter, informar o custo do frete separadamente é melhor do que agregá-lo ao preço final do produto. “O consumidor precisa entender os preços estipulados para o serviço. É mais transparente”, diz.

É hora de RENOVAR minha marca?

A Raul Duarte, loja de sistemas de som e imagem, localizada na Rua Sete de Abril, em São Paulo, foi fundada em 1947 pelo avô de Eliana, 54 anos, Patrícia, 50, e Fernanda Duarte, 49.

O empreendimento chegou às mãos da terceira geração em 1990, em um momento difícil. “Pegamos a empresa em crise e batalhamos por alguns anos para tirá-la da lama”, conta Patrícia.

Tiveram de cortar custos, vender bens da família, demitir funcionários e repensar os serviços ofertados. Deu certo. A marca cresceu, mudou-se para um showroom no bairro do Itaim Bibi e continuou a oferecer projetos personalizados, cada vez mais alinhados à tecnologia.

“Queremos sempre nos atualizar e inovar, mas sem deixar para trás nossa essência e a tradição criada pelo nosso avô”, diz Patrícia. Ainda hoje, são vendidos itens da época em que a empresa era gerida pelo patriarca, como o tocador de discos e o amplificador.

“Manter contato permanente com outros empreendedores e acompanhar as novidades do setor é fundamental para quem toca um negócio próprio”, lembra Fontes.

Isso inclui fazer cursos de inovação e empreendedorismo, frequentar feiras para conhecer os lançamentos do mercado e observar o que os concorrentes estão fazendo.

Para ir além: “Com base no entendimento do que é a marca e qual o seu diferencial, é possível direcionar mudanças”, diz a consultora. Isso também passa pelo marketing, chave para transformar a imagem da empresa e se reinventar, visando a ampliação do público-alvo.

Mas tradição, história e clientela fiel também são valores importantes e jamais devem ser deixados em segundo plano. Nesse caso, recomenda Fontes, explorar estratégias digitais e investir nas redes sociais torna-se essencial.

“Reputação vale ouro. Os clientes devem ser incentivados a compartilhar sua experiência positiva com a marca”.

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