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Diário De Uma Quarentener Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

Seja “mozão” de si mesma

No Dia dos Namorados, a colunista Juliana Borges só tem um desejo: que você viva o seu amor hoje, seja ele como for

Por Juliana Borges - Atualizado em 12 jun 2020, 17h23 - Publicado em 12 jun 2020, 17h13

São Paulo, 12 de junho de 2020

Dia dos namorados. No Brasil. Em outros países, a data é celebrada no dia 14 de fevereiro, dia de São Valentim. Mas dizem que as tradições da data remontam mesmo a festividades romanas, em que era celebrada a fertilidade pelos deuses Juno e Pã; deusa da maternidade e dos casamentos e deus dos bosques e associado à natureza. Já o bispo Valentim se opunha às decisões do imperador Claudio II, que determinava a proibição de casamentos nos períodos de guerra. Assim, continuava a celebrar casamentos às escondidas. Em sendo descoberto, foi preso e executado. Enquanto preso, recebia cartas de jovens dizendo ainda acreditarem no amor.

A data no Brasil é celebrada em 12 de junho por jogada comercial, criada pelo publicitário João Dória, proposta à véspera do Dia de Santo Antônio, mas convenientemente escolhida mais por ser um período em que o comércio, em geral, tinha queda de vendas. Em 1949, comerciantes iniciaram uma campanha de que amor não se provava só com beijos, veja você, e institui-se a data e o incentivo para que namorados troquem presentes.

Veja você. O amor como negócio. Prefiro a história de São Valentim e dos deuses Juno e Pã. Um corajoso defensor da união apaixonada; os outros celebradores da fertilidade e da natureza. E a gente sabe que época de fertilidade é época de “amor”, de conexão profunda com essa natureza do encontro e troca humana, de muito amor.

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Não namoro há algum tempo. E eu poderia escrever sobre os dramas da solteirice. Ou mesmo sobre os dramas dessa data no meu último namoro, já que tínhamos um oceano, literalmente, entre nós, o que acarretava os dois dias dos namorados, de 14 de fevereiro e o de 12 de junho, sempre pelo skype, já que nenhuma das datas são em períodos de férias que ambos tínhamos e temos. E, mesmo depois da gente perceber que só o nosso amor não bastava para a nossa relação, a gente preferiu não ficar longe, mesmo que delimitando como viveríamos esse amor. A gente continua com a tradição do skype nas datas, mesmo que seja para falar sobre o sexo dos anjos – no caso de hoje, sobre a pandemia e a angústia que sentimos por não podermos viajar, já que nós dois amamos viajar.

Eu também poderia falar das várias problemáticas que essa data nos faz refletir. Como sobre relacionamentos baseados em padrões patriarcais e racistas, com a construção e imposição de um modelo de mulher ideal como parceira: branca, magra, submissa, que releva a infidelidade porque, afinal, assim são os homens, e o que importa é que ele te deu flores. Não vou falar sobre isso, mas, amiga, aqui, brevemente, saia dessa. Ele não te merece, nem você merece essa situação. Também seria possível falar com você sobre os vários formatos possíveis de relações existentes, que não são apenas heteronormativas e que, em muitos casos, não vão poder celebrar a data de hoje como bem entendem porque existe essa sociedade afogada na hipocrisia.

Mas eu só vou desejar que você viva o seu amor hoje, seja ele como for. Não se prenda ao amor romântico, uma ideia tardia e que em nada tem de natureza humana. Essa ideia de outra metade da laranja é mito para dar alguma noção de existência ao humano, para servir a interesses outros, que não a nossa felicidade. Se você está aí com o seu mozão, enjoy it. Se você teoricamente está sem mozão, saiba que seu mozão é você mesma.

A ideia de mozão poderia ser ressignificada. Eu tenho vários mozões hoje. Meus melhores amigos são chamados de “mozii”, “more”, “mozão” e minhas melhores amigas de “amoras”, “mores” e assim por diante. Porque o amor não é sentimento para uma pessoa só. E a fertilidade não é apenas sobre produção de óvulos, espermatozóides e reprodução de bebês. A palavra, advém da latina “fertilĭtas”, ou seja, abundância. Uma fertilidade como capacidade de criação, de inventividade. Amor é forte afeição, que pode ser sexual ou não, porque pode ser zelo, admiração, afeto. Mas, também, tenta desprender essa noção de amor a outra pessoa que não você mesma. Esse pode ser o dia para se celebrar, para ser o mozão de você mesma. Um dia que você escuta as suas músicas favoritas, prepara um jantar especial para você mesma, faz o seu spa day. Se tiver um jardinzinho, vai compartilhar um pouco do seu amor com suas plantas, se tiver um cachorro ou gato, ou qualquer pet, pode passar o dia com ele/ela, já que bichanos adoram a companhia das suas tutoras. O importante é você fazer hoje coisas que ama e que te deixam satisfeita, feliz, zelosa com o seu corpo e sua mente, seus santuários. Se conecte com a você mesma. Seja seu próprio mozão.

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