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Crônicas de Mãe Crônicas de Mãe Por Ana Carolina Coelho. Feminista, mãe, escritora, poeta, dançarina, plantadora de árvores, pesquisadora e professora universitária

“Maternar não pode ser sinônimo de solidão”

A colunista Ana Carolina Coelho reflete como a maternidade ainda é vista, muitas vezes, como algo tão assustador e solitário

Por Ana Carolina Coelho 15 nov 2021, 10h53

“Eu não sou mais um neném, eu ‘sabo’ tudo!”. E com essa afirmação eloquente, minha filha mais nova começou a semana se arrumando sozinha. Naquele momento eu estava com os pensamentos no modo aleatório e fui arrebatada pela verdade daquelas palavras.

Crianças nascem com estima própria e coragem para explorar o mundo. E a medida entre o cuidado e a superproteção é muito delicada e complexa. É preciso saber a diferença entre ser as asas que permitem ampliar os horizontes de existência, deixar a criança voar e ser rede de segurança, em um oscilar muitas vezes insano entre podar e não interromper o inevitável florescer.

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Eu sou uma pessoa distraída e detalhista, o que é um paradoxo, uma vez que eu posso ignorar completamente um cartaz gigantesco na rua e, ao mesmo tempo, reparar que tem um livro mal encaixado na estante de uma loja a mais de cinco metros de distância. Então, muitas vezes essas pequenas cenas da vida marcam muito mais a
minha memória do que grandes eventos comemorativos.

Por isso a frase de minha pequena luz da manhã reverberou como despertador, uma música alta na madrugada dentro de mim. Como sou apegada aos pequenos gestos, prefiro as celebrações cotidianas, que nos últimos dois anos tem se tornado tanto um desafio, tamanhas as tragédias diárias que estamos enfrentando, quanto uma verdadeira declaração de resistência, como diria Gonzaguinha, “viver e não ter a vergonha de ser feliz, (…) na beleza de ser um(a) eterno(a) aprendiz”.

O tempo é inclemente e, para as mães, um exíguo artigo de luxo. No tênue equilíbrio entre todas as tarefas, funções e atividades rapidamente nos retiramos da equação para dar mais espaço para as crianças. E esse é UM dos erros que a sociedade ocidental nos ensinou sobre o maternar: fomos ensinadas de que devemos falar “Eu ‘sabo’ tudo!” e sermos as principais responsáveis pela criação.

Eu amo a autoestima das crianças pequenas e sua alegria em aprender, porque também é preciso muita coragem para admitir: “Eu não ‘sabo’ tudo, minha filha!”. E está tudo bem. Tudo. Bem.

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Quando eu mergulhava, lembro que uma das lições mais repetidas no barco era de que, caso nosso equipamento falhasse, nós deveríamos buscar a pessoa que era a nossa dupla e ela precisava nos segurar, manter o respirador com ELA e primeiro respirar para depois dividir o aparelho conosco. Para que possamos ser asas, observadoras e rede de segurança, ao mesmo tempo, precisamos EXISTIR primeiro.

Milhares de mães, ao longo da história, aprenderam que para maternarem precisam se sufocar, se sacrificar e lentamente desaparecerem. Por isso a maternidade é vista, muitas vezes, como tão assustadora e solitária. E para muitas mães, infelizmente, essa ainda é a realidade.

Maternar não pode ser sinônimo de solidão. Ninguém deve mergulhar ou voar sozinha, então porque cuidar de uma criança, algo muito mais complexo, árduo e constante tem que ser responsabilidade de um ser humano só?

Amaternar é essa parceria de carinho, respeito e muita confiança que deve começar entre as mães, as crianças e, revolucionariamente, entre as TODAS as pessoas da comunidade. É uma declaração de resistência a uma sociedade que prega incessantemente o individualismo.

Mães realmente não sabem tudo e aprendem a maternar na prática do cotidiano. Uma sociedade mais equilibrada e equitativa precisa urgentemente incorporar o amaternar, para que ele possa florescer de maneira coletiva e recíproca. É possível sermos melhores, sempre! Dias mulheres virão!

Vamos conversar?

Se quiser entrar em contato comigo, Ana Carolina Coelho, mande um e-mail para: ana.cronicasdemae@gmail.com ou mensagem pelo Instagram: (@anacarolinacoelho79). Será uma honra te conhecer! Quer conhecer as “Crônicas de Mãe”? Leia as anteriores aqui e acompanhe as próximas!

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