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O chá de Alice

Um conto da leitora Renata Baglioli sobre a triste realidade da agressão a mulheres e crianças

Por Renata Baglioli Atualizado em 5 mar 2021, 12h03 - Publicado em 6 mar 2021, 09h00

Ela se chamava Alice, tal qual a menina que morava no País das Maravilhas. Mas  o mundo dela não era exatamente uma maravilha. Ela não pediu para nascer e, como  ninguém a reivindicou, também ficou claro que sua mãe não havia pedido por isto.  

Renegada e relegada à sua insignificância, Alice vivia às sombras, procurando o  buraco, a toca do coelho. Sem amigos ou testemunhas, vivia cercada de bonecas  maltrapilhas. Servia-lhes o chá da tarde, papeavam e, quando olhava no relógio, era  hora de voltar ao mundo real. Seu padrasto logo chegaria em casa, bêbado, e bateria  em sua mãe, como de costume. Murmuraria alguma indecência para a menina, uma  baforada em seu rosto, e dormiria o sono dos culpados.  

Sua mãe não lhe acolheria. Era mais uma Maria, a Maria das Dores.  

Um dia ela decidiu se vingar. Rasgou o vestido gasto, bateu-se no rosto com o conto de Lewis Carroll, um safanão, e foi dar queixa na polícia. O padrasto foi preso.  Ainda trêmula, Alice retornou à casa buscando a aprovação da mãe. A Maria-de-todas-as-Dores não lhe perdoou, seu olhar atravessou a menina, a mãe nunca mais lhe dirigiu  a palavra.  

Alice descobriu, tardiamente, que a mãe não era o Chapeleiro que a menina desejava, estava mais para a Rainha de Copas. Não tardou em ordenar: “Cortem-lhe a  cabeça!”.

E foi assim que a menina Alice perdeu a cabeça. Não teve mais Chá de Bonecas, imaginação ou infância. A menina já nem mais lembrava de seu nome, se perdeu na vida  e não achou, sequer procurou, pelo tempo perdido. Ela sabia que nunca seria moradora  do utópico País das Maravilhas.  

A leitora Renata Barrozo Baglioli é curitibana, ex-advogada atuante e abrindo caminho pela escrita leve, atenta a novos olhares sobre as coisas.

@outrolhar_sobreascoisas

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