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Aos 41 anos, descobri que nunca mais poderia comer glúten

O que um diagnóstico de doença celíaca me ensinou sobre glúten, intolerâncias e todo tipo de modismo alimentar

Por Karin Hueck 15 ago 2026, 15h00
Pães e doces em uma vitrine de padaria, com croissants dourados em primeiro plano, um bolo escuro com cobertura branca e um pão com sementes de papoula ao fundo. Placas de identificação com nomes dos produtos estão visíveis na frente
Descoberta da doença celíaca aos 41 anos trouxe uma nova relação com pães, massas e outros alimentos com glúten (Oscar Wong/Getty Images)
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Aos 41 anos, descobri que nunca mais poderia comer glúten Priorizar nos meus resultados Google

O último ano da Segunda Guerra Mundial foi especialmente duro para os holandeses. Sob domínio nazista, o país passou por um inverno rigoroso, durante o qual os alemães dificultaram a chegada de alimentos. Pão e trigo sumiram dos mercados.

O resultado foi uma fome quase sem precedentes, em que a população passou a comer sopa aguada e os bulbos das famosas tulipas holandesas para sobreviver. Quase 20 mil morreram por inanição. Mas um pequeno grupo de crianças viu sua saúde melhorar nesse inverno de 1944.

Eram os pacientes do Dr. Willen Karel-Dicke, crianças e bebês que sofriam de uma misteriosa doença intestinal que os fazia agonizar com diarreia, desnutrição e feridas na pele. Apesar de famintas, elas pararam de morrer no último ano da guerra.

Pelo contrário, pareciam mais fortes desde que passaram a se alimentar de batatas esparsas e raízes. E, mais estranho ainda, voltaram a adoecer quando receberam de novo o pão chegado à Holanda no fim do conflito. Não demorou para o médico entender que era a farinha de trigo que as adoecia. Assim foi descoberta a doença celíaca.

Aos 41 anos, descobri que era celíaca

Pintura A Última Ceia de Leonardo da Vinci, com Jesus e os apóstolos à mesa. Sobre a imagem, um carimbo vermelho com a frase CONTÉM GLÚTEN
O pão nosso de cada dia nos dai hoje/ Perdoai-nos as nossas ofensas/ Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido –
Oração cristã Pai Nosso (Leonardo Da Vinci (Wikicommons)/Reprodução)
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Eu estava viajando a trabalho, me arrumando em um quarto de hotel na minúscula cidade de Villabuena de Álava, na Espanha, quando meus exames de sangue ficaram prontos. Colesterol no limite, vitamina D baixa. Nada disso era novidade. Até que cheguei a um tal de Anticorpos da Classe IgA Anti-transglutamina. Normal: até 20. Risco moderado: entre 20 e 30. O meu resultado apontava 189.

Enquanto me maquiava para o jantar, dei uma passeada pelo ChatGPT: “Com esse resultado, é quase possível fechar o diagnóstico de doença celíaca”.

Fiquei uns minutos olhando para a igreja medieval do lado de fora da minha janela, tentando lembrar tudo que sabia sobre essa sentença: algum tipo de mal misterioso que proibia a ingestão de farinha de trigo, cevada e malte, em qualquer quantidade, para o resto da vida.

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Coloquei o celular no bolso e desci para o restaurante do hotel. Pedi torradas com salada de tomate, uma massa recheada de camarão e uma torta basca. Ah, e um chopp. Comi daquela vez como se fosse a última. Praticamente foi.

Afinal, o que é a doença celíaca?

Ao contrário de outras restrições alimentares, a doença celíaca não é uma intolerância nem uma alergia: é uma doença autoimune, na qual o corpo ataca as células da mucosa do intestino delgado quando entra em contato com a mínima quantidade de glúten.

“O normal é a gente produzir anticorpos contra inimigos externos, como vírus e bactérias. Nas doenças autoimunes, acontece uma desregulação e a gente começa a produzir anticorpos contra nós mesmos. É como se o exército nacional, que deveria nos defender, começasse a atacar a população”, diz Debora Poli, gastroenterologista do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

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Como todas as autoimunes, a prevalência é maior entre mulheres.

Por que até uma pequena quantidade de glúten é um problema para celíacos?

Para o meu horror, logo descobriria que não é preciso dar uma mordida em um hambúrguer ou numa pizza para desencadear esse processo inflamatório — o grande risco para o celíaco é a contaminação cruzada: basta comer, por exemplo, uma batata que foi frita no mesmo óleo em que se preparou uma coxinha (empanada em farinha) para que aconteça a inflamação.

O resultado desse autoataque é um intestino poroso, incapaz de absorver nutrientes, que acarreta em desnutrição, diarreia, constipação, anemia, osteoporose, infertilidade e — já estava quase caindo da cadeira do consultório médico a essa altura — maior predisposição a alguns tipos de câncer.

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Para piorar, o glúten não “morre”, como vírus ou bactérias. Não: ele segue vivíssimo em todas as superfícies por onde passou, e só é possível eliminá-lo fisicamente, esfregando os objetos com minúcia.

Para seguir com a metáfora bélica, saí dos infinitos consultórios médicos por onde passei como uma soldada andando em campo inimigo. O glúten estava em toda parte. Na mesa de casa, onde minha filha havia comido um pãozinho que se esvaiu em milhares de migalhas invisíveis.

Na panela onde dias antes eu havia cozinhado macarrão. No ar, como me disse um gastroenterologista com quem me consultei: “O ideal seria trocar o seu forno. Também evitar entrar em padarias. Tenho uma paciente que construiu uma cozinha separada para si mesma para evitar o contato.” Pensei na minha única cozinha na minha única casa de espaço limitado e comecei a chorar.

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É claro. Não há ingrediente mais onipresente na cultura ocidental do que a farinha de trigo. Jesus não compartilhou um omelete com seus apóstolos antes de morrer: não, ele partiu o pão e fez dele seu próprio corpo, num gesto repetido por mais de um bilhão de católicos semanalmente há milênios.

Maria Antonieta mandou o povo comer brioches em vez de pão, mas ofereceu duas opções lotadas de glúten para aplacar a fome de seu povo. Comemos o pão que o diabo amassou, ganhamos o pão de cada dia, o pão nosso de cada dia nos dai hoje, onde se ganha o pão não se deve comer a carne, pão, pão, queijo, queijo.

Doença celíaca, alergia ou intolerância ao glúten: qual é a diferença?

Pintura de mulher camponesa derramando leite de uma jarra de barro em uma tigela, com pães em uma cesta e a frase CONTÉM GLÚTEN em vermelho sobreposta
Pão, Com farinha / Água / E fogo / Te levantas. /Espesso e leve, Reclinado e redondo, Repetes
O ventre da mãe – Pablo Neruda (Johannes Vermeer (Wikicommons)/Reprodução)

De acordo com a meta-análise New developments in celiac disease treatments, cerca de 1% da população é celíaca, ainda que mais de 80% desses passe pela vida sem sabê-lo. “Existe o que chamamos de iceberg celíaco. Só uma pontinha do iceberg corresponde aos pacientes que têm sintomas. Existe um monte de gente que não tem manifestação clínica evidente”, explica Debora Poli.

Era o meu caso: não sofro de sintomas digestivos, por exemplo. Ainda assim, algo misterioso começou a acontecer assim que passei a adotar uma vida sem glúten. Por onde eu andava, encontrava pessoas que alegavam “passar mal” de comer farinha de trigo.

Por que tanta gente se sente melhor depois de cortar o glúten?

Histórias de como haviam parado de comer pão e “desinflamaram” em poucos dias. Causos não solicitados de mal-estar, desarranjos e gases. Mas como, se menos de 1% da população sabe que é celíaca?

A questão é que há outras condições que podem ser tratadas ao se restringir o trigo. Existem pessoas de fato alérgicas a trigo (e não ao glúten, que é a proteína desse cereal). São pacientes com sintomas clássicos de alergia, como coceira, reações na pele e garganta fechada. Outras tantas são intolerantes.

“Na intolerância ao glúten, o paciente pode ter diarreia, distensão abdominal e gases, mas não existe uma doença autoimune. Os exames vêm normais, não há dano ao intestino e o diagnóstico é feito por exclusão”, me contou Lilian Curvelo, gastroenterelogista do Einstein Hospital Israelita.

E há, ainda, as doenças funcionais do intestino, como a síndrome do intestino irritável. Nela, o paciente sofre de constipação, gases e diarreia sem uma causa evidente, às vezes ligados à ingestão de alguns carboidratos de cadeia curta, os FODMAPs, na sigla em inglês.

São alimentos como feijão, repolho, maçã, cebola, lactose e, claro, farinhas (ainda que não o glúten em si). Cabe à pessoa descobrir quais dos inúmeros ingredientes da lista não lhe caem bem, não há uma regra universal.

Ao contrário dos outros males, porém, há um grande fator psicológico nessa síndrome: ansiedade, estresse e depressão estão diretamente ligados aos sintomas desse quadro, que acomete até 15% da população.

Ou seja, há um número grande de pessoas que não é celíaca, mas que se beneficia de uma dieta sem farinha. Seriam essas as pessoas que andavam cruzando o meu caminho?

O glúten realmente “inflama” quem não é celíaco?

Natureza-morta com jarra branca, taça, pão fatiado e frutas em uma fruteira, sobre uma toalha de mesa e móvel de madeira. Um carimbo vermelho com a frase CONTÉM GLÚTEN sobrepõe a imagem
O chão / O grão / O grão no chão / O pão / O pão e a mão / A mão no pão / O pão na mão / O pão no chão? Não – Cecília Meireles (Salvador Dali (Wikicommons)/Reprodução)

Sim e não. Há outras explicações para a legião de abstinentes ao pão que me cercava. Como tudo no mundo, a alimentação está sujeita a modismos: a atual mania por bater meta de proteína é apenas a mais recente delas. E como se esquecer da febre dos sucos detox ou da dieta paleolítica? Cortar o glúten ou a lactose sem indicação médica clara acaba esbarrando nesses comportamentos.

O glúten não danifica o organismo de quem não é celíaco. Mas quando alguém tira glúten e lactose da alimentação, acaba retirando também muitos alimentos ultraprocessados e reduzindo calorias. A pessoa emagrece, melhora a alimentação, come mais frutas, verduras e proteínas magras. Muitas vezes ela se sente melhor por causa desse conjunto de mudanças, e não porque o glúten fazia mal”, diz Lilian Curvelo.

Basta olhar ao redor: o número de iogurtes e queijos sem lactose disparou nos últimos dez anos. Com certeza, os intolerantes à lactose não surgiram apenas na última década.

O interesse é mercadológico também: produtos sem glúten, por exemplo, são em média 242% mais caros do que os tradicionais, de acordo com um estudo de dois supermercados norte-americanos. O desejo é o de respostas fáceis para problemas complexos.

“‘Estou inflamado’, por exemplo, virou uma explicação muito sedutora. É muito mais fácil alguém aceitar que está inflamado do que ouvir que precisa dormir melhor, fazer terapia ou reduzir a carga de trabalho”, diz Debora Poli.

O livro A Mentira do Glúten, sobre mitos alimentares, de Alan Levinovitz, explica a dificuldade em encontrar soluções absolutas pela comida.

“Provavelmente não existe ramo da ciência mais difícil ou complicado que a ciência da nutrição. Estudos de primeira linha sobre práticas alimentares são incrivelmente difíceis de conceber. Como se faz um placebo de bife para o grupo de controle? Estudos sobre o efeito da dieta e do estilo de vida em grandes populações não são menos difíceis. Eles dependem da memória e do autorrelato, dados inconfiáveis. E mesmo que os dados fossem confiáveis — bem, é só ajustar uma equação ou isolar um dado que, de repente, o vegetarianismo se torna ligado ao aumento da longevidade ou a diminuição da densidade óssea”.

No fundo, todo mundo sabe o que fazer para se manter saudável: praticar exercícios, comer grãos, frutas e legumes, evitar gordura, açúcar, álcool e alimentos processados. O básico que funciona. Você come algo que lhe faz mal? Fique à vontade, elimine-o da sua vida. Mas não será a solução para todos.

Viver sem glúten quando não existe escolha

No meu caso, queria muito que a restrição ao glúten não passasse de um capricho fugaz. A doença celíaca é a exceção à regra: não há meio termo. Cortar todos os traços de glúten da vida é como terminar um longo casamento. Tivemos 41 anos e incontáveis momentos felizes juntos.

A cada dia que se passa, uma nova memória com ele me alcança: a cerveja com os amigos de tempos de faculdade, o bolo que fazia para o aniversário dos meus filhos, um croissant numa viagem. Mas a saudade principal é a de sentar despreocupada à mesa e comer o que sentir vontade, sem pensar se uma infinitésima partícula de glúten tocou o meu prato.

Tal qual num casamento, sei que novos amores hão de surgir. Pressinto, porém, que o glúten vai se tornar aquele ex que jamais irei superar.

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