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Botox pode reduzir sintomas de depressão? Entenda o que a ciência já sabe

Estudos investigam a toxina botulínica para reduzir sintomas de depressão, mas especialistas reforçam que não é um tratamento

Por Ana Carolina Palermo 18 set 2026, 17h00
Uma mulher deitada, recebendo uma injeção facial de uma profissional com luvas pretas, que segura uma seringa e um algodão. A mulher tem cabelos escuros e está com os olhos fechados, em um ambiente claro
Toxina botulínica vem sendo estudada por seu possível impacto nos sintomas da depressão (Sum/Unsplash)
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Conhecida por suavizar rugas e linhas de expressão, a toxina botulínica também vem sendo estudada por um possível efeito inesperado: a redução dos sintomas da depressão.

Mas não se trata de qualquer aplicação, as pesquisas se concentram principalmente na região glabelar, entre as sobrancelhas, onde ficam músculos envolvidos no ato de franzir a testa, expressão associada a emoções como preocupação, tensão, tristeza e raiva.

“Quando aplicamos toxina botulínica nos músculos responsáveis por determinadas expressões da face, diminuímos temporariamente a atividade desses músculos”, explica a dermatologista Dra. Paola Costa, da Sociedade Brasileira de Dermatologia – Regional São Paulo (SBD-RESP)

Como o rosto pode interferir nas emoções?

Close-up em preto e branco do rosto de uma mulher com os olhos fechados e a cabeça levemente inclinada para trás. As mãos dela estão apoiadas nas laterais da cabeça, com os dedos tocando as têmporas. Ela usa batom escuro e cílios longos. A iluminação destaca a textura da pele e o brilho nos lábios
O rosto também pode mandar sinais de volta para o cérebro (Alexander Krivitskiy/Unsplash)

Uma das hipóteses estudadas é a do chamado feedback facial, segundo ela, a comunicação entre cérebro e rosto poderia funcionar nos dois sentidos: além de nossas emoções modificarem nossas expressões, os sinais enviados pela musculatura facial também poderia interferir na maneira como sentimos.

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“Ao reduzir com a toxina botulínica a contração de músculos envolvidos em expressões negativas, especialmente na região entre as sobrancelhas, esse sinal de retorno para o cérebro também poderia ser modificado”, explica Paola.

Para o psiquiatra Dr. José Guilherme Giocondo, fundador da Clínica Minerva e membro do corpo clínico do Einstein Hospital Israelita, a hipótese é biologicamente plausível, mas ainda não comprovada para um efeito antidepressivo.

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“A melhor síntese que temos sobre feedback facial em geral encontrou efeitos reais, mas pequenos e variáveis”, afirma. “É uma hipótese respeitável, ainda não uma explicação demonstrada.”

Estudos de neuroimagem também observaram alterações na atividade de regiões cerebrais ligadas às emoções, como a amígdala, após a aplicação da toxina. Isso, no entanto, não prova que o procedimento trate a depressão.

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“Evidência de mecanismo não é evidência de eficácia. Para falar em antidepressivo, o desfecho tem que ser clínico: o paciente melhorou?”, pontua Giocondo.

O botox realmente reduz sintomas de depressão?

Seringa de plástico transparente com agulha metálica, preenchida com grãos de café escuros, sobre um fundo rosa claro
Os resultados são promissores, mas ainda não conclusivos (Diana Polekhina/Unsplash)
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Um dos estudos que ajudaram a impulsionar essa linha de pesquisa foi publicado em 2012 no Journal of Psychiatric Research.

Conduzido por Axel Wollmer e colaboradores, o ensaio acompanhou 30 pacientes com depressão: 15 receberam toxina butolínica na região no meio das sobrancelhas e 15, injeções de salina como placebo.

Depois de seis semanas, a pontuação dos sintomas depressivos havia caído, em média, 41.7% entre aqueles que receberam a toxina, contra 19,2% no grupo placebo. 

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Paola destaca ainda um estudo com pacientes com blefaroespasmo, condição caracterizada por contrações involuntárias das pálpebras. Nesse caso, a melhora de sintomas de ansiedade e depressão continuou mesmo quando o benefício da toxina sobre os movimentos musculares já havia diminuído.

“Isso sugere que o benefício emocional talvez não seja explicado apenas pela melhora da aparência ou da movimentação muscular”, afirma.

Por outro lado, as evidencias concretas estão longe de serem conclusivas, Giocondo chama atenção para um ensaio com 255 mulheres, considerado um dos maiores e mais bem conduzidos sobre o tema.

Nele, nem a aplicação de 30 unidades nem a de 50 unidades da toxina foi superior ao placebo no principal momento de avaliação.

Para o psiquiatra, os dados disponíveis sugere um “efeito possivelmente real, mas pequeno e ainda não demonstrado de forma convincente.”

Autoestima também pode explicar a melhora

Mulher de meia-idade, cabelos loiros e lisos, vestindo camisa branca, colocando um brinco dourado na orelha direita, olhando para o lado esquerdo com expressão concentrada. Ela usa um anel no dedo anelar esquerdo e um relógio de pulseira preta no pulso esquerdo. O fundo é uma parede branca com um espelho retangular.
Se sentir melhor com a própria imagem também pesa nessa conta (Shoham Avisrur/Unsplash)

Outro desafio é descobrir quanto da possível mudança de humor estaria relacionada a ação da toxina e quanto seria consequência da própria experiência estética.

Melhora da aparência, satisfação com a própria imagem e percepção de uma expressão facial mais descansada ou menos tensa podem naturalmente repercutir no bem-estar e na autoestima da paciente”, explica Paola.

Esse efeito psicossocial não pode ser completamente separado de uma possível ação fisiológica com os estudos disponíveis atualmente, além disso, existe outro obstáculo: o efeito placebo.

Uma pessoa que recebe toxina botulínica percebe rapidamente que já não consegue franzir a testa da mesma maneira, o que dificulta esconder quem recebeu o tratamento verdadeiro durante uma pesquisa.

“Em poucos dias a pessoa percebe que não franze mais a testa, olha no espelho e sabe o que recebeu”, explica Giocondo. A expectativa de melhora pode influenciar os sintomas, aumentando o risco de viés nos resultados.

Botox não é tratamento para depressão

Apesar das pesquisas, os dois especialistas reforçam que a toxina botulínica não deve ser considerada um antidepressivo nem substituir tratamentos já estabelecidos.

Uma paciente não deveria procurar uma aplicação estética pensando que está fazendo um ‘tratamento para depressão”, alerta Paola. “Os estudos são promissores, mas ainda não podemos chamar o Botox de antidepressivo.”

Giocondo também alerta para o risco de usar a expressão “Botox antidepressivo” como estratégia de divulgação de clínicas de estética. “O cenário perigoso é quando o Botox substitui o tratamento.

Adiar ou abandonar antidepressivo e psicoterapia em favor de um procedimento com evidência frágil é um risco real”, afirma.

Antes que a toxina possa ser considerada parte do arsenal contra a depressão, ainda serão necessários estudos maiores, independentes e de longa duração, além de melhores estratégias para controlar o efeito placebo. Também será preciso descobrir se existe um grupo específico de pacientes que poderia responder melhor ao procedimento.

“Se a toxina tiver algum lugar na psiquiatria, será para um perfil específico de paciente, não para a depressão em geral”, conclui Giocondo.

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