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Fitsexual: o que significa e por que o termo viralizou

Entenda o fenômeno "fitsexual": quando a paixão por corpos definidos molda escolhas afetivas e pode impactar relações

Por Ana Carolina Palermo 20 ago 2026, 14h24
Mulher de cabelo cacheado escuro, sorrindo, exibindo bíceps e abdômen definidos, vestindo top listrado vermelho e branco, em ambiente interno com luz solar
Mais do que atração por corpos definidos, a chamada “fitsexualidade” levanta questões sobre desejo, validação e controle dentro dos relacionamentos (Reprodução/Pinterest)
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Abdômen definido, rotina de academia em dia, alimentação controlada e baixo percentual de gordura chamam a sua atenção? Para algumas pessoas, essas características podem ser apenas atraentes. Para outras, porém, funcionam quase como uma lista de pré-requisitos para considerar alguém um potencial parceiro.

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É dessa ideia que surge o termo “fitsexual”, popularizado recentemente nas redes sociais para descrever pessoas que colocam o shape e o estilo de vida fitness no centro de suas escolhas afetivas e sexuais. A influenciadora Karol Rosalin ajudou a espalhar a expressão ao relatar situações em que treino, dieta e aparência se tornam verdadeiros filtros na hora de escolher com quem se relacionar.

Existe amor depois dos esteroides? Será que estamos diante de um fetiche por corpos definidos? Não exatamente. Pelo menos não no sentido clínico da palavra. “Fitsexual” não é uma orientação sexual, muito menos um diagnóstico psicológico.

A provocação sobre o fetiche, no entanto, abre espaço para uma discussão mais interessante: quando alguém só consegue desejar determinado tipo de corpo, o que exatamente está desejando nele?

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Para Bruna Augusto Maiani, psicóloga com atuação voltada à psicanálise e ao desenvolvimento humano, olhar apenas para a atração física não dá conta de explicar a questão. “Na psicologia, pensamos que o corpo nunca é apenas um corpo. Ele também é um lugar de inscrição de desejos, ideais, identificações e da relação com o olhar do outro”, explica.

“Quando a aparência física passa a ocupar um lugar central na escolha amorosa, pode haver uma tentativa de encontrar no outro uma confirmação de determinado ideal de si. Neste caso, poderíamos nos perguntar o que está sendo buscado no corpo deste outro e o que esse outro representa psiquicamente para aquele sujeito”, completa a psicóloga.

É o corpo ou aquilo que ele representa?

Mulher loira musculosa, de perfil, usando top e calça pretos, pegando halteres em uma academia escura. Seu reflexo aparece no espelho à direita, mostrando seus braços definidos e abdômen.
O corpo fitness pode ser associado a ideias de disciplina, controle e sucesso (Scott Webb/Unsplash)
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Um corpo musculoso pode ser associado a muito mais do que músculos. Disciplina, autocontrole, juventude, sucesso, produtividade e até poder aquisitivo podem ser projetados sobre aquela aparência.

“A pessoa pode, por exemplo, buscar no parceiro alguém que represente disciplina, controle, juventude, sucesso ou perfeição, características que ela própria valoriza ou deseja”, diz a psicóloga. Portanto, a atração pode estar direcionada também ao significado atribuído àquele corpo — e não somente à aparência em si.

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Isso ajuda a entender por que compartilhar um estilo de vida não é necessariamente a mesma coisa que exigir determinado físico. Querer alguém que goste de correr, treinar ou mantenha uma rotina parecida pode facilitar a convivência. O problema começa quando essa compatibilidade passa a ser medida principalmente pela aparência.

“Ter preferência por alguém que pratique exercícios ou cuide da alimentação pode fazer parte legitimamente da escolha”, afirma. “A questão se torna mais significativa quando a exigência é muito rígida e a pessoa precisa corresponder a uma imagem muito específica para continuar sendo desejada.”

Uma pergunta pode ajudar a distinguir essas duas situações: “Eu desejo essa pessoa ou desejo a imagem que construí dela?”

Quando o parceiro vira parte da própria imagem

Mulher de cabelos longos e loiros, usando top e calça preta, e homem de camiseta cinza, pedalando bicicletas ergométricas em uma academia, com foco e determinação
Quando a aparência do parceiro também pode funcionar como forma de reconhecimento social (Reprodução/Freepik)

O corpo de quem está ao nosso lado também pode funcionar como uma espécie de cartão de visitas. Segundo a especialista, o parceiro pode assumir, mesmo que inconscientemente, a função de comunicar aos outros algo sobre quem somos — ou sobre quem gostaríamos de ser.

“Em uma cultura na qual aparência, desempenho e estilo de vida são constantemente expostos e valorizados, ter determinado corpo, determinado parceiro ou determinado padrão de vida pode funcionar como uma forma de reconhecimento social.” Nesse cenário, relacionar-se com alguém que corresponda aos padrões valorizados pelo próprio grupo pode proporcionar uma sensação de pertencimento, aprovação ou até status.

É justamente aí que a psicóloga chama atenção para um possível risco: “O problema aparece quando o valor do vínculo passa a depender fundamentalmente daquilo que o casal representa aos olhos dos outros.”

O que as redes sociais e o #GymTok tem a ver com isso?

Mulher musculosa de costas, com cabelo loiro preso em rabo de cavalo, segurando uma barra com pesos nos ombros, em preto e branco
No GymTok, corpos musculosos recebem destaque em conteúdos de treino e estilo de vida — e podem acabar associados a status, disciplina e sucesso (Sven Mieke/Unsplash)

Para entender por que o corpo pode ganhar tanto peso na escolha de um parceiro, é preciso olhar também para as redes sociais. No GymTok, comunidade fitness do TikTok, vídeos de treinos, dietas, transformações corporais e rotinas de academia colocam determinados físicos no centro de todo um estilo de vida.

“O sujeito não constrói seus ideais isoladamente. Somos atravessados pelo discurso social, pelos padrões de beleza e pelas imagens que circulam nas redes sociais”, explica Bruna.

Um estudo de 2026, “The Body as Status: Muscularity, Engagement, and Body Image Risk on #GymTok”, da University of California (UCLA), analisou vídeos da comunidade e observou que conteúdos com corpos mais musculosos tendiam a receber maior engajamento. A pesquisa discute justamente como a musculatura pode funcionar como um sinal de status dentro desse universo.

Isso ajuda a entender por que a atração pode estar não apenas no corpo, mas também naquilo que ele representa. “O parceiro pode ocupar, inconscientemente, um lugar que ultrapassa a relação afetiva e passa a representar algo sobre quem somos ou gostaríamos de ser”, diz a psicóloga.

Nesse contexto, o shape deixa de ser apenas uma preferência estética e pode se transformar também em uma forma de validação. “Ter determinado corpo, determinado parceiro ou determinado padrão de vida pode funcionar como uma forma de reconhecimento social”, completa.

Quando preferência vira controle

Um homem musculoso sem camisa, de shorts pretos, agachado, segura os pés de uma mulher de top branco e shorts pretos, que faz abdominais em um colchonete azul no chão da academia
Comentários sobre peso, alimentação e frequência na academia podem começar a se transformar em cobrança dentro da relação (Reprodução/Freepik)

O mesmo ideal usado para escolher um parceiro pode continuar operando depois que a relação começa. A princípio, treinar juntos ou incentivar o outro a manter hábitos saudáveis pode ser positivo. Existe, porém, uma diferença importante entre compartilhar uma rotina e fiscalizar o corpo de quem está ao lado.

“O controle pode começar pelo próprio sujeito, através de uma disciplina corporal muito intensa, e depois se estender à relação”, explica Bruna. Esse comportamento pode aparecer de maneiras que, isoladamente, parecem inocentes: comentários sobre ganho de peso, perguntas constantes sobre o que a pessoa comeu, cobranças para não faltar aos treinos, comparações com outros corpos ou elogios condicionados apenas ao emagrecimento e à definição muscular.

O sinal de alerta aparece quando esse suposto cuidado deixa de ser uma escolha e se transforma em cobrança. “Quando um parceiro começa a sentir que precisa corresponder permanentemente a determinado padrão para ser desejado ou aceito, a relação deixa de ser um espaço de acolhimento e pode se transformar em um espaço de avaliação”, afirma.

“É para a sua saúde” pode virar justificativa?

Mulher jovem, de perfil, com cabelo escuro preso em rabo de cavalo, usando top e calça preta, luvas e fones de ouvido brancos, agacha com uma barra nos ombros em uma academia
O discurso de “vida saudável” também pode esconder cobranças rígidas sobre alimentação, exercício e aparência (Reprodução/Freepik)

A questão se torna ainda mais difícil de identificar porque muitas dessas cobranças podem vir acompanhadas de um discurso aparentemente positivo: “Só quero que você se cuide.” Isso não significa, é claro, que pessoas muito ligadas ao universo fitness tenham transtornos alimentares — nem que ser “fitsexual” seja um transtorno. Não é.

A especialista alerta, porém, que comportamentos prejudiciais ou obsessivos relacionados à alimentação, aos exercícios e ao corpo podem ser racionalizados e até normalizados em nome da saúde. “Como ser saudável é algo visto como positivo, fica mais fácil buscar padrões estéticos, físicos e alimentares com essa ‘desculpa’ de ser saudável”, explica.

A diferença está no impacto que esses hábitos provocam. Existe liberdade para mudar a rotina? Faltar à academia representa apenas uma alteração de planos ou desperta culpa intensa? É possível comer de maneira espontânea? O corpo é cuidado pelo desejo de bem-estar ou porque perder determinada aparência parece significar perder valor?

Quando as respostas começam a envolver ansiedade, restrição, isolamento ou sofrimento, é importante prestar atenção.

E quem está do outro lado da cobrança?

Mulher de camiseta azul sentada na cama, pensativa, com um celular na mão e um travesseiro estampado no colo, enquanto um homem dorme ao fundo
Sentir que é preciso manter determinado corpo para continuar sendo desejada pode afetar a autoestima, a intimidade e a segurança dentro da relação (Reprodução/Freepik)

“Quando a pessoa sente que precisa manter determinado corpo, aparência ou desempenho para continuar sendo desejada, pode surgir o medo constante de não ser suficiente”, afirma a psicóloga. Em vez de simplesmente viver a relação, ela pode passar a monitorar constantemente a própria imagem.

Entre os sinais citados pela especialista estão evitar comer na frente do parceiro, esconder o corpo, fugir de momentos de intimidade, sentir culpa por não se exercitar ou interpretar comentários sobre a aparência como sinais de rejeição. “A pessoa deixa de sentir simplesmente que é desejada e passa a precisar provar continuamente que merece ser desejada”, explica.

Esse cenário pode comprometer justamente um dos pilares de uma relação íntima saudável: a possibilidade de relaxar e se sentir confortável diante do outro. “A intimidade pressupõe justamente a possibilidade de existir diante do outro como se é, sem precisar sustentar permanentemente uma imagem ideal”, completa.

O problema de fazer do corpo uma garantia de amor

Mulher de cabelos castanhos e compridos, vestindo top e calça marrons, sentada na cama com as pernas dobradas, olhando para a esquerda. O quarto tem luz suave, plantas e estantes com livros
Quando o corpo vira condição para o desejo, mudanças naturais de aparência podem ser vividas como uma ameaça ao vínculo (Reprodução/Freepik)

Existe também uma consequência menos evidente de critérios estéticos muito rígidos: tudo aquilo que deixa de ser considerado na escolha de um parceiro.

Disponibilidade afetiva, capacidade de diálogo, humor, cuidado, respeito, afinidades e a possibilidade de construir uma relação podem perder espaço diante de uma lista de exigências físicas. “O sujeito pode acabar buscando não exatamente um parceiro, mas alguém que corresponda a uma determinada imagem idealizada”, explica a psicóloga.

Isso não significa que a atração física seja irrelevante ou que seja possível escolher racionalmente por quem sentir desejo. “O desejo não é totalmente racional, ele também é atravessado por fantasias, identificações e expectativas inconscientes”, lembra.

A reflexão proposta pela especialista, portanto, não é abandonar as próprias preferências, mas tentar compreender por que algumas delas se tornam inegociáveis. Para quem percebe esse tipo de rigidez, ela sugere começar com uma pergunta: “O que esse corpo ideal representa para mim?”

A partir daí, outras questões podem surgir: Que pessoa acredito que me torno ao lado de alguém assim? O que me incomoda na possibilidade de estar com alguém fora desse padrão? O que imagino que os outros pensariam sobre mim? Por que preciso disso para me sentir bem?

Para Bruna, a discussão em torno dos “fitsexuais” passa justamente por perceber quando o corpo deixa de ser apenas uma parte do desejo e passa a funcionar como instrumento de validação, controle e até como condição para o amor.

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