O que fazer quando a libido do casal é diferente? Sexóloga explica
Profissional aponta possibilidades para lidar com diferenças sexuais de forma saudável e respeitosa
Desejo sexual é uma sensação muito particular. Há quem sinta vontade de se relacionar sexualmente algumas vezes por semana, quem prefira uma frequência menor e até quem passe longos períodos sem tanta necessidade. Mas o que fazer quando se está em uma relação em que os desejos do casal parecem seguir ritmos completamente diferentes?
“Hoje em dia, existe um grande mito de que, se não tem desejo, não tem amor. E uma coisa não tem nada a ver com a outra. A gente sabe que o sexo, o prazer e o orgasmo são totalmente biopsicossociais, ligados a muitos fatores da nossa vida. Então, é importante entender que o desejo dos dois nem sempre vai estar sincronizado na mesma intensidade e frequência”, afirma a sexóloga Tamara W. Zanotelli.
Só que, antes de tentar resolver a dois essa diferença de libido, talvez o mais importante seja entender o que está acontecendo individualmente. Isso porque o desejo sexual pode ser atravessado por questões emocionais, hormonais, físicas e até pela própria rotina.
Quando a falta de desejo vai além da relação
Entre os principais fatores, Tamara destaca a autoestima, especialmente entre as mulheres. Questões ligadas à autoimagem, à vergonha do próprio corpo, ao envelhecimento e a mudanças de peso podem afetar diretamente a forma como a pessoa se percebe e se sente durante a intimidade.
“Tudo isso acaba sendo uma questão por trazer uma certa vulnerabilidade”, explica.
Também não é difícil encontrar pessoas que sintam a libido afetada por fatores externos. Uma rotina extremamente cansativa, falta de privacidade para o casal, estresse, poucos momentos românticos e até a sobrecarga mental podem fazer com que, quando finalmente surge a oportunidade de se relacionar, a vontade simplesmente não apareça.
No caso das mulheres, ainda entram em cena fatores hormonais importantes. Puerpério, climatério, menopausa e as diferentes fases do ciclo menstrual podem interferir não apenas na intensidade do desejo, mas na forma como elas vivenciam o sexo.
Desejo ao longo do relacionamento
Também não é incomum encontrar casais que relatam mudanças na vida sexual conforme os anos passam. No início da relação, a novidade e a paixão costumam deixar o desejo mais evidente.
“No início de um relacionamento, a libido está mais ‘acesa’. É quando a gente está falando da fase da paixão, um coquetel de hormônios e neurotransmissores. E esses picos hormonais geram ali uma urgência erótica”, observa Tamara.
Só que, com o passar do tempo, essas sensações tendem a se acomodar. O desejo deixa de depender tanto da novidade e passa a ser construído também pela intimidade desenvolvida entre o casal.
“Já não tem mais a novidade física. Ela passa a ser alimentada pela intimidade emocional. Então, a pessoa precisa se sentir validada, se sentir compreendida pelo parceiro para se tornar mais erótica”, completa.
Como lidar com as diferenças de libido?
Quando se fala em diferença de libido, a questão não se resume apenas à frequência com que cada pessoa sente vontade de transar. Também importa entender a forma como o desejo sexual se manifesta.
Segundo Tamara, algumas pessoas têm o chamado desejo responsivo, que pode aparecer a partir de estímulos e aproximações ao longo do tempo. “Quem tem esse desejo, por exemplo, precisa parar de esperar a vontade surgir espontaneamente para buscar o parceiro. Pode aceitar iniciar um carinho, um beijo, uma massagem ou investir nas preliminares ao longo do dia”, orienta.
Em relacionamentos longos, também não há problema algum em planejar os momentos de intimidade. A ideia de que o sexo só é válido quando acontece de forma completamente espontânea pode acabar criando ainda mais pressão sobre o casal.
“Às vezes, tem que ser intencional mesmo, com acordos prévios, que podem ser tão ou até mais prazerosos quanto algo espontâneo”, pontua.
Outro ponto importante é conversar abertamente sobre as necessidades de cada um, sem transformar a diferença de desejo em uma disputa sobre quem está certo ou errado. O objetivo deve ser encontrar caminhos que funcionem para os dois. “Desde que as pessoas entendam que o foco não é sempre ganhar uma discussão, mas cuidar da conexão do casal”, destaca a sexóloga.
Ampliar o que se entende por intimidade
Essa negociação também passa por ampliar a ideia do que é uma relação sexual satisfatória. Nem toda intimidade precisa terminar em penetração ou orgasmo para ser válida. Tamara chama atenção para o que define como um “cardápio do prazer”, em que diferentes formas de contato podem ajudar o casal a manter conexão, mesmo quando os níveis de desejo não estão completamente alinhados.
Ao retirar o peso de que toda aproximação precisa obrigatoriamente terminar em sexo, o casal também abre espaço para outros tipos de prazer e afeto.
Quando procurar ajuda
Existem situações, porém, em que a diferença de libido deixa de ser apenas um ajuste entre duas pessoas e passa a se tornar uma fonte constante de sofrimento, estresse e afastamento.
“Quando as conversas sobre o assunto viram discussões frequentes, com ironias, acusações ou até um silêncio muito pesado, que começa a afetar outras áreas da relação, é um sinal de que vocês precisam olhar para isso com mais atenção”, alerta.
Outra bandeira vermelha surge quando o sexo deixa de ser associado ao prazer e passa a ser vivido como obrigação por uma das partes. Nesses casos, buscar acompanhamento profissional pode ajudar o casal a entender de onde vem esse desalinhamento, quais fatores individuais estão interferindo no desejo e como construir uma dinâmica mais confortável para ambos.
Afinal, ter libidos diferentes não significa necessariamente que existe falta de amor ou que a relação está condenada. O problema começa quando essas diferenças deixam de ser conversadas e passam a gerar mais sofrimento do que prazer.
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