“A Noiva!” faz no cinema o que Frankenstein nunca fez
Com direção de Maggie Gyllenhaal, o drama dá voz a personagens silenciadas e mostra o que acontece quando mulheres contam suas histórias
Ao contrário do que muitos acreditam, Mary Shelley não escreveu uma companheira para Frankenstein. A amada do monstro clássico da literatura surge apenas no cinema, no longa Noiva de Frankenstein, dirigido por James Whale em 1935.
Desde então, a personagem ultrapassou as telas e se tornou um ícone pop: virou fantasia de Halloween, referência estética em festas, decoração e até tatuagens. Foi justamente ao ver uma dessas tatuagens no corpo de uma desconhecida que Maggie Gyllenhaal encontrou o impulso para criar seu segundo filme: A Noiva!.
“Na obra de Whale, a atriz Elsa Lanchester causa um impacto enorme. Ela aparece por três minutos. Mas, sendo honesta, ela não fala. Não tem a oportunidade de se posicionar”, defende a diretora. “Eu pensei: o que acontece se você pega essa mesma história, mas dá a profundidade emocional, vulnerabilidade e poder à mulher?”
O resultado é um roteiro que transporta o espectador à Chicago dos anos 1930, onde um Frankenstein solitário (interpretado por Christian Bale) pede à cientista visionária Euphronious (Annette Bening) para criar uma companheira. O plano começa com a procura por um corpo íntegro o bastante para ser ressuscitado. Após uma intensa investigação, eles encontram Ida (Jessie Buckley – indicada ao Oscar de Melhor Atriz), uma mulher assassinada após enfrentar homens poderosos.
Dela nasce A Noiva, um oposto irreverente que dá início a uma cadeia de eventos que mistura amor, violência, transgressão e desejo. Apesar de dialogar com o horror gótico e a era de ouro de Hollywood, a narrativa fala diretamente com o tempo presente, trazendo à tona temas como identidade, liberdade e a urgência de se sentir vivo.
O longa tem um elenco estreladíssimo: conta também com Penélope Cruz e Peter Sarsgaard como uma dupla de detetives ávidos por caçar os monstros e Jake Gyllenhaal como um ator de cinema de época. “Quando você vive com uma artista, experimenta todas as fases da produção. Tenho uma relação diferente com o roteiro, mas sempre vou admirar a escrita da minha esposa”, conta Peter, casado com a diretora. “Ela realmente pensa sobre tudo o que quer escrever. É inspirador estar ao redor de alguém que trabalha assim.”
Intenso despertar
Longe de uma releitura, o drama reposiciona a personagem no centro – principalmente como alguém com autonomia. Ela não é mais uma criação passiva, mas uma presença política e incendiária. Um dos pontos altos é que a protagonista divide consciência com a própria Mary Shelley, que instiga uma revolução em suas ações.
Marcado para estrear em 5 de março, mês da mulher, a ficção traz cenas que provocam reflexões sobre uma sociedade que está longe de ser igualitária: quando são parados pela polícia durante uma perseguição na estrada, um agente pede para Ida descer do carro e virar de costas. Ao interrogá-la, apalpa todo seu corpo – causando um mal-estar dentro e fora das telas.
Dentro desse mesmo eixo, Myrna, vivida por Penélope Cruz, também funciona como um espelho das estruturas de poder que o filme tensiona.
Para a atriz, a força dela não nasce da ambição, mas da necessidade de sobrevivência: “Em um ambiente majoritariamente masculino, eles a olham como se ela fosse apenas a secretária que traz café e sanduíches”.
Ao longo da narrativa, porém, essa lógica se inverte. Enquanto seu par se mostra emocionalmente exausto, ela chega como alguém eficiente – e o que está em jogo é a necessidade de reconhecimento. “Acho que o filme tem muitas mensagens profundas, mas a busca por igualdade é o que me toca mais”, revela Penélope.
Outra parte fundamental da trama é a frase I would prefer not to (“Eu preferiria não”, em tradução livre), que atravessa toda a cinematografia na voz de Ida para evidenciar o quanto as mulheres sentem dificuldade em dizer não. “Acho que estamos tentando nos mover todos os dias para avançar as pautas de gênero”, pontua Jessie. “Mas acho que precisamos de uma nova revolução”, completa Maggie.
Paixão improvável
Logo de cara, fica evidente que Frank e Ida ocupam lugares opostos: ele é calmo, introvertido e parece querer alguém apenas para passar uma tarde no cinema – seu refúgio emocional. Ela, ao contrário, é confiante, destemida e está sempre pronta para correr riscos.
“Ao encontrar sua esposa, percebe o quão emocionante e caótica a vida real é. Por isso, prefere a visão dela sobre o que é amor e o que é vida”, afirma Christian Bale. “É aí que ele encontra a coragem dentro de si mesmo para entender seus poderes devastadores e não direcioná-los a coisas negativas.”
Um dos elementos que dá unidade à produção é a estética. Os cenários escuros, roupas com cores quentes – passeando entre preto e laranja – e maquiagem marcante são responsáveis por trazer o ar de suspense. Os espaços frequentados pelos monstros são sujos e frios, como se fossem realmente desumanos. Para definir como seria a heroína, Nadia Stacey, designer de maquiagem, pesquisou o que acontece com um corpo quando ele é eletrificado.
Ela descobriu que a pele, quando atingida por um raio, cria uma espécie de tatuagem gráfica que parece uma árvore. “Decidimos que o tipo de sangue dela seria quase preto. Ele contém matéria escura. É quase como a tinta com a qual Mary Shelley escreveu sua ficção. O respingo no rosto dela vem desse renascimento explosivo”, comenta Jessie.
A Noiva! se constrói como uma experiência sensorial que vai além da sala de cinema. A obra aposta em uma fotografia de época belíssima e uma atmosfera densa, ainda que com um certo humor, para abordar a fábula científica. A sensação de visitar o novo ponto de vista é profunda, desconfortável e, ao mesmo tempo, envolvente. Embora a diretora não defina um tom único, transitando entre o pop e o cult, isso não se torna um problema para a fruição.
“O percentual dos filmes feitos por mulheres no ano passado é muito baixo – mas é interessante que é justamente deles que estamos falando, o que me faz pensar que as pessoas estão interessadas em uma nova visão, em outra forma de mudar o mundo, em uma expressão diferente, em uma nova língua…”, comenta Maggie.
De fato, um estudo da Universidade do Sul da Califórnia aponta que a porcentagem de diretoras mulheres caiu de 13,4% em 2024 para 8,1% em 2025. Curiosamente, nessa temporada de premiações o destaque vai para Hamnet, de Chloé Zhao – que recebeu troféus no Globo de Ouro, no BAFTA e no Critics Choice Award, entre outros. “Todos sempre dizem querer algo novo. Bem, dê a câmera a alguém diferente que você vai conseguir”, completa Maggie.
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