Deepnudes e pornografia de vingança: o novo medo das mulheres online
O que diz a lei sobre fotos íntimas após o fim do amor — e o risco dos nudes de IA
“Enquanto a gente ainda estava junto, eu pedi para ele apagar nudes que enviei. Ele não quis”, conta a jornalista Diana*, de 26 anos, que já sabia que ia terminar o relacionamento quando fez o pedido.
Argumentou que tinha medo de ele ser assaltado, de alguém acessar as fotos e vídeos íntimos que haviam trocado. A resposta do companheiro foi direta: eram coisas dele também, e ele não ia apagar.
À reportagem da CLAUDIA, ela desabafa: “Quem vai ter a vida exposta caso o conteúdo vaze sou eu, não ele”.
A precaução de Diana se fundamenta em histórias como a da relações-públicas Gabriela dos Santos, 28 anos, que descobriu por uma amiga do ex que ele havia mostrado vídeos dela e ameaçava divulgá-los em grupos do Telegram.
“Foi como levar uma facada pelas costas.”
As duas nunca se conheceram, mas compartilham o mesmo peso: a sensação de viver sob ameaça invisível, mesmo depois do relacionamento ter acabado — e de serem punidas e expostas por escolherem viver sua sexualidade como bem entendem.
Sexting e vazamento
A pesquisa Adolescentes e o Risco de Vazamento de Imagens Íntimas na Internet, de 2019, realizada pela UNICEF e SaferNet, mostra que, entre as meninas de 13 a 18 anos que participaram do estudo, 35% já mandaram fotos ou vídeos íntimos a alguém; mais de 70% já receberam nudes e 80% já receberam pedidos de alguém para enviar nudes.
Patrícia Nogueira, ginecologista e sexóloga da clínica AMO, ouve histórias assim no consultório com frequência.
“Quando uma mulher envia um nude, não é só uma foto. É um corpo, um desejo, uma liberdade, uma sensação de confiança.”
Do ponto de vista sexológico, isso pode ser extremamente saudável — amplia a comunicação erótica do casal e permite que a mulher se veja em um lugar de potência, explica a especialista.
O problema é quando falta o essencial: “Só é saudável quando nasce do consentimento e da segurança emocional”.
Cerca de 10% das entrevistadas passaram por vazamento de imagens. Entre elas:
- 35% não contaram a ninguém;
- 31% falaram para uma amiga;
- 16% compartilharam o problema com alguém da família;
- 2% conversaram com docentes na escola.
Quando questionadas sobre como se sentiram:
- 80% disseram ter se sentido culpadas;
- 30% tristes e sozinhas;
- 26% cogitaram fazer algum dano ao próprio corpo;
- 3,8% mudaram de escola;
- 1% mudou de cidade.
Quando imagens íntimas viram arma
Embora o namorado de Diana nunca tenha ameaçado explicitamente divulgar o material — como fez o de Gabriela —, a própria negativa de apagá-lo configura uma violência.
A advogada Mônica Villani, especialista em Direito Digital, explica que “o consentimento para gravar e armazenar as imagens durante o relacionamento não deve ser considerado permanente”.
Com o fim da relação (ou a qualquer momento), a autorização pode ser revogada.
Manter as mídias contra a vontade da mulher viola direitos de personalidade como intimidade, privacidade e imagem, protegidos pela Constituição Federal e pelo Código Civil, esclarece a especialista.
A recusa em apagar o material pode, inclusive, justificar uma ação judicial.
Para além desses dois mecanismos, a legislação brasileira oferece outras proteções:
– o artigo 218-C do Código Penal tipifica como crime a pornografia de vingança;
– o artigo 147-B criminaliza a violência psicológica contra a mulher;
– a Lei Maria da Penha pode enquadrar o compartilhamento não consensual de imagens íntimas como violência psicológica;
– o Marco Civil da Internet obriga provedores a removerem imediatamente conteúdo de nudez ou ato sexual privado divulgado sem consentimento.
Confiança e vulnerabilidade
No começo do relacionamento, Gabriela enviava fotos para “apimentar a relação e criar conexão”. Confiava porque ele também mandava, o que parecia reciprocidade.
A ficha caiu quando lembrou que o ex-companheiro guardava fotos de ex-namoradas.
“Ele mesmo me mostrou, com naturalidade. Pensei: se fez isso com outras mulheres, por que faria diferente comigo?”
O medo relatado por Diana e Gabriela é do tipo que se instala no corpo inteiro. Patrícia explica que esse pavor causa insônia, ansiedade, sensação constante de ameaça.
“O corpo deixa de ser território de prazer e vira território de vigilância.”
Gabriela confirma: “Afetou meu sono, minha autoconfiança, meus relacionamentos. Até hoje tenho dificuldade em confiar e me entregar emocionalmente.”
Essa hipervigilância ativa regiões cerebrais ligadas ao estresse. “A dopamina cai, o cortisol eleva, a excitação vai para baixo”, explica Patrícia.
Socialmente, os efeitos são perversos. “O machismo faz com que o corpo feminino seja, ao mesmo tempo, consumido e moralizado. O homem que recebe nudes é valorizado. A mulher que envia é julgada. O vazamento vira espetáculo, mas a vergonha cai só sobre ela.”
Gabriela teve medo de contar para a família. “Achei que iam me julgar como ingênua. Carreguei essa culpa sozinha por muito tempo.”
No relacionamento, muitas vezes cedia em momentos em que não se sentia confortável. “Achava que, se eu dissesse não, ele perderia o interesse.”
E quando a imagem nunca existiu?
Mas e quando o nude não veio da própria mulher — e nunca sequer existiu?
Ferramentas de inteligência artificial, como o Grok, da xAI de Elon Musk, têm causado polêmica por permitir a criação de imagens falsas de pessoas reais (deepfakes), incluindo nudes (deepnudes).
Diferentemente de outros geradores de imagem, o Grok não impõe filtros rígidos de segurança, o que facilita a produção de conteúdo sexual falso a partir de fotos cotidianas publicadas pelas vítimas, com um agravante: a ferramenta está dentro de uma rede social, tornando seu compartilhamento irrestrito.
Não existe uma lei que fale, especificamente, de divulgação de imagens íntimas criadas por inteligência artificial, contudo, “embora a tecnologia seja recente, a proteção jurídica não depende da veracidade da imagem, mas da violação aos direitos da retratada”, explica a advogada Mônica Villani.
A criação ou compartilhamento de imagens íntimas geradas por IA sem consentimento pode ser enquadrado como conduta criminosa, e a mulher segue protegida pelos direitos de personalidade — imagem, honra, intimidade e privacidade — previstos na Constituição Federal, no Código Civil, no Código Penal e na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
“Juridicamente, o foco não está na origem da imagem, mas no resultado da conduta: a exposição sexualizada não autorizada da vítima”, explica Mônica.
Há aproximação conceitual entre o deepfake e o revenge porn porque o impacto à dignidade da mulher é equivalente, ainda que a tecnologia utilizada seja diferente.
A advogada reforça que a simples criação não consentida de uma imagem íntima já configura violação de direitos.
“O temor e a angústia gerados na vítima pela mera existência desse conteúdo já são suficientes para caracterizar o abalo psicológico.”
Ao descobrir nudes de IA com sua imagem circulando ou sendo ameaçados de divulgação, os passos são os mesmos de um vazamento real: preservar provas, lavrar ata notarial, registrar boletim de ocorrência e buscar apoio jurídico.
Caminhos para seguir em frente
A recuperação é possível, mas é preciso paciência durante o processo.
“Reconstruir não é esquecer, é ressignificar”, explica Patrícia. “Primeiro vem o acolhimento — alguém dizer que ela não é culpada. Depois, a tarefa de voltar para o corpo aos poucos.”
Gabriela está nesse caminho.
“Me fechei um pouco para proteger minha paz. É o que consigo fazer para seguir respirando.”
Sua relação com intimidade digital mudou completamente. “Não envio mais nada, não permito gravações. Vivo em vigilância constante.”
A prevenção, segundo a ginecologista, começa com diálogo.
“A intimidade digital também precisa de conversa. Vale estabelecer combinados — o que cada um se sente confortável de enviar, como as imagens serão armazenadas, se devem ser apagadas depois. Falar de limites não estraga o clima, fortalece a confiança.”
“Quando falamos de internet, sempre temos que partir do princípio de que nada é 100% seguro” — Ana Maria Guimarães, advogada especialista em Privacidade e Proteção de Dados.
Como produzir e armazenar nudes com mais segurança
O que funciona:
→ Celular protegido por senha forte e atualizado
→ Pastas com senha ou biometria separada
→ Evitar fotos que identifiquem a pessoa
→ Armazenar apenas no aparelho
→ Criar e-mail separado para nuvem
→ Pedir para apagar na frente
→ Ferramentas como StopNCII e Take It Down
O que é mito:
→ “Apaguei da galeria, estou tranquila”
→ “Mensagem com visualização única é segura”
→ “Nuvem protege 100%”
9 sinais de que seu parceiro tem vergonha de você
Assine a newsletter de CLAUDIA
Receba seleções especiais de receitas, além das melhores dicas de amor & sexo. E o melhor: sem pagar nada. Inscreva-se abaixo para receber as nossas newsletters:
Acompanhe o nosso WhatsApp
Quer receber as últimas notícias, receitas e matérias incríveis de CLAUDIA direto no seu celular? É só se inscrever aqui, no nosso canal no WhatsApp.
Acesse as notícias através de nosso app
Com o aplicativo de CLAUDIA, disponível para iOS e Android, você confere as edições impressas na íntegra, e ainda ganha acesso ilimitado ao conteúdo dos apps de todos os títulos Abril, como Veja e Superinteressante.





