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4 relatos de mulheres “volunturistas” para você se inspirar

Elas decidiram usar o tempo livre para ajudar outras pessoas. E voltaram para casa com uma bagagem de experiências enriquecedoras

Por Roberta Tinti - Atualizado em 12 dez 2017, 17h15 - Publicado em 11 nov 2017, 09h39

Conhecer lugares diferentes, mudar de ares, descansar e se embrenhar em aventuras inesquecíveis certamente estão entre os motivos que fazem das viagens algo prazeroso. Mas há outras razões para sair de férias: as humanitárias.

As viagens de volunturismo, como são chamadas as jornadas que permitem conhecer de perto a realidade dos outros, dão oportunidade para vivenciar vários tipos de experiência. Por dias, semanas ou meses, o turista pode ajudar uma comunidade a promover mudanças estruturais ou simplesmente conversar com pessoas que passam por um momento delicado.

“Nos últimos seis meses, notei um aumento de 30% na busca por programas de trabalho voluntário. As pessoas estão mais conscientes em relação aos problemas que acontecem pelo mundo e querem colaborar”, diz Rosana Lippi, gerente da agência Student Travel Bureau (STB).

Os depoimentos a seguir mostram que conciliar o desejo de conhecer culturas distantes e se solidarizar com o próximo pode render momentos enriquecedores — e fazer o voluntário voltar para casa de coração cheio.

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Filme real

A roteirista e documentarista Silvia Castro, 35 anos, queria sair da zona de conforto. Foi quando a ideia de fazer trabalho voluntário conquistou a mineira de Belo Horizonte. “A primeira viagem foi para o Haiti, em 2016, quando organizei um crowdfunding para ajudar orfanatos que, seis anos depois do terremoto, ainda precisavam de ajuda”, conta.

Sua última experiência foi em abril, com a agência Volunteer Vacations, quando passou 12 dias em um campo de refugiados em Zahlé, na fronteira do Líbano com a Síria. Ela pagou cerca de 10 mil reais, valor que cobriu todas as despesas e orientações profissionais para realizar o trabalho, e ficou hospedada em um alojamento da ONG local Família Aziz, enquanto ajudava na instalação de lâmpadas feitas de garrafas pet.

O maior desafio para ela, porém, foi lidar com as próprias emoções. “Chorei em vários momentos. Foram histórias fortes com as quais eu me envolvi. Por outro lado, isso me aproximou ainda mais de quem eu tentava ajudar. No fim, todos saímos fortalecidos.”

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Silvia Castro com crianças do campo de refugiados em Zahlé, Líbano Acervo pessoal/CLAUDIA

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Conexão africana

A pediatra Juliana Pontes, 40 anos, de Uberlândia (MG), não esperava que a viagem para Moçambique, em 2011, seria a primeira de 12. Um ano depois, ela criou a ONG Missão África, que leva profissionais de saúde e de outras áreas para que atuem como voluntários na província de Sofala.

Durante a viagem, que custa em média 6 mil reais por pessoa, os grupos ficam na casa de uma família brasileira amiga de Juliana. “Apesar de ampla, não tem chuveiro nem água encanada. Mas é o que menos importa”, diz.

Além do atendimento médico, eles dão orientações sobre saneamento básico, higiene e empoderamento feminino. “As dificuldades são muitas. Os homens se consideram donos de mulheres e crianças, se recusam a usar preservativo e a violência doméstica é aceita.”

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Os voluntários convivem com dramas comoventes, como o de uma menina portadora do vírus HIV que conviveu com eles por 10 dias, até falecer. Não por acaso, Juliana já viu muito voluntário pensando em desistir antes do fim da viagem. “O que nos motiva a juntar o dobro de forças é pensar que, pelo menos por um dia, fazemos a diferença.”

Juliana Pontes atende crianças em Sofala, Moçambique Acervo pessoal/CLAUDIA

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Aqui e lá fora

Uma das idealizadoras da Volunteer Vacations, a empreendedora carioca Mariana Serra, 31 anos, voluntaria desde os 12 ao lado de sua mãe e já viajou para países como Quênia e Índia, onde trabalhou em orfanatos e com moradores em situação de rua.

Recentemente, ficou tocada pelo projeto da ONG Boutique de Sonhos, que ajuda artesãos de Acauã (PI). Em 2016, juntou 1 435 reais e partiu para a cidade por cinco dias para trabalhar na reforma do local de trabalho dos sertanejos. “Foi enriquecedor em vários aspectos, sobretudo, porque conheci suas histórias”, conta.

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A rotina era puxada. Ficamos hospedados em um hotel bem simples e acordávamos cedo para pegar o pau de arara. Trabalhávamos juntos dos moradores. Conversamos, rimos e criamos vínculos. Você se apaixona pela sensação de bem-estar e sempre quer mais”, diz ela.

A experiência de anos no voluntariado já ensinou Mariana a lidar com suas expectativas. “No começo, queremos alterar por completo a realidade daquelas pessoas. Mas, na verdade, a mudança vem com o tempo. Hoje, administro mais facilmente as frustrações.”

Mariana Serra (que segura a placa à esquerda) com outros voluntários em Acauã, Piauí Acervo pessoal/CLAUDIA

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Ensinar e turistar

O volunturismo nem sempre expõe o turista a situações extremas. Foi o que comprovou a psicóloga Renata Adriano, 53 anos, mineira radicada em Goiânia. Ela já fazia trabalho voluntário em sua área em escolas públicas brasileiras, mas queria mais.

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No início deste ano, partiu para Chiang Mai, na Tailândia, onde deu aulas de inglês para crianças de 3 a 6 anos junto com professores locais. “Foram 15 dias de muito aprendizado. Me impressionaram o nível da educação no país e a infraestrutura das escolas públicas. Ao observar o que era feito lá, pensava o tempo todo no que poderíamos melhorar no Brasil”, explica.

Com cerca de 8 mil reais e auxílio da STB, Renata comprou as passagens aéreas, se hospedou em um alojamento com outros voluntários e teve orientação sobre os costumes locais.

Depois dos dias de trabalho, aproveitou para “turistar” pela região e ficou encantada. Mas o que mais a marcou na Tailândia foi mesmo a gentileza com que a tratavam na escola e a disposição de todos para aprender e ensinar. “É preciso abrir o coração. Agora que aprendi o caminho, sei que não vou mais parar.”

Renata Adriano e dois de seus alunos tailandeses Acervo pessoal/CLAUDIA
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