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“Pequenos gestos que fazem uma grande diferença”

A convite de CLAUDIA, André Fran, um dos integrantes do programa ‘Que Mundo É Esse?’, da GloboNews, fala sobre o desafio de mostrar a verdade por trás de locais e culturas desconhecidos ou mal representados na mídia. Foi no Quênia que ele se surpreendeu com o "grandioso" projeto da ONG Living Positive, Vivendo Positivamente, da “Mama” Mary Wanderi

Por André Fran - Atualizado em 28 out 2016, 04h32 - Publicado em 29 abr 2016, 09h17

“Desde o início de 2009, tenho como hobby e profissão rodar o mundo acompanhado de grandes amigos para produzir programas de viagem para a TV. Inicialmente com o “Não Conta lá em Casa” (Multishow), onde mostramos o perfil de países polêmicos, perigosos e pouco conhecidos dos turistas brasileiros, como Afeganistão, Iraque, Somália ou Coréia do Norte, e mais recentemente com o “Que Mundo é Esse?” (GloboNews), que tem o objetivo de mergulhar a fundo em algumas das histórias mais impressionantes deste louco e maravilhoso mundo moderno. Gostamos de acreditar que, mais do que um projeto de trabalho, nossos programas tem uma função social. Queremos mostrar a verdade por trás de locais e culturas desconhecidos ou mal representados na mídia, quebrar paradigmas, destruir preconceitos e mostrar que é possível fazer a diferença em algumas das principais causas de nosso tempo. Ora, se quatro amigos que queriam viajar e mudar o mundo podem dizer hoje que conheceram presidentes de nações em guerra, participaram de missões de paz da ONU, de expedições humanitárias em catástrofes naturais… qualquer um pode dar a sua contribuição. Ano passado, com a primeira temporada do “Que Mundo É Esse?”, fomos conhecer os Curdos, maior povo do mundo sem sua nação. Encaramos a linha de frente da guerra contra o Estado Islâmico e, há pouco mais de um mês, voltamos de uma viagem pela África onde passamos por Gana, Senegal e Quênia em busca de boas notícias. Indo na contramão da visão tradicional acostumada a mostrar uma África de sofrimento e mazelas ou de tribos e animais selvagens, resolvemos conhecer as pessoas e projetos que estão colocando a mão na massa e transformando a face do continente.
 
Em Gana, fomos direto ao maior lixão de produtos eletrônicos do mundo. Local tóxico e fétido que recebe os rejeitos do consumismo que o mundo desenvolvido despeja de forma ilegal na África. Mas o objetivo era mostrar a “gana” do povo local e as iniciativas empresariais de vanguarda que são exemplo em termos de reciclagem e sustentabilidade. No Senegal, conhecemos o projeto da Grande Muralha Verde, uma iniciativa conjunta de 11 países africanos para conter o avanço do impiedoso Saara. Um projeto grandioso que envolve reflorestamento, educação ambiental e agricultura sustentável, mas que vem obtendo extremo sucesso graças à paixão com que os senegaleses conduzem essa luta diária contra a seca, a pobreza e a fome no deserto. Ainda no Senegal visitamos os cientistas que estão sendo reconhecidos mundialmente pelo sucesso na luta contra outro grande problema africano: as epidemias de Ebola, Zika ou Chicungunha. Mas foi no Quênia que nos deparamos com um dos mais singelos e ao mesmo tempo efetivos projetos que conhecemos na África. E justamente quando fomos abordar uma das mais terríveis mazelas do continente: a AIDS.

Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal

Apesar dos avanços mais recentes, a AIDS segue como um dos grandes problemas do continente africano. São dezenas de milhões de mortos desde a descoberta da doença. Em determinado momento, 70% dos casos de AIDS do mundo estavam na África. As conseqüências disso deixaram marcas profundas até hoje. O Quênia chegou a ter três milhões dos seus 30 milhões de habitantes infectados pelo vírus. O governo local, em um misto de desespero e ingenuidade, chegou ao absurdo de sugerir que seus cidadãos “deixassem de fazer sexo por dois anos”, tempo que eles julgavam suficiente para diminuir a expansão do vírus. Mas algumas iniciativas pessoais, pequenos projetos de pessoas engajadas e solidárias, mostram que pequenas atitudes podem operar grandes diferenças.

A ONG Living Positive, Vivendo Positivamente, da “Mama” Mary Wanderi, fica em uma casa humilde mas muito bem cuidada no topo de uma colina de um dos bairros mais pobres de Nairóbi, e trabalha com mães solteiras infectadas com o vírus HIV/ AIDS. Essas mulheres eram tratadas como párias em suas comunidades devido ao preconceito com a doença. Eram abandonadas pela família, maridos, perdiam seus empregos, eram expulsas da comunidade e muitas vezes tinham que abrir mão de criar os próprios filhos. Para quem, como eu, imaginou a “Living Positive” como um espaço triste e pesado: ledo engano. Fomos recebidos com beijos e abraços, passamos nossos dias acompanhando as diversas tarefas profissionais e o tempo todo irrompiam cantorias e danças que nos pegavam de surpresa e nos rodopiavam pelo salão. A Mama, criadora e responsável pela LP, é uma senhora de seus cinquenta e poucos anos, ligeiramente acima do peso e com um sorriso que permanente no rosto e uma risada fácil que contagia a todos a sua volta, ela atuava como assistente social no orfanato de uma comunidade carente. Quase todos os dias recebia crianças abandonadas por mães soropositivas que foram desenganadas pela família e até médicos locais. Ela percebeu que essa equação que separava mães abandonadas e filhos órfãos não fazia sentido. Decidiu então largar tudo e dedicar sua vida a ajudar essas mães e suas crianças. Hoje, são centenas de mulheres que recebem tratamento médico, aconselhamento psicológico, treinamento profissional e muito, muito carinho de sua querida “Mama”. Ela diz que parte do processo é reconhecer o outro como pessoa. Simplesmente estender a mão, oferecer um abraço e um sorriso. Isso faz toda a diferença para essas mulheres que chegam a “Living Positive” deprimidas e abandonadas, mas encontram um pouco de amor que as transforma em lindas guerreiras africanas.

 

Arquivo Pessoal
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Agora pare para pensar: se o debate sobre empoderamento feminino, que felizmente cresce a cada dia no Brasil e no mundo, ainda encontra reação na sociedade, imagine a luta da doce Mama em seu trabalho diário para empoderar mulheres, mães solteiras, com AIDS, em comunidades carentes, em um país africano. Para nós que tentamos fazer de nosso projeto pessoal uma ferramenta para fazer a diferença, a Mama e seu projeto são verdadeiros exemplos. Exemplos práticos de como podemos e devemos encarar os maiores problemas. Exemplo que os africanos seguem nos dando diariamente”.

Texto escrito por André Fran (@andrefran), um dos integrantes do programa ‘Que Mundo É Esse?’, da GloboNews.

* O programa ‘Que Mundo É Esse?’ com o episódio especial sobre o Quênia vai ao nessa sexta-feira, dia 29, às 23h.

 

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