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Quarentena faz com que o número de divórcios cresça no Brasil

A convivência diária e a mudança nas prioridades são os principais fatores que levam à separação nesse período

Por Maria Clara Serpa (colaboradora) - Atualizado em 6 jul 2020, 15h52 - Publicado em 6 jul 2020, 09h00

Laura* e seu (agora ex) marido estavam juntos há 6 anos – contando o tempo de namoro e casamento -, mas decidiram que era o momento de se separar no 3º mês de isolamento social no Brasil. O que já seria difícil em qualquer circunstância, ficou ainda pior com a dificuldade de locomoção e de separação das casas. Assim, por mais ou menos um mês, eles estavam separados, mas ainda assim vivendo no mesmo apartamento de apenas um cômodo. “Foi difícil, mas não tinha o que fazer, ele não ia conseguir alugar um apartamento no meio da pandemia. Como não houve uma briga muito grande, foi sustentável, mas todos os dias eram um exercício de paciência”, explica a administradora.

O ex-casal faz parte de uma parcela que cresce diariamente, os casais que resolvem se divorciar em meio à pandemia. O Brasil segue o que já vem acontecendo no resto do mundo, inclusive em locais onde a flexibilização da quarentena já chegou efetivamente, como na Europa e Ásia. Na cidade de Xiam, na China, país onde o vírus surgiu, não havia mais horários disponíveis para tratar do divórcio em escritórios locais do governo por mais de um mês, segundo informações do jornal The Global Times. Houve também registros de uma procura acima da média por formulários de divórcio em cartórios de outras províncias chinesas.

Aqui, os números são menos concretos. Há quem diga, inclusive, que o número de separações não aumentou, já que a procura pelo processo judiciário de divórcio foi 43% menor em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com dados da Central Notarial de Serviços Eletrônicos Compartilhados (CENSEC). Porém, ao que tudo indica, as pessoas estão evitando entrar na justiça por enquanto, mas estão se divorciando informalmente cada vez mais conforme os meses de isolamento passam. Segundo um levantamento da revista Pais & Filhos, a busca por consultoria de advogados para separações cresceu 117% em comparação ao ano passado. Diversos escritórios de advocacia especializados também registraram aumento nesse tipo de serviço. Não há como negar: além de mexer com todos os aspectos de nossas vidas, a pandemia também conseguiu afetar os relacionamentos.

As buscas por termos relacionados a “divórcio” no Google também aumentaram 9900%. Segundo a psicanalista e professora de Psicologia da PUC-PR, Ana Suy Sesarino, a convivência tem uma grande culpa no aumento de números de separações. Especialmente para casais que trabalhavam fora e agora estão em home office, é muito difícil passar o tempo todo junto, especialmente em um momento de tamanho estresse. “Estamos vivendo uma aceleração do tempo. Tudo está mudando muito rapidamente – seja o método de ensino, a forma de consumir e até a maneira de se relacionar. A convivência extrema, ouvir a pessoa a todo momento, sentir seu cheiro o tempo todo pode desgastar a relação e culminar em um término”, explica. Para Ana, a mudança na maneira como vemos o mundo é outro ponto que pode ser determinante para o fim das relações.

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“Nós estamos convivendo com a morte muito de perto e isso faz com que a maioria das pessoas repensem suas vidas. Nossas prioridades estão mudando, algumas coisas que tolerávamos antes passamos a não suportar e o que era extremamente importante para nós pode não ser mais. É um período em que não dá para fingir que nada está acontecendo. Então, pode ser que muita gente já não estava feliz e só precisava desse último pontapé ou então que a relação deixou de ser uma prioridade em sua vida”, afirma a psicanalista.

No casamento de Laura, ela sente que houve uma junção dos fatores. “Começamos a discutir muito por causa de tarefas domésticas. Eu não suportava mais ver algumas coisas que ele fazia e me sentia sobrecarregada, mas, depois que parei para pensar, percebi que ele já era daquele jeito e já fazia tudo aquilo, mas eu ignorava. Com a convivência diária e os nervos à flor da pele devido a toda a situação caótica do mundo, eu fui ficando cada vez mais irritada com pequenas coisas e ele também. Eu tomei  a iniciativa, nós conversamos e decidimos que era melhor nos separarmos antes que brigássemos feio”, conta ela. A questão da divisão das tarefas domésticas como Laura relatou é um dos maiores motivos de briga entre casais nos meses de convivência intensa na quarentena, junto com divergências na criação dos filhos e questões financeiras.

No Brasil, há dois tipos de divórcio. O consensual, em que ambas as partes estão de acordo e pode ser feito diretamente com o cartório, de forma rápida e prática, e o litigioso, quando há discordância entre as partes, o que leva uma delas a acionar a Justiça. Nesse caso, o processo pode levar anos para ser concluído. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 70% desses pedidos foi iniciado pela mulher, em casos de uniões heteroafetivas.

O pedido parte mais das mulheres muito provavelmente porque elas têm que fazer jornadas duplas ou triplas em seu dia a dia e, em grande parte das vezes, não contam sequer com ajuda do parceiro. Boa parte das brasileiras têm que trabalhar fora para garantir o sustento da casa, cuidar dos afazeres domésticos e, em casos em que há filhos, cuidar das crianças. Com a pandemia, os papéis se misturaram ainda mais e, junto ao agravante de agora também ter que ajudar os filhos a acompanhar as aulas à distância, as mulheres estão completamente esgotadas física e mentalmente.

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Haverá arrependimento?

A discussão sobre o aumento dos divórcios na quarentena levantou diversos questionamentos. Há quem diga que boa parte desses casais vai se arrepender quando o mundo voltar ao “normal” e desejarão retomar o relacionamento. Alguns casais, inclusive, se arrependeram ainda no meio do processo e perceberam que estavam passando apenas por uma crise passageira devido ao estresse, mas que, na verdade, queriam continuar juntos.

Para Ana Suy, os casos de arrependimento após o fim da quarentena não serão muitos. “Não dá para prever o que vai acontecer com esses casais, afinal, não sabemos nem o que será do nosso futuro. Estamos vivendo uma realidade muito híbrida, mas eu arriscaria dizer que não haverá tantas voltas ou arrependimentos depois. Passar por um divórcio é algo muito difícil e é ainda difícil na pandemia, em que estamos todos fragilizados. Eu acredito que a pessoa tem que ter muita clareza para tomar uma decisão drástica como um divórcio nesse momento, então acho que se ela fez, ela está certa do que quer”, afirma a psicóloga, que também disse que, em geral, as pessoas pensam por um ano antes de tomar a decisão.

Laura, mesmo ainda sem ter entrado com o pedido de divórcio no cartório, acredita que a decisão tomada por ela e seu ex-marido foi a correta e que não haverá volta. “Não houve recaídas nem no período em que estávamos na mesma casa. Percebemos que não era mais pra ser, a quarentena foi só o empurrão que faltava. Mantemos uma boa relação e até conversamos às vezes, afinal, vivemos anos juntos e estamos passando por um momento difícil, mas só isso. Esperamos manter apenas a amizade”, diz a administradora.

Como tornar o processo menos doloroso

O divórcio é um período difícil e dolorido na vida de qualquer um, independentemente da maneira como o casamento terminou, mas há maneiras de tornar o processo um pouco mais leve. Durante a pandemia, alguns casais se separaram, mas tiveram que viver na mesma casa por mais algum tempo, como aconteceu com Laura, e isso abala um pouco o processo de desligamento do casal, afinal, muitas vezes, há a necessidade de se afastar por completo. Se esse for o caso, será um período difícil. O mais importante é exercitar a paciência e tentar ao máximo manter a privacidade e individualidade de cada um. Por mais que seja complicado, talvez valha a pena tentar buscar outro lugar para ficar, aproveitando a flexibilização do isolamento.

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“Caso consigam ir para casas separadas, é um pouco mais fácil. A separação física é mais simples do que a separação subjetiva. Ou seja, sair de perto é simples, mas conseguir aceitar a ideia do divórcio na cabeça é muito complicado. Por isso, a pessoa tem que estar determinada a superar, mesmo dividindo o mesmo teto. Tenha em mente que essa situação vai passar e invista na separação subjetiva, faça planejamentos e programas sozinhas mesmo em casa”, explica Ana.

Em casos de casais que têm filhos, uma separação na quarentena pode parecer mais complicada ainda, mas Ana afirma que os pais não devem se preocupar demais com isso. A psicanalista diz que somente o necessário deve ser dito para as crianças, de maneira clara e fácil. “As crianças, assim como todo mundo, estão em um momento difícil, com mudanças na rotina e em precariedade de laços sem os amiguinhos da escola. Não é necessário dar detalhes de nada, apenas explicar o básico. Além disso, há uma tendência da mãe usar a criança como um desabafo, já que estamos sem ver muita gente. Não faça isso, porque pode tornar tudo ainda mais difícil para seu filho. Ligue para uma amiga ou familiar para conversar”, finaliza.

*Nome trocado a pedido da entrevistada

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