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Quando o mal vem de casa: o que fazer quando um familiar é tóxico

CLAUDIA contou a história de uma jovem que precisou cortar o 'cordão umbilical' e buscar sua autonomia

Por Colaborou: Esmeralda Santos Atualizado em 17 fev 2020, 10h18 - Publicado em 21 jan 2020, 10h00

“Sempre que acontecia alguma coisa legal e que qualquer pessoa ficaria feliz, ela não ficava”. Foi o que disse Fernanda* 20 anos que não quis se identificar, estudante de jornalismo sobre o relacionamento conturbado com a sua mãe.

É dentro do ambiente familiar onde aprendemos a nos relacionar e desenvolvemos a nossa personalidade. Boa parte das pessoas entende que esse convívio nem sempre é fácil. Existem desentendimentos que são normais, entretanto, há situações que ultrapassam o que pode ser natural.

“Por ser uma pessoa mais velha ela sempre foi muito durona, mais fechada. Nosso relacionamento sempre foi difícil e conturbado. Ela tinha algumas falas preconceituosas, mas sempre busquei entender porque ela viveu em uma época diferente, mas acabávamos discutindo”, relatou a jovem.

A psicóloga Lívia Marques explicou que, é necessário entender o cunho dessa toxicidade familiar. “Precisamos contextualizar a fala e a vida de cada pessoa. Dizemos, por exemplo, que a mãe negra não é afetuosa porque sempre precisou ser forte. Ela não aprendeu sobre afeto e falta carinho na relação, mas ela não poda os sonhos dos filhos e não deixa de incentivá-los”, explicou. “Já nos casos tóxicos, você percebe que essa mãe vai desmotivando o filho e há um prazer dela em o colocar pra baixo. Existe algum ganho por parte dela, e precisamos perceber que tipo de ganho possui quando ataca afim de afetar”.

Fernanda contou que a desmotivação por parte de sua mãe é até com coisas pequenas. “Todos os sonhos que eu tinha, ela não ligava e tentava me diminuir para fazer com que eu me sentisse mal”. Lívia explica que, quando existe esse tipo de satisfação, “falamos de um perfil narcisista, que olha somente para si”.

  • A forma como encara o mundo também muda a partir desse intimidade (ou falta dela), e todas as experiências vividas dentro dessa relação refletem no círculo social dos filhos. O caso de Fernanda não é o único e existem vários pesos diferentes de uma relação familiar tóxica.

    “Esses traumas são repassados de geração para geração. Acabamos aprendendo essa crença de desvalor e desamor, os pais são espelhos e aprendemos sobre isso, reproduzimos na nossa vida”, contou a psicóloga, que segundo ela, existem alguns caminhos para quebrar os chamados “traumas hereditários”, e um deles é a psicoterapia.

    “A psicoterapia ajuda a trabalhar as habilidades sociais e emocionais e, além disso, ela cria formas de resignificar esses encontros com essa mãe. É preciso refletir nos ataques que a mãe faz e pensar em formas de defesa, não no embate direto”, explicou Lívia.

    Fernanda refletiu sobre a situação e percebeu que o convívio com seu pai era diferente. “Ela me comparava com outras pessoas e me colocava contra os meus irmãos, criando situações. Às vezes eu ficava triste por motivos pequenos, comecei a perceber que com meu pai era totalmente diferente, ele sempre me apoiou, nunca senti isso da minha mãe”, disse a jovem.

    Não há diálogo, apenas ataque

    Essa é a principal característica de uma relação familiar tóxica. O pouco diálogo ou até mesmo a falta dele mostra que, o desejo de resolver os conflitos não existe. “Eu comecei a ficar mais quieta, sempre fui de conversar, brincar com todos em casa. Mas essas situações me deixavam cada vez mais triste”. Os ataques eram cada vez mais frequentes, e já estavam deixando traumas que, aparentemente eram irreparáveis.

    “Quando ela estava se separando do meu pai, fez de tudo para prejudicá-lo também. Ele ficou preso por 15 dias por causa de pensão, mas isso só aconteceu por causa das coisas que ela forçou a mim e a minha irmã a falar. Eu só tinha 10 anos na época, o tempo passou e eu pude me aproximar do meu pai e descobri que ele entrou em depressão depois desse episódio. Isso foi muito difícil de encarar, me machucou muito”.

    “A pessoa narcisista carece de empatia e as coisas só funcionam se for do jeito delas. Adoram ter a atenção do outro, porém as vezes de forma manipuladora e usam da chantagem emocional para conseguir o que desejam”, explicou a psicóloga.

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    “Enquanto conversávamos sobre meu aniversário, ela começou a falar mal do meu pai. Contou que ele pediu para abortar quando ela estava grávida de mim, e que deveria ter escutado o que ele disse”, a situação que Fernanda viveu gerou uma crença de inadequação, segundo a psicóloga Lívia. “Ela começa a se sentir desvalorizada e questiona se de fato é merecedora de afeto, tanto familiar quanto fora desse círculo. Essa crença traz não só a autoestima baixa física, mas pessoal também, como indivíduo que ela é”.

    O convívio com sua mãe ficava cada vez mais complicado, então a ajuda profissional foi um dos caminhos tomado por Fernanda e com esse auxílio, ela começou a entender o que de fato estava acontecendo. “Quando comecei a terapia, minha psicóloga abriu meus olhos e me fez perceber que não era um relacionamento normal ou saudável entre mãe e filha. Ela nunca me aconselhou a tomar nenhuma atitude, mas sempre me fazia entender o que era melhor”.

    É preciso cortar o cordão umbilical  

    “Comentei uma vez que eu queria ir morar com o meu pai, e ela disse que se eu fosse, ela morreria e eu também, de remorso”, relatou Fernanda, que já pensou inúmeras vezes em se afastar de sua mãe, mas não consegue.

    Os problemas familiares não podem e nem devem ser os seus, Lívia explica, que, por mais difícil que seja, o principal passo é romper o ciclo vicioso de agressões psicológicas. “Quando começa a perceber a toxicidade desse familiar, ela precisa resignificar sua própria existência”, afirma a psicóloga, ou seja “Precisa identificar o que nos faz sofrer para começar a alterar o comportamento, a dar uma nova resposta para essa situação“.

    “É preciso cortar esse cordão umbilical e empoderar-se com o auxílio profissional para que esse rompimento não seja de forma tão brusca e traga autonomia na vida”.

    “Se há a opção de ir morar em outro lugar, é necessário pensar nos benefícios que isso trará. Ela não pode ir para um lar tóxico, se vai morar com outra pessoa precisa ter afeto, acolhimento e respeito”, completou.

    Caso não exista a possibilidade do afastamento, Lívia declarou que é necessário impor limites, e fazê-lo entender até onde está indo essa toxicidade. “Saiba impor limites, seja assertivo, aprenda a dizer a pessoa como você se sente, o que você é capaz de aceitar e o que não admitirá”. Mesmo sendo difícil para quem está vivendo a relação, é possível. Ao perceber que está novamente em um momento de conflito, o conselho é de não embarcar na discussão imediatamente. Respire, se afaste e retorne com calma para se posicionar.  O dito popular funciona: quando um não quer, dois não brigam. Se a briga te faz mal, não se permita se sentir mal.

    A rede de apoio é totalmente importante quando chega o momento de se desligar emocionalmente ou fisicamente desse familiar e romper com o cordão umbilical que os une. “Os amigos reais, que estão sempre por terão serão fundamentais antes de qualquer atitude. Estar com pessoas da família que gostem de você também, essa rede de apoio é importante para que a pessoa não se sinta sozinha. Depois, ela pode sair dessa atmosfera, respirar e decidir o que por fim, poderá fazer”.

    *O nome foi trocado para preservar a identidade da jovem.

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